1 Versão
Aluno 78
Algo entre seis, seis e dez da
manhã, antes mesmo do sol aparecer no céu e distribuo no meu único par de mãos
o celular, os fones de ouvido, uma torrada e a mochila que vou colocar nas
costas. Começa agora uma caminhada que dou sorte de fazer todos os dias. Abro
meu portão e pouco antes de sair olho para a esquerda e pra direita. Checando,
sabem? Preciso saber se ninguém vai aparecer de repente e roubar meu celular.
Nem uma alma viva na rua. Coloco os fones no ouvido, escolho uma primeira
música e me ponho a caminhar.
As
ruas no meu bairro são todas bem retas, e entre uma ou outra tem uma passarela
bem no meio que conecta com a próxima, então viro a primeira esquerda numa
dessas. É bem difícil passar ali essa hora, porque está escuro e posso pisar em
alguma coisa indesejada. Ah, claro que aqueles pivetes filhos dos meus vizinhos
deixaram ali, novamente, pedras as quais usam de “goleira” quando jogam
futebol. Talvez pela terceira vez na semana tropeço numa delas, pois parece até
que sabem exatamente onde vou passar.
Viro
à direita. Nessa rua que passo agora tem um cheiro horrível, porque num pedaço
dela tem os fundos de um supermercado cujos funcionários são completamente
desprovidos de noção e acha aceitável só jogar lixo por tudo. Dou uma acelerada
no passo, viro a esquerda noutra dessas passarelas e de novo à direita.
Essa
rua tem duas paradas de ônibus, “pra que duas?” sempre penso, pois tem só
alguns metros de distância uma da outra. Sempre vejo o mesmo grupo de pessoas
nas duas paradas e me pergunto qual será o porquê destes espertos cidadãos
matutinos não esperarem todos numa só parada poupando o motorista de parar o
ônibus de dois em dois minutos. Novamente à esquerda e quando chego aqui
infelizmente já acabei de comer minha torrada. Ah, olha só, essa rua tem não
duas, mas três paradas de ônibus onde a situação da anterior se repete. Nessa
fica a escola onde cursei o fundamental, então quando estou passando sempre
diminuo um pouquinho a velocidade do caminhar, só pra dar uma olhada em como
estão as coisas ali por dentro. Nostalgia que vivo rapidinho diariamente. Viro
à direita.
Ok,
agora a maior parte do trajeto, onde em altas temperaturas já me encontro
suando e quando na chuva já me encontro encharcado. Essa é uma avenida, então
posso ir tanto pelo lado direito ou pelo esquerdo da mesma. Eu vou pelo esquerdo,
pois neste, devido a menor quantidade de gramado no terreno das calçadas, é
menor a possibilidade de sujar os tênis. Sei ainda que deste lado a maioria dos
moradores cuida das árvores que tem em frente a suas casas, então preciso me
abaixar bem menos do que do outro pra não bater com a cabeça num galho. Passos
rápidos, pois noto que já estou em cima da hora.
Agora
é a parte onde todos os dias me dá a primeira vontade de explodir da manhã. Consigo
ver de longe, debaixo de uma árvore de joão-bolão, já de pé aquela besta
infernal esperando inocentes transeuntes. Aprendi desde o primeiro dia que
agora tenho que mudar para o lado direito da avenida. Se não ele vai assim como
o fez nos primeiros dias, latir e correr atrás de mim. É um cachorro de raça,
que até dá pena de ver, fica na frente da casa todos os dias porque o dono que
só não digo pior porque não conheço, é um irresponsável que não dá a mínima pro
bichinho. Assim que já passei o território, volto para o lado esquerdo da
avenida. Às vezes eu mostro a língua praquele infeliz, já que não tem ninguém
olhando mesmo. Desvio a cabeça dos galhos de um ipê roxo em frente a um brechó
e dobro mais uma esquerda.
Nesta
rua, quando não me atraso, topo com uma senhora que mesmo não me conhecendo
sempre acena amigavelmente. Tem ali também uma bicicleta linda, que me faz
diminuir o passo para admirar. Quando percebo, o tempo do trajeto acabou sendo
o mesmo de todos os dias, como se eu não tivesse feito nem uma coisinha
diferente. E talvez eu não tenha mesmo, pois já é tão rotina que o cérebro
funciona no automático. Dobro a última direita, aonde chego a meu destino. A
casa da minha amiga Gabriela, que tenho a sorte de ter horários de aula bem
parecidos com os meus. O pai dela leva ela de carro e apesar de nunca me
responder o bom dia que cordialmente dou, é gentil o suficiente para me dar
carona até a faculdade.
Neste
dia, assim como em tantos outros, virei seis esquerdas e seis direitas em meia
hora de caminhada. Desse jeito todos os dias eu economizo R$7,95 em passagem de
ônibus e evito o risco de chegar atrasado nalguma aula importante. Quando sento
no carro coloco o sinto e finalmente paro para respirar. Ouço na Gaúcha o
Macedo conversando com o Cleo Kuhn e possivelmente pego no sono, pois aqui já
vou perder a conta de quantos passos são dados para atingir o destino.
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