quarta-feira, 14 de maio de 2014

Da tinta que em minha pele habita

1ª Versão
Por Aluno 37

"O que não me mata me torna mais forte". Nietzsche pode ter morrido demente e sifilítico, internado em um hospício; em vida - dentre outras peculiaridades - quase cometeu suicídio após a rejeição do único pedido de casamento que pronunciou. Porém, da mesma forma que sua patologia foi a quebra necessária para construir sua filosofia, possuo eu minha própria – adquirida em meados dos meus dezoito anos - a divisora das águas entre o meu “era” e o meu “sou”.
De certo, um memorável evento: me recordo dele toda vez que olho para meu braço esquerdo – minha primeira tatuagem. Uma lembrança da finitude de minha vida, expressa pela tinta - agora uma das partes que me compõem - que em somente alguns anos tornar-se-á opaca. Lembra-me de que o que é feito agora pesará mais tarde; que o êxtase da agulha picando uma, duas, três e centenas de vezes minha derme por minuto foi o aviso recebido precocemente das infindáveis decepções e frustrações que me aguardavam nos futuros anos. O do amálgama de sangue e tinta negra cobrindo minha pele, limpos pela toalha do artista para revelar o traço abaixo: como tudo o que nós passamos no começo da vida constitui - por mais que arda - quem somos. Lembrança, também, da responsabilidade na tomada das decisões: uma errada poderá lhe custar uma vida de arrependimento.
Chamem a tatuagem de meu vício pelo perpétuo: como Nietzsche, também sou sedento dele. Como Nietzsche, também, encontrei um dos objetos para meus delírios: o olho da agulha, perfeccionismo máximo aplicável à obra que o tornará tão memorável quanto a tinta em sua pele. Ela é minha terapia construtiva e destrutiva; com ela, modelo-me conforme meu ideal. Com ela, estimulo esse sentimento tão nobre que é o desejo pela imortalidade. Desejo deixar o que meu pai, muitas vezes e em muitas frases diferentes, me disse - aqui resumido: “Filho, minha função é te pressionar: o homem começa a morrer quando ele descansa em demasiado.”; portanto, fiz da tatuagem minha própria pressão voluntária: se todas as cicatrizes são educativas, planejarei minhas próprias.

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