1 Versão
Aluno 88
Antes mesmo de eu nascer,
minha mãe abriu uma poupança para que algum dia seu filho ou sua filha pudesse
viajar para fora do país. Então, quando eu menos esperava, eles me botaram em
um avião com destino à Londres.
Chegando
lá, me deparei com o frio e a constante garoa da cidade. Meu encanto era tão
grande que não notei que meu nariz estava sangrando, devido ao frio, até que
uma senhora gentilmente me ofereceu um lenço avisando-me que iria sujar minha
roupa caso não limpasse. A partir daí desfiz o estereótipo que “britânicos são
mal educados” e passei a admirar cada uma daquelas pessoas com lindos sotaques.
Percebi o estereótipo criado lá sobre os brasileiros ao ler no jornal algo
sobre os “samba boys”. E também ao me
perguntarem se nós morávamos em árvores junto com os animais. Em alguns desses
momentos, disse a eles que meu nome era Tupiniquim e um chegou a falar que
colocaria esse nome em seus filhos.
Morei
na casa de uma família muito grande, na cidade de Bath – onde Jane Austen morou
por volta dos anos 1800 --, com várias crianças que me pediam para jogar Mario Kart com elas e também com vários
gatos, cachorros e galinhas. Eu dividia o quarto com uma au pair da Espanha que cuidava das crianças da casa. Ela me levou
para vários lugares, um deles o que mais gostei: uma piscina natural com águas
termais de minérios de ferro onde, diz a lenda, os romanos enfermos se banhavam
após as guerras para se curarem.
Com
a vontade de conhecer mais e mais lugares, fui para a Escócia gastando apenas 7
euros para chegar até lá. Fiquei em um hostel com mais de 6 pessoas no quarto. Nesses
dias em Edimburgo, tive contato pela primeira vez com a neve de uma forma
brusca: aconteceu uma tempestade de neve muito forte que quase nos deixou sem
teto. Mesmo com esse problema, minha vontade, egoísta, era que a tempestade não
passasse para que ficasse “trancada” naquele lugar cheio de pessoas ruivas e
castelos antigos.
Uma
viagem para um lugar distante da minha casa abriu meus olhos para a importância
da simplicidade e a beleza nela. Desapeguei de várias necessidades, que agora
são desnecessárias, e aprendi a ver a beleza da minha insignificância. Em
vários momentos, me senti Tupiniquim sozinha sem ninguém “como eu” para
compartilhar o que estava acontecendo. Foram nesses momentos que aprendi que
cada vez que me sentir sozinha, lembrarei do dia da tempestade, na escuridão
das 5 horas da tarde onde não havia mais ninguém, só eu e a neve perambulando
pela rua. Naquele dia não me senti sozinha, me senti comigo.
Ao
atravessar o mundo, quase nada mudou, a não ser o fato de eu ter saído do meu
ninho e trago na volta algumas experiências e aprendizados que não poderia aprender
de outra maneira, senão fazendo tudo o que fiz como fiz.
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