1ª
Versão
Por Aluno 43
Olho-me no
espelho, de tempos em tempos, procurando auto-afirmar minha idade. Algumas
pessoas recém conhecidas me atribuem quatorze anos – sabe se lá porque – e
fazem com que eu mergulhe numa crise existencial de segundos. “Não, eu tenho
dezessete.”, respondo secretamente irritada. Como as pessoas podem pensar que mal
entrei no ensino médio? E então, vendo meu reflexo no espelho, não só
convenço-me de que ao menos passei dos quinze, como também mergulho em
pensamentos sobre as mudanças que vivi.
Penso no que
eu estava fazendo quando tinha a idade que atribuíram a mim: quatorze.
Completei tais anos no fim de 2010, terminada a oitava série. Aquele ano
transformara minha mente de uma forma como poucos acontecimentos fizeram. Eu
havia me mudado de Porto Alegre – uma capital com a típica violência, calor
infernal e poluição – para Canela – cidade do interior cheia de campos de
araucárias, vida mais livre e inverno rigoroso. O grande impacto, no entanto,
foi ir de uma escola particular para uma pública. Encarei uma realidade que não
fazia ideia da existência, bem diferente de tudo que eu já vivera.
Primeiro,
imagine uma menina de dois anos, gordinha e sorridente indo para uma escola
privada na Zona Norte de Porto Alegre. Agora, imagine que ela frequentou o
mesmo colégio durante os onze anos seguintes. Tinha sempre a atenção dos
professores e ótimas aulas; ia ao laboratório, ao anfiteatro que parecia um
cinema, às salas de informática; praticava diversos esportes nas quadras ou no
ginásio; teve aula de marcenaria, de costura, de mosaico, de teatro. Alguns de
seus colegas pareciam, aos olhos dela, ter tudo o que queriam, e os pais deles
iam à direção reclamar sempre que fosse necessário. A própria menina podia
ganhar de aniversário o que pedia e via o mesmo ocorrendo com os amigos da
classe. O que ela mais amava, no entanto, era estar em aula: aprender era um
prazer imensurável. Escrever poesia, entender o corpo humano, descobrir História
e Geografia – tudo isso ao lado de educadores muito cuidadosos. Essa menina era
eu.
Não foi
possível, porém, que eu continuasse a viver dessa maneira. Após a separação dos
meus pais e outros acontecimentos, nos mudamos para a Serra Gaúcha, onde passei
a frequentar o Ensino Público. Algumas coisas na nova escola eram bem
diferentes: A biblioteca, por exemplo, não ficava aberta no meu turno de aula,
pois não havia bibliotecário. Não me deram livros didáticos para levar para
casa, o que deveria acontecer nos colégios do estado. Quando a bola de vôlei
furou, não tive mais vôlei. E, quando a bola de futebol estragou, meus colegas
tiveram que fazer uma vaquinha para comprar uma nova. Acho também que algumas
janelinhas de vidro do corredor eram quebradas – algo não muito aconselhável
para quem passa o inverno em Canela.
Mas não foi a
infraestrutura que me chocou. O que me deixou pasma, na verdade, era o fato de
que praticamente não havia aula com conteúdo. Algumas professoras apenas
escreviam no quadro: “Copiar da página x à y”. Matemática? Só lembro de
aprender Bhaskara. A professora de
inglês escrevia inglês errado. E, ao contrário de toda atenção e cuidado com
que eu estava acostumada, os lemas pareciam ser “salve-se quem puder” e “o
aluno é a escória da escola”. Com muito esforço entre a turma completamente
barulhenta e bagunceira, as professoras de Português e Artes conseguiam passar
a matéria – e eu as vejo como heroínas. De resto, eu e meus novos amigos
havíamos encontrado um escape para o tédio maçante de aulas que exigem apenas
presença física: UNO. Jogávamos Uno quase sempre e sempre que podíamos. Ah,
também havia o jogo do arremesso ao lixo.
O que me
deixava triste era o total desinteresse dos meus colegas para estudar ou
aprender algo. De início eles me estranharam e me trataram mal. Consegui
provar, no entanto, que eu não era mesquinha ou esnobe. Mas, vendo o diferente
pensamento de vida e a dificuldade no aprendizado que eles apresentavam,
comecei a me indignar com o mundo. O que meus colegas haviam feito para merecer
uma história e recursos tão diferentes de mim? Por que não podiam ter uma boa educação
e base escolar? Por que haviam sido privados de boas aulas e tinham que
frequentar um ambiente tão desestimulante? O que os tornava desmerecedores de
uma escola que realmente os ensinasse a calcular ou incentivasse a ler? Aliás, por que eu não podia voltar para minha
antiga escola e ter uma boa aula? Qual era razão de alguns terem muito, e
outros tão pouco?
As perguntas
que me deixaram aflita também me ensinaram muitas coisas. Aprendi um pouco
sobre a desigualdade do mundo, de como ele não é meritocrático e muito menos
justo. Entendi por que muita gente não conclui nem o ensino fundamental:
trabalhar parece muito mais produtivo e proveitoso. E, acima de tudo, passei a
valorizar ainda mais minha educação. Dinheiro vai e vem, mas minha formação e
conhecimento jamais podem ser tirados de mim – eles perdurarão.
Emergindo de meus pensamentos, encontro
novamente meu reflexo no espelho. Embora tenha passado por muitas outras
mudanças até os dias de hoje, aos quatorze anos eu já havia concluído coisas
que espero levar para a vida inteira. “É,” penso eu, “não posso me ofender se
me atribuem tal idade”.
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