Aluno 90
1 Versão
Respondendo a algumas
perguntas hipotéticas, de caráter mental e silencioso, que acredito terem sido
feitas nessas últimas duas semanas, não sou um fascista.
Posso ter uma expressão talvez
sepulcral enquanto caminho, estando geralmente sozinho, sem outra pessoa para
suscitar o meu bom humor. Meu cabelo, ocasionais botas e configuração facial,
digamos, naturalmente negativa contribuem para com isso. (Uma vez perguntaram
se eu estava irritado, mas era só a minha cara normal. E o cabelo é porque,
convenhamos, uma hora enche o saco e a pele pede por oxigênio. As botas fazem
mais ou menos o contrário disso quanto à derme pedal, mas de vez em quando é
bom se sentir como um astronauta.)
Mas como disse antes, basta
uma conversa com outrem que eu viro alguém bem glicêmico. É extremamente
supimpa perguntar “como tu vai?”, “tempo ruim, né?” ou “você gostaria de
aprender sobre algas?” e ver a pessoa exprimindo suas opiniões e preocupações,
após comiserando com ela ou enaltecendo o seu êxito. E, contrário ao senso
comum, eu acho todas as perguntas acima inteiramente tris para o propósito de
uma conversa, que no dia-a-dia dificilmente vai além do contato emocional
interpessoal para aliviar as tensões de sermos animaizinhos solitários dentro
de nossas cascas.
Seria alguém assim – ainda
mais um amante de cianofíceas, diatomáceas e daquelas pobres vítimas
transformadas em sushi – um fascista? “Um,
dois! um, dois!, como estamos hoje?“ Não, amiguinhos meus, garanto-lhes que
alterno entre os modos socialista, anarquista e nudista filosófico numa base
semanal. “Liberaloide” eu sou.
Mas ser assim não é um ato
limitado a rótulos, modalidades ideológicas. Envolve não só o perceber e o
pensar, mas também a prática e a sensação. Em particular a nós do lado sinistro
da força, tais ações orbitam na esfera de libertação do espírito, de mente
aberta e de comunhão melosa e cardíaca para com o grande, diverso mar de gente
que inspira obras clássicas da literatura como Cadê Wally.
Digo, é olhar para fora e
tentar compreender, incorporar a multiplicidade humana. Enquanto um exemplário
fascista representa, metaforicamente, a maleabilidade de uma brita, nós somos
mais como o David Bowie.
“Por que tudo isso”, você não
vai perguntar, mas eu vou responder mesmo assim. Bom, uma boa parte da minha
vida é dedicada ao combate à sensação de ser um animalzinho solitário dentro de
minha casca – sempre fui alguém muito solitário, e a minha tendência natural é
uma de isolamento. Acho que sempre buscamos um oposto polar na vida – os
tristes procuram os felizes, os temperados procuram os agitados, os solitários
procuram não ser solitários, e os tristes, temperados e solitários procuram
mais ou menos o que eu busco: o grande “pipol”,
um senso de comunidade, algo que nos faz de fato sentir algo além de “oh meu
Deus por que me botaste nesta terra”.
Além do mais, os outros têm
muito o que nos ensinar, e que maneira melhor de combater a solidão que não
escutar um pensamento que nossas mesquinhas cabeças nunca pensariam, sentir,
quase viver, uma miríade de vidas diferentes?
O que não é, é claro, aquilo que o Kurt Vonnegut chamou de “fazer amor com o
mundo e pegar pneumonia”. Há de não se idealizar totalmente – não é o povo que
vai te fazer sentir feliz em todas as ocasiões, e tampouco ele é perfeito,
havendo, apesar destes momentos de convicção religiosa, de fato uma quantidade
hedionda de coisas ruins sendo praticadas por e entre nós.
Mas essas coisas podem ser
melhoradas. Uma parte ínfima delas, claro, mas nada impraticável em meios
simples como, por exemplo, o dia-a-dia. Atos de cidadania básica: respeitar a
fila, não jogar lixo na rua, não falar com o coleguinha ao lado do ouvido do
outro coleguinha que tenta prestar atenção à aula etc., etc.
Talvez isso me torne 0,01%
“fascistoide”, e a minha rígida configuração física na verdade reflita uma
certa preocupação com a ordem, que é a única coisa proveitosa a se tirar dessa
ideologia horrível. Com toda a honestidade, porém, essa preocupação para com o
público – e, adicionemos, a ordem neste âmbito – é porque eu me importo com o
bem de todos, me colocando nos seus lugares e sentindo aquela velha platitude
de os tratar como gostaria de ser tratado.
Ou é porque eu, na verdade,
tenha dificuldades para tolerar a falta de consciência das pessoas e acho
muitas delas um pé-no-saco; sei lá, depende do dia. O fato é que, se todos se
preocupassem com o bem coletivo, o mundo simplesmente explodiria, mas isso não
impede a gente de tentar. Digo, quantos Charles Mansons, Átilas os Hunos ou
imitadores de Elvis em escala industrial não seriam prevenidos, fôssemos mais
conscientes e responsáveis?
Suspiro, chega. Gostaria de terminar abruptamente este texto
embaraçoso dizendo que eu, apesar de variações, gosto de vocês, pessoas, embora
muitas vezes tenha que ser que nem o Ultraman, voando até um solitário sol de
mau humor e desprezo para recarregar minhas energias. Um Ultraman meio
horrível, mas definitivamente não fascista.
Votem em mim.
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