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Aluno 103
Todos os anos meus pais costumavam viajar pro
Litoral de Santa Catarina, juntamente com alguns amigos da família. Isso já era
um tipo de tradição antes de meu irmão e eu nascermos e assim se seguiu até o
ano de 2005. As cidades eram sempre as mesmas, os estilos de casas também, e
assim as praias. Levando em conta a segurança das crianças e a tranquilidade
dos pais, as prainhas escolhidas eram as mais calmas possíveis, onde havia
poucos visitantes e o mar era sereno. Quando o lugar ideal na areia era
encontrado, os adultos "montavam acampamento" e eu corria em direção
ao mar. Porque era como se ele me chamasse, porque eu o amava, porque eu era feliz
demais sentindo a água geladinha nas minhas pernas gordinhas. Nessa época eu
tinha 5 anos, e a rotina de praia era sempre essa: chegada, corrida, mar, meu
melhor amigo naqueles momentos. Até que um dia essa rotina, impecável e muito
adorada por mim, mudou.
Chegamos
à praia, encontramos o lugar ideal, e os adultos começaram os trabalhos. O
melhor amigo mar continuava lá, e eu, sem saber que ele tinha bebido todas
durante a noite fui ser a Lúcia saltitante, mais uma vez. Ele estava com um
negócio muito estranho chamado "ressaca". Papai e mamãe não sabiam, é
claro, e tudo aconteceu absurdamente rápido. As imagens ainda são muito nítidas
na minha cabeça quando me lembro desse episódio. Meu pai, meu ex melhor amigo
mar e minha mãe, todos misturados e embaçados, assim como quando tentamos
manter os nossos olhos abertos debaixo d'água. Em um minuto eu tinha a água nos
meus joelhos, e no outro eu lutava muito pra me manter na superfície. As ondas
iam e vinham, e meus pezinhos tão gordinhos desesperadamente tentavam tocar o
chão, mas o danado não ajudava. Meu pai, num momento de impulso de herói correu
em minha direção e estava quase me alcançando quando um buraco apareceu no meio
do caminho e eu continuei sendo levada pra longe. É estranho, mas ao mesmo
tempo engraçado, que em momento algum eu entrei em desespero, porque só pensava
na seguinte coisa: "poxa vida, a minha amiga Nádia disse que sabe boiar,
se eu soubesse boiar agora eu não estaria assim". Até hoje quando penso
nisso fico tentando entender de onde surgiu esse pensamento. Talvez seja esse o
motivo de eu gostar e me identificar tanto com a Alice, aquela do país das
maravilhas. Papai sumiu do meu campo de visão e aí entra em cena mamãe com a
mágica do sorriso que nunca existiu. Sorriso que eu enxerguei, sorriso que eu
VI nela e posso afirmar que lembro nitidamente. Sorriso que me tranquilizou
ainda mais. Ela também entrou na água no desespero de não deixar a Lúcia
gordinha de cinco anos ser levada pelo -agora muito malvado- mar, e a água nos
meus olhos me confundiu TANTO que eu enxerguei na mamãe desesperada um sorriso.
O que ela negou, obviamente, porque segundo ela: "não havia motivo nenhum
pra eu estar sorrindo naquela hora". Não lembro direito de como eu fui
alcançada e nem do trajeto até a areia, mas meu pai conta que só enxergava o
loirinho dos meus cabelos boiando na água quando conseguiu me alcançar, e por
muito -muito pouco mesmo- não foi levado também. No colo da mãe, a paz reinou
de novo, mas não posso dizer que tudo voltou ao normal.
Depois
daquele ano, as viagens para lá nunca mais aconteceram e um sentimento
diferente veio grudadinho em mim: o medo do meu ex amigo mar. Eu nunca mais
corri pra encontrar o meu amigo, eu nunca mais gostei de ficar horas brincando
na água, e nem mesmo de sentar na margem e sentir as ondinhas indo e vindo.
Esse foi um dos momentos de aprendizagem mais marcantes da minha vida. Tudo
isso teria sido evitado se eu já soubesse boiar, então logo após o acontecido
tive pressa de aprender. E aprendi também que, é sempre bom perguntar aos
amigos por onde eles andaram na noite passada.
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