Aluno 94
Reescrita
Memória marcante? Bem, eu tenho uma. A
história que vou contar aconteceu em 2014; sendo mais preciso, dia 23 de março.
Mas para entender melhor a história, deixe-me antes situá-lo em como eu cheguei
a este dia. Eu estava começando a treinar Jiu-Jitsu, estava ali há duas semanas
e, em fevereiro, rumava para o meu primeiro mês de treinamento. A maioria dos
praticantes, porém, já me conhecia porque eu treinava Muaythai na mesma
academia há uns dois anos. Sim, eu, esse
pedaço de 56kgs. Apesar das improbabilidades físicas como corpo magro e saúde
frágil, eu sempre fui o tipo de pessoa que aceita te mesmo descer no inferno e
desafiar satanás, sem qualquer receio ou hesitação. Esse ímpeto, infelizmente,
também foi minha ruína. Falarei disso em seguida. O fato é que, naquele
fevereiro, quando fui convidado para competir e um campeonato no mês seguinte,
março, sequer hesitei em me afirmar perante os meus parceiros de treino.
Mas deu ruim.
Na semana de preparação, quase rompi um
ligamento. Fui ao médico e a doutora viu a minha situação e logo disse: “Tu
vais precisar de repouso, Gabriel”. Repouso é o caramba – pensei. Eu tinha a
responsabilidade de competir. Para mim, todo desafio é uma ordem, e eu preciso
vivê-los sem hesitação. No entanto, permaneci calado enquanto pensava no
campeonato. Eu deveria competir? Eu deveria ouvir a doutora? Pensei durante
todo o resto da consulta dentro daquelas quatro paredes, e elas pareciam me
oprimir a dar uma resposta. Quando cheguei em casa, foi pior. As paredes me
oprimiram mais ainda com essa pergunta. Me vi então sem saída, ou sem escolha,
e acabei concluindo que eu deveria. Deveria sim competir mesmo com a perna
lesionada.
“E daí que deu ruim?” – Pensava.
Então chegou março, e o dia da
competição também. O lugar em que eu iria para competir era um ginásio como
todos os outros: um projeto de coliseu com arquibancadas e teto. Quando entrei,
senti a amplitude do lugar e isso mexeu comigo. Indaguei a mim mesmo novamente
se de fato eu deveria estar competindo, se era meu dever mesmo ir contra a
minha saúde e simplesmente lutar. Eu era o primeiro e, ainda sim, o tempo não
parecia se mover. Quando irei terminar com tudo isso? – me perguntava. O meu
momento nunca chegava, e cada vez mais eu ia ficando angustiado e agoniado.
Depois de uma hora que mais pareceu uma década, o treinador anunciou que era
minha vez. Ironicamente, nesse momento, aquele tempo que parecia não se mover e
nunca chegava, agora passava em um piscar de olhos. Como se todo atraso do tempo
fosse atualizado agora, em questão de alguns segundos, talvez, não sei afirmar,
me vi sentindo a perna e, quando menos esperei, já havia perdido a luta.
Até hoje tenho isso como memória
marcante. Eu nem sei explicar corretamente o que aconteceu, a única coisa que
me lembro é da perna trincado e eu sentindo que sim, eu deveria ter ouvido a
doutora. Se eu tivesse ouvido ela, se eu tivesse ouvido os profissionais... Mas
não. O meu gênio havia de me guiar, havia de me guiar à frustração. Às vezes as
pessoas olham a minha medalha mofada de vice no armário. Elas acham que ela é
algo importante. Na verdade, pra mim, ela não é nada além de uma experiência de
aviso: eu devo ouvir os outros.
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