quinta-feira, 9 de junho de 2016

Direita, esquerda

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Aluno 78


Algo entre seis, seis e dez da manhã, antes mesmo do sol aparecer no céu e distribuo no meu único par de mãos o celular, os fones de ouvido, uma torrada e a mochila que vou colocar nas costas. Começa agora uma caminhada que dou sorte de fazer todos os dias. Abro meu portão e pouco antes de sair olho para a esquerda e pra direita. Checando, sabem? Preciso saber se ninguém vai aparecer de repente e roubar meu celular. Nem uma alma viva na rua. Coloco os fones no ouvido, escolho uma primeira música e me ponho a caminhar.
            As ruas no meu bairro são todas bem retas, e entre uma ou outra tem uma passarela bem no meio que conecta com a próxima, então viro a primeira esquerda numa dessas. É bem difícil passar ali essa hora, porque está escuro e posso pisar em alguma coisa indesejada. Ah, claro que aqueles pivetes filhos dos meus vizinhos deixaram ali, novamente, pedras as quais usam de “goleira” quando jogam futebol. Talvez pela terceira vez na semana tropeço numa delas, pois parece até que sabem exatamente onde vou passar. 
            Viro à direita. Nessa rua que passo agora tem um cheiro horrível, porque num pedaço dela tem os fundos de um supermercado cujos funcionários são completamente desprovidos de noção e acha aceitável só jogar lixo por tudo. Dou uma acelerada no passo, viro a esquerda noutra dessas passarelas e de novo à direita.
            Essa rua tem duas paradas de ônibus, “pra que duas?” sempre penso, pois tem só alguns metros de distância uma da outra. Sempre vejo o mesmo grupo de pessoas nas duas paradas e me pergunto qual será o porquê destes espertos cidadãos matutinos não esperarem todos numa só parada poupando o motorista de parar o ônibus de dois em dois minutos. Novamente à esquerda e quando chego aqui infelizmente já acabei de comer minha torrada. Ah, olha só, essa rua tem não duas, mas três paradas de ônibus onde a situação da anterior se repete. Nessa fica a escola onde cursei o fundamental, então quando estou passando sempre diminuo um pouquinho a velocidade do caminhar, só pra dar uma olhada em como estão as coisas ali por dentro. Nostalgia que vivo rapidinho diariamente. Viro à direita.
            Ok, agora a maior parte do trajeto, onde em altas temperaturas já me encontro suando e quando na chuva já me encontro encharcado. Essa é uma avenida, então posso ir tanto pelo lado direito ou pelo esquerdo da mesma. Eu vou pelo esquerdo, pois neste, devido a menor quantidade de gramado no terreno das calçadas, é menor a possibilidade de sujar os tênis. Sei ainda que deste lado a maioria dos moradores cuida das árvores que tem em frente a suas casas, então preciso me abaixar bem menos do que do outro pra não bater com a cabeça num galho. Passos rápidos, pois noto que já estou em cima da hora.
            Agora é a parte onde todos os dias me dá a primeira vontade de explodir da manhã. Consigo ver de longe, debaixo de uma árvore de joão-bolão, já de pé aquela besta infernal esperando inocentes transeuntes. Aprendi desde o primeiro dia que agora tenho que mudar para o lado direito da avenida. Se não ele vai assim como o fez nos primeiros dias, latir e correr atrás de mim. É um cachorro de raça, que até dá pena de ver, fica na frente da casa todos os dias porque o dono que só não digo pior porque não conheço, é um irresponsável que não dá a mínima pro bichinho. Assim que já passei o território, volto para o lado esquerdo da avenida. Às vezes eu mostro a língua praquele infeliz, já que não tem ninguém olhando mesmo. Desvio a cabeça dos galhos de um ipê roxo em frente a um brechó e dobro mais uma esquerda.
            Nesta rua, quando não me atraso, topo com uma senhora que mesmo não me conhecendo sempre acena amigavelmente. Tem ali também uma bicicleta linda, que me faz diminuir o passo para admirar. Quando percebo, o tempo do trajeto acabou sendo o mesmo de todos os dias, como se eu não tivesse feito nem uma coisinha diferente. E talvez eu não tenha mesmo, pois já é tão rotina que o cérebro funciona no automático. Dobro a última direita, aonde chego a meu destino. A casa da minha amiga Gabriela, que tenho a sorte de ter horários de aula bem parecidos com os meus. O pai dela leva ela de carro e apesar de nunca me responder o bom dia que cordialmente dou, é gentil o suficiente para me dar carona até a faculdade.
            Neste dia, assim como em tantos outros, virei seis esquerdas e seis direitas em meia hora de caminhada. Desse jeito todos os dias eu economizo R$7,95 em passagem de ônibus e evito o risco de chegar atrasado nalguma aula importante. Quando sento no carro coloco o sinto e finalmente paro para respirar. Ouço na Gaúcha o Macedo conversando com o Cleo Kuhn e possivelmente pego no sono, pois aqui já vou perder a conta de quantos passos são dados para atingir o destino.  

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