Aluno 127
Reescrita
Sobre o ato de ler, tenho algumas experiências que fortemente veem a minha mente e despertam minha memória, sendo que, dentre estas, há em especial o momento em que comecei a interpretar o mundo a partir do que lia e de interpretar a mim mesmo a partir do que relia neste mundo. Com o pulsar do meu sentir e imaginar surgindo rapidamente com o passar da idade, lembro-me que após ter aprendido a decodificar a palavra, veio-me o desejo de ler frases, textos que produzissem um significado que fosse além do meu nome ou palavras soltas como a-b-e-l-h-a, mas como dar este salto tão grande e vasto no meio dessa enorme e profunda floresta de saberes?
Bom, eu não tinha a resposta, mas minha mãe, sim. A família deve ter um papel importante no despertar da criança quanto ao seu interesse pela leitura e não deixar apenas na mão da escola e dos professores, conforme nos diz Rottava, 2000; e minha mãe o teve. Ela me incentivou a procurar estes materiais de leitura desconhecidos até então. Me ensinou onde encontrá-los.
Minha família não era nem é abastada, por isso minha mãe sempre me levava junto a sebos diversos e me habituara com as histórias em quadrinhos que, por serem de valor mais acessível, ela costumava comprar algumas obras com frequência, tais como Turma da Mônica ou As Aventuras do Pequeno Ninja (este último provavelmente não é mais produzido). Elas, além de possuírem um teor literário mais simples (léxico, discurso, etc.), também possuem suas capas e interiores permeados por ilustrações que ajudam a transmitir o significado para o leitor e permitem a livre interpretação e recriação da história por meio da imaginação latente: “O personagem fará isso agora” ou “ele vai se encontrar com fulano”, por exemplo. Deste modo favorecendo minha aprendizagem por meio da decodificação de sentidos expressos pelo texto escrito e imagético em conjunto. Caso este, que como pode ser explicado pelo artigo de Kleimam,2004, página 18, a imagem, se usada, tem de estar ali para elucidar ou dar suporte ao texto escrito:
[…] A imagem que inicia a unidade desempenha o papel de coadjuvante na interpretação da linguagem; a relação poderia ser descrita, seguindo Barthes (1967) como uma relação de co-dependência, pois seria o texto verbal que elaboraria os muitos e vagos sentidos evocados pela imagem. Em outras palavras, a imagem “ancorando” o texto permitiria múltiplas hipóteses de leitura que a leitura do texto verbal restringiria.
Com o impulso dado pela minha mãe e pelas histórias em quadrinhos que ela comprava, pude então me tornar um leitor autônomo, pude dialogar comigo mesmo e procurar textos e livros apenas escritos. Me lembro de um destes primeiros livros, Atíria na Amazônia de Lúcia Almeida. A história conta a aventura de Atíria, uma borboleta, que na floresta Amazônica precisa percorrer inúmeros perigos a fim de salvar seu amado. A leitura foi muito prazerosa, pois como pode perceber, ainda lembro, pelo menos em parte, da narrativa. Porém, não fora somente agradável, também fora o momento que pude empreender minhas experiências de leitura que até aquele momento tinha desenvolvido e, como citei no primeiro parágrafo, interpretar meu mundo através dela. Pude deixar as páginas do livro transbordarem na minha realidade, conectar e relacionar as palavras com o real e fantasioso, como quando via uma borboleta e logo imaginava se ela não seria a Atíria - fase esta que possivelmente fora ainda mais acentuada pela já continua leitura dos quadrinhos animados. Processo que Paulo Freire nos chama a atenção muitas vezes durante o texto A Importância do Ato de Ler, de 1989 e do qual retirei um trecho:
Refiro-me a que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. De alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo mas por uma certa forma de “escrevê-lo” ou “de reescrevê-lo”, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente.
Portanto, o conhecimento que adquirimos através de nossas leituras e escritas implica na aproximação da nossa realidade e imaginação com a linguagem, seja ela escrita ou imagética. E, de preferência, se ambas estiverem “atuando” juntas na construção de sentido de um texto, seja qual for, que elas estejam ali para complementarem uma a outra, para dar um novo meio de interpretação de mundo ao leitor.
Referências:
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23. Ed. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 23° edição, p. 7-49, 1989.
KLEIMAN, ANGELA B. Abordagens da leitura. In: SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 7, n. 14, p. 13-22, 1° sem. 2004.
ROTTAVA, LÚCIA. A Importância da Leitura na Construção do Conhecimento. Revista Espaços da Escola, Ijuí, Editora UNIJUI, a.9, n. 35, jan.-mar. p-11-16, 2000.
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