Aluno 94
Reescrita
Pretensão, no dicionário: aspiração; presunção. Pra mim,
dever; obrigação. Na Grécia antiga pecado era não ser quem você é, ou ser tudo
que você pode ser. De certa forma, eu sigo essa concepção há um bom tempo, como
um herói grego, talvez. Mas eu nem sempre fui assim, e explicar a gênese dessa
característica através de palavras parece-me um desafio. De qualquer forma,
deixe-me explicar metaforicamente essa característica peculiar do meu mito.
O que você
teria a dizer se estivesse de pé no meio de uma cidade inteira dizimada, com
cada via desbotada em morte e cada pavilhão desmoronado? Como você se sentiria
quando você adquire a noção de que a vida é realmente um universo de
possibilidades, que você é jovem e tem uma vida pela frente e, no entanto, cada
parte de você já viu absolutamente tudo que há pra se ver? Nessa imagem, o
tempo queima. Todos os seus anos desmoronam como pavilhões, as horas despencam
como um escombro, você apenas sente a fuligem cair em suas mãos enquanto tenta
entender o que aconteceu. Tudo queimou e desmoronou. O que você sentiria e
faria? O que você se tornaria?
Quando
você vê e vive demais, como se viesse essa cena, por exemplo, tudo se torna
como uma única mistura homogênea. Um rio completamente denso e amargo, cuja
profundidade não pode ser mensurada e nem sua composição revelada. Incapaz de
fracionamento. Incapaz de qualquer tipo de destilação que permita uma melhor
análise. Você acaba sendo apenas um fluxo de uma correnteza que não consegue se
explicar ou ser algo a mais. Mas, no entanto, eu não fui tragado pela
correnteza. Nenhuma névoa de negação me parou. Um único impulso restou pulsando
em mim: o de ir além.
Ir além.
Almejar. Buscar. Essa pretensão posta como dever, fazer. Independente de tudo,
de si, dos outros. Fernando pessoa disse certa vez, em um poema, que um Deus é
Deus porque não se pensa. Você pode me ver por aí como um Sísifo sorrindo
enquanto carrega seu fardo, um projeto de herói grego barato que não pensa. Mas
quando se vê a pretensão em meu íntimo, como se está vendo agora, se entende
que isso não é uma questão de sonhos ou egos. É dever. Dever de ser a
psicografia de cada vítima daquela cena, denunciando sua própria tragédia,
descrevendo os cheiros, os escombros, seus últimos suspiros. Eu sou um impulso
animal carregado que ascenderá ao olimpo. Essa é a minha pretensão. Carregado,
cheio e decidido, porque entre o fracasso e o sucesso, na piada ou admiração,
sendo ridículo ou fenomenal, isso pouco me importa, pois eu não quero pecar. Eu
tenho que ser e ir além. Eu tenho que ser pretensioso. Estou sendo agora no
momento, não estou? Por fim, apenas relaxe, observe e critique. Agora você pode
me definir em seu vernáculo como Gabriel; Zeus. Quanto a mim, eu não me penso
realmente. Ou pelo menos é o que eu minto para mim mesmo. Sabe como é, Oscar
Wilde já dizia: definir é limitar.
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