Aluno 132
Reescrita
“Ela tava lá, amiga, sentada na escada do meu prédio, encolhida, chorando, com as roupa tudo rasgada... Ela tava sangrando, sabe? Era terrível de olha, era nojento de pensa o que tinha acontecido com ela...”
Assim começou a história que Rebeca precisava me contar com urgência, e foi por isso que fui à sua casa. Enquanto ela falava, um filme passava em minha cabeça: aquela moça era só mais uma, era só mais uma desgraçada da vida que sofria as consequências de uma sociedade injusta e machista, ela era só mais uma a sofrer agressão, só mais uma no meio de tantas outras, mas para alguém ela significava algo, para mim ela foi o divisor de águas.
Rebeca encontrou essa menina em uma quarta-feira à tarde enquanto saía para levar o lixo. Ao abrir portão do prédio se deparou com um corpo inerte, encolhido como um animal acuado, abraçado em suas pernas como se elas fossem as únicas coisas que ainda restassem em sua vida. Minha amiga sentiu que precisava se aproximar, mas como? Os instantes que antecederam sua movimentação foram completamente confusos: afinal, o que teria se passado? Como abordar alguém em tamanha posição de fragilidade?
Pois que Rebeca foi e ao tocar no ombro da menina, viu o corpo da mesma se encolher ainda mais, como se ela estivesse tentando entrar em si mesma. Minha amiga, então, entendeu que qualquer contato físico só serviria para afastar ainda mais aquela pessoa, e se contentou em sentar próximo a ela e aguardar. Passados alguns minutos, a tensão corporal começou a diminuir e, aos poucos, a estranha fragilizada já estava a olhar de canto para Rebeca, como se sentisse que ali não haveria mais perigo.
A espera angustiava minha amiga que só sentia vontade de pegar aquela irmã no colo, levar para seu apartamento e dar-lhe um banho quente e aconchegante. Queria retirar todo aquele sangue sujo da pele de uma menina tão frágil, com um olhar tão assustado, dar amor àquele ursinho de pelúcia esfarrapado. A investida, então, recomeçou, Rebeca disse como se chamava e aguardou uma resposta, que veio sussurrada, quase inaudível: Jéssica.
Percebendo que minha amiga não iria embora, Jéssica continuava a olhar enviesado para aquela mulher que não saia de perto dela, como se fosse uma coruja protegendo o seu filhote. Ela até já conseguia sentir seu medo indo embora de maneira muito devagar, como se alguém tivesse acendido uma vela dentro de uma caverna escura e muito funda. A luz vinha turva, porém quente, e esse calor, de alguma maneira, a reconfortava.
Rebeca me contou que o seu instinto de cuidar da moça foi muito maior do que qualquer outro ímpeto de tira-la dali o mais rápido possível, então aguardou. Esperou até o momento que Jéssica concordou em subir para o seu apartamento para, pelo menos, colocar outras roupas e comer algo, já que ela parecia extremamente desgastada.
Após o banho, minha amiga se prontificou a fazer os curativos nos cortes da ursinha, não seria exatamente como costurar remendos em sua pele, mas ainda assim ela estaria ajudando a curar as feridas. Ao longo do cuidado, Jéssica lhe contou de maneira resumida como aquilo havia acontecido: seu namorado teria a espancado e quebrado uma garrafa em seu corpo, pois estava com ciúme de seu melhor amigo. A menina ainda afirmava que nunca teria dado motivos para tamanha violência, que tentava respeitar ao máximo todas as ordens de seu namorado, mas não achava justo ter que se afastar de seu melhor amigo por conta de ciúme.
Enquanto ouvia esse relato, sentia que algo dentro de mim estava se desmoronando, como se uma imensa venda feita de tijolos maciços que estava posta diante dos meus olhos, estivesse sendo quebrada. Cada palavra que Rebeca transmitia daquele episódio só me mostrava com mais clareza a jaula em que eu estava posta: um relacionamento abusivo, sufocante, com um homem que poderia chegar ao nível de agressividade que o namorado de Jéssica chegou, com um companheiro que gritava, humilhava e ainda se julgava com toda a razão.
Finalmente, tendo uma interpretação mais clara daquilo que vinha sendo minha vida, me pus chorar ao fim da história que minha amiga contava. Como um clarão em meio ao breu total, eu podia ver, mesmo que ainda desnorteada, a situação de perigo em que me colocava por aquilo que julgava ser amor e proteção. Afinal, eu nunca havia interpretado o ciúme excessivo de meu namorado como algo anormal, achava que o comportamento agressivo dele referente a todo e qualquer homem que se aproximava de mim fosse somente zelo, como se ele fosse o único capaz de cuidar de mim. Entendia nesse momento o porquê de Rebeca me contar a história de Jéssica: ela estava me alertando quanto à minha segurança.
Após sair do apartamento de Rebeca àquela tarde, me dirigi para casa pensativa: sabia que precisava tomar uma atitude drástica, eu tinha a consciência de que se meu relacionamento se prolongasse, talvez eu sofresse as mesmas penas que Jéssica sofrera. Uma semana se passara até o momento de maior coragem, o momento no qual reuni todas as minhas forças e coloquei um fim àquele namoro-jaula. A reação dele foi previsível: não aceitou, mas mesmo ressabiada, eu tinha a convicção de que aquela era a decisão certa a ser tomada.
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