Aluno 128
Reescrita
Eu e meus familiares sempre passamos os feriados juntos. Gostamos disso porque mantém a família unida e porque momentos assim normalmente são acompanhados de um festival de pessoas falando alto, rindo e comendo. Eu estou acostumada com esse tipo de acontecimento, mas no começo da adolescência meu hábito era comer e fugir da companhia dos meus tagarelas. Não era para fazer descaso, apenas preferia fugir de perguntas embaraçosas (do tipo - e os namorados?) e para ocupar meu tempo lendo ou ouvindo música.
Por volta daquela época, minha mãe cursava seu Técnico em Enfermagem e pegava o mesmo ônibus todos os dias para ai até o centro de Porto Alegre. Foi em uma dessas idas e vindas até o curso que ela ouviu uma conversa no ônibus entre duas mulheres que ela conhecia de vista, sentadas nos bancos em frente ao seu. Ambas comentavam sobre o feriado de Páscoa que estava próximo (para o qual minha família estava preparando a garganta e a barriga há semanas). O que chamou a atenção de minha genitora, todavia, foi a seguinte fala de uma delas: “a pior parte dos feriados é ter que ficar com meu marido e meus filhos”. Elas continuaram a conversa e logo desceram do coletivo, mas minha matriarca não pôde deixar de pensar no que ouvira, pois assim que chegou em casa fez questão de comentar isso.
Talvez não tenha sido exatamente a história que eu a ouvi contar que fez com que eu mudasse a maneira com que vejo meus familiares e convivo com eles, mas com certeza serviu como incentivo. Eu já me perguntava se não era errado não estar mais tempo em companhia dessas pessoas, mas sempre evitei pensar nisso para não sair da minha zona de conforto. Depois de ouvir o relato, no entanto, senti que não era possível aprender com meus entes queridos ou mesmo somar experiências com eles se eu não procurasse me aproximar e “fazer parte do grupo”. Percebi, à medida que me aproximei, que quanto mais interesse eu demonstrava nas preocupações e nos problemas das pessoas que amo, maior era a atenção que as minhas aflições e dúvidas recebiam.
Foi após esse evento, que pouco teve a ver comigo, que me dei conta de que o clichê “Nenhum homem é uma ilha” realmente faz sentido, ao contrário da maioria dos clichês. Era impossível, então, que eu não entendesse a gravidade do erro que eu cometia ao me afastar para evitar perguntas constrangedoras ou não ouvir algumas fofocas sobre a vida alheia. Eu de fato precisava – e preciso – da companhia dos meus e aceitá-los e amá-los faz parte do pacote. Essa mudança de atitude fez muito bem para mim, que até hoje torço para que a mulher do ônibus tenha encontrado algum incentivo para também mudar seu ponto de vista.
Aceitar as pessoas como elas são
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