segunda-feira, 10 de julho de 2017

Boa noite vizinhança

Aluno 118
Reescrita


“Não faz isso comigo Rodrigo.” – uma voz feminina berra no meio da madrugada. Acordo desorientada e assustada. Escuto uma porta batendo no andar de baixo. Torpe de sono abro os olhos e me deparo com o escuro da madrugada. “Como é que tu faz isso comigo Rodrigo?” – continua a voz feminina no mesmo tom. Lampejos de raciocínio começam a se formar na minha mente: é a madrugada de domingo, estou sozinha no apartamento, tem uma mulher precisando de ajuda?
“Para com isso Kamila.” – berra uma voz masculina em resposta aos gritos, assumidamente a de Rodrigo. Mais portas são batidas. Localizo meu celular, ele marca quatro horas e trinta e sete minutos da manhã. “Onde tu tava?” – branda a voz que agora assumidamente pertence a Kamila. Começo a formar a ideia de ligar para o 190, a discussão pode se tornar agressão. “Para Kamila, te acalma, eu tava trabalhando”. Paro, presto atenção - a voz apesar de alta não portava sinal de violência, mas um tom incrivelmente calmo de conciliação. "Olha a hora que tu tá chegando, como tu faz isso comigo?" - continua Kamila.
Continuo prestando atenção, não há indícios de agressão física, mas a discussão verbal continua entre Kamila e Rodrigo por mais alguns minutos, portas continuaram a ser batidas e os vizinhos continuam sendo os ouvintes. Ela continuou irritada, ele continua tentando uma conciliação até às cinco e quinze da manhã.
Após chegar a conclusão que a discussão do casal era sobre onde se passa a noite, eu só consegui pensar que eu ficaria muito feliz se o meu cônjuge chegasse por volta das quatro da manhã do trabalho (ou de onde quer que ele esteja) ao invés de chegar na hora em que eu acordo, como é o meu normal. Assim, podemos aprender a relativizar, o que é inaceitável para a felicidade de um casal, pode ser uma questão de felicidade para outro casal.

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