1ª
Versão
Por Aluno 37
"O que não me mata me torna mais forte". Nietzsche
pode ter morrido demente e sifilítico, internado em um hospício; em vida -
dentre outras peculiaridades - quase cometeu suicídio após a rejeição do único
pedido de casamento que pronunciou. Porém, da mesma forma que sua patologia foi
a quebra necessária para construir sua filosofia, possuo eu minha própria –
adquirida em meados dos meus dezoito anos - a divisora das águas entre o meu
“era” e o meu “sou”.
De certo, um memorável evento: me recordo dele toda vez que
olho para meu braço esquerdo – minha primeira tatuagem. Uma lembrança da
finitude de minha vida, expressa pela tinta - agora uma das partes que me
compõem - que em somente alguns anos tornar-se-á opaca. Lembra-me de que o que
é feito agora pesará mais tarde; que o êxtase da agulha picando uma, duas, três
e centenas de vezes minha derme por minuto foi o aviso recebido precocemente
das infindáveis decepções e frustrações que me aguardavam nos futuros anos. O
do amálgama de sangue e tinta negra cobrindo minha pele, limpos pela toalha do
artista para revelar o traço abaixo: como tudo o que nós passamos no começo da
vida constitui - por mais que arda - quem somos. Lembrança, também, da
responsabilidade na tomada das decisões: uma errada poderá lhe custar uma vida
de arrependimento.
Chamem a tatuagem de meu vício pelo perpétuo: como Nietzsche,
também sou sedento dele. Como Nietzsche, também, encontrei um dos objetos para
meus delírios: o olho da agulha, perfeccionismo máximo aplicável à obra que o
tornará tão memorável quanto a tinta em sua pele. Ela é minha terapia
construtiva e destrutiva; com ela, modelo-me conforme meu ideal. Com ela,
estimulo esse sentimento tão nobre que é o desejo pela imortalidade. Desejo
deixar o que meu pai, muitas vezes e em muitas frases diferentes, me disse -
aqui resumido: “Filho, minha função é te pressionar: o homem começa a morrer
quando ele descansa em demasiado.”; portanto, fiz da tatuagem minha própria
pressão voluntária: se todas as cicatrizes são educativas, planejarei minhas
próprias.
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