sexta-feira, 17 de junho de 2016

Tupiniquim

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Aluno 88


Antes mesmo de eu nascer, minha mãe abriu uma poupança para que algum dia seu filho ou sua filha pudesse viajar para fora do país. Então, quando eu menos esperava, eles me botaram em um avião com destino à Londres.
Chegando lá, me deparei com o frio e a constante garoa da cidade. Meu encanto era tão grande que não notei que meu nariz estava sangrando, devido ao frio, até que uma senhora gentilmente me ofereceu um lenço avisando-me que iria sujar minha roupa caso não limpasse. A partir daí desfiz o estereótipo que “britânicos são mal educados” e passei a admirar cada uma daquelas pessoas com lindos sotaques. Percebi o estereótipo criado lá sobre os brasileiros ao ler no jornal algo sobre os “samba boys”. E também ao me perguntarem se nós morávamos em árvores junto com os animais. Em alguns desses momentos, disse a eles que meu nome era Tupiniquim e um chegou a falar que colocaria esse nome em seus filhos.
Morei na casa de uma família muito grande, na cidade de Bath – onde Jane Austen morou por volta dos anos 1800 --, com várias crianças que me pediam para jogar Mario Kart com elas e também com vários gatos, cachorros e galinhas. Eu dividia o quarto com uma au pair da Espanha que cuidava das crianças da casa. Ela me levou para vários lugares, um deles o que mais gostei: uma piscina natural com águas termais de minérios de ferro onde, diz a lenda, os romanos enfermos se banhavam após as guerras para se curarem.
Com a vontade de conhecer mais e mais lugares, fui para a Escócia gastando apenas 7 euros para chegar até lá. Fiquei em um hostel com mais de 6 pessoas no quarto. Nesses dias em Edimburgo, tive contato pela primeira vez com a neve de uma forma brusca: aconteceu uma tempestade de neve muito forte que quase nos deixou sem teto. Mesmo com esse problema, minha vontade, egoísta, era que a tempestade não passasse para que ficasse “trancada” naquele lugar cheio de pessoas ruivas e castelos antigos.
Uma viagem para um lugar distante da minha casa abriu meus olhos para a importância da simplicidade e a beleza nela. Desapeguei de várias necessidades, que agora são desnecessárias, e aprendi a ver a beleza da minha insignificância. Em vários momentos, me senti Tupiniquim sozinha sem ninguém “como eu” para compartilhar o que estava acontecendo. Foram nesses momentos que aprendi que cada vez que me sentir sozinha, lembrarei do dia da tempestade, na escuridão das 5 horas da tarde onde não havia mais ninguém, só eu e a neve perambulando pela rua. Naquele dia não me senti sozinha, me senti comigo.
Ao atravessar o mundo, quase nada mudou, a não ser o fato de eu ter saído do meu ninho e trago na volta algumas experiências e aprendizados que não poderia aprender de outra maneira, senão fazendo tudo o que fiz como fiz.

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