domingo, 19 de junho de 2016

Memória Marcante

Aluno 94
1 Versão


E aí pessoal. Tudo bem? E lá vamos nós de novo. Dessa vez tentem segurar as risadas. Ou melhor, não tentem. Eu sou muito bom em contar coisas. Pensei muito bem em qual memória marcante eu deveria escavar. Tá, mentira, eu não pensei. Mas eu pensei em dizer algo relativamente engraçado e que não fosse muito pesado, então acabei por pegar a pá da memória e escavei até encontrar o caixão do dia 23 de novembro, enterrado num péssimo 2014. Falo caixão porque toda lembrança é um. O que é contar algo passado se não realizar a autópsia de um cadáver já morto? A memória contém coisas mortas.
Eles me chamam de Facista. Ops. Lembrança errada. Eles me chamam de Esqueceram.  Esqueceram porque quando cortei o cabelo pela primeira vez – acredite, eu tinha cabelo até o peito – um cara do treino disse: “Ei, tu ta parecendo o ator do Esqueceram de Mim, qual é o nome?”. Filho da puta. Todos começaram a me chamar de Esqueceram depois disso. A maioria dos caras do Jiu-Jitsu já me conhecia por que eu treinava Muaythai no mesmo lugar há um dou dois anos. Sim, vocês estão ouvindo bem. Sim, eu, esse pedaço de 56ks. Apesar das improbabilidades físicas, eu sempre fui o tipo de pessoa que aceita até mesmo descer no inferno e desafiar satanás sem pensar duas vezes. Então, quando fui convidado a praticar Jiu, não hesitei. Muito menos quando fui convidado a competir logo em seguida sem não ter noção nenhuma da modalidade.
            Fodeu!
            Na semana de preparação, quase rompi um ligamento. A minha tia Carmen – sim, Tia Carmen, minha tia é médica e se chama Carmen -, viu a situação da minha perna esquerda e logo falou: deu ruim. Tu vai precisar  de repouso. Repouso é o caralho, tia! – Pensei. Eu tinha responsabilidade de passar vergonha no sábado. No entanto, minha linguagem verbal permaneceu calada, enquanto a não-verbal parecia estar tendo um derrame através das micro expressões faciais. Em outras palavras, estava com cara de bunda. Fui para casa. Ainda assim, o capetinha, o exu, o bicho ruim, o mão peluda, o mochila d criança, o sete peles, o tinhoso, sussurava no meu ouvido: “foda-se, foda-se, foda-se. Vai competir . Vai competir. Vai competir!” , e então, sem nem ter tempo de pensar, minha própria boca proferiu a maldição: foda-se.
            Eu sempre toco o foda-se.
            Chegando lá, estou eu fazendo a famosa cara de bunda universal do tipo “eu vou te matar”. Isso é uma coisa que se aprende com o tempo, principalmente quando você costuma perder 5kgs por dia em uma graduação. Mas isso é outra história. O tempo não passava, eu queria ir logo e terminar o serviço. Eu sentia a perna trincar só de dar um passo, mas tava pouco me fodendo. Depois de umas duas horas vendo os outros se fodendo ali no tatame, fui chamado. É agora. Vai Taffarel. Vai Gabirú. É agora. É tetra, é tetra. Fodeu. A perna, a perna. Deu ruim. Bati no tatame e tive que desistir.
            Até hoje tenho isso como memória marcante. Talvez porque até hoje eu sinto, às vezes, trincar a perna esquerda. Se eu tivesse ouvido minha tia, se eu tivesse ouvido os profissionais, mas não, eu tinha que ir, eu tinha que fazer merda. Eu não sei não me desafia. Às vezes as pessoas olham a minha medalha mofada d vice no armário. Elas acham que isso é alguma coisa. Pra mim, porra nenhuma. Penso até em dizer o porquê, mas aí a minha perna trinca e eu deixo pra lá. Para mim, cadáveres devem ficar em seus túmulos. Vocês não sentem algo ao desenterrarem alguma lembrança? Por mais simples que ela seja, como essa, ela é um cadáver. E cadáveres não deixam odores agradáveis, não é mesmo?



Nenhum comentário:

Postar um comentário