Aluno 141
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Há alguns meses atrás, eu li um texto que definia a aprendizagem como todas as experiências capazes de causar mudança em uma pessoa. A experiência que me moldou mais profundamente não foi vivenciada na minha curta vida, mas décadas antes de meu nascimento. Ela me foi contada aos fins de tarde, depois dos longos dias de trabalho dos meus pais, em uma época em que eu ainda cabia no conforto de seus colos. Nos relatos, meu pai recordava de sua própria figura na época da juventude, momento em que a passagem de um único homem em sua vida lhe permitiu aprender a ensinar.
Meu pai nasceu em Jaquirana, cidade da serra gaúcha repleta de araucárias. Logo nos primeiros anos de idade descobriu que era dessas árvores que tiraria o sustento para a sua família ao ganhar seu primeiro machado, proporcional as pequenas mãos da criança que mal havia formado cinco anos de idade. Se na escala mundial as grandes potências se confrontavam na Segunda Grande Guerra, na esfera da família de origem portuguesa a maior batalha era sobreviver às adversidades impostas pela realidade da vida no campo.
Nessa realidade áspera, não existia espaço para lápis nas mãos ocupadas por enxadas. Depois de uma breve introdução às letras, suficiente somente para fins de alfabetização, a permanência na escola deixou de ser uma possibilidade e, por quatorze anos, os estudos desapareceram da vida de meu pai. Entretanto, contrário à todas as adversidades, o homem que não havia posto os pés na escola nutriu o sonho de se tornar professor.
Logo quando moço meu pai se tornou o responsável por sair em longas cavalgadas com seus irmãos ou primos homens em descidas pelas montanhas de Cambará do Sul em direção aos Moinhos de Vento, lugar onde poderia moer os grãos de cereais e conseguir alimentos refinados. Foi em uma dessas andanças que meu pai conheceu uma pessoa sobre a qual somente se refere como "Padre". Para mim, esse homem não tem nome, rosto ou trejeitos. Ele é somente um ser de grande gentileza que se solidarizou com a história de um menino da serra e resolveu lhe oferecer uma oportunidade. Na época, meu pai havia se informado sobre a existência de uma bolsa de estudos para o colegial, mas não podia concorrer sem ter frequentado as aulas das séries iniciais.
Meu pai sabia da importância da bolsa de estudos para tornar as suas aspirações realidade. Felizmente, o Padre também ficou sabendo da vontade de meu pai de voltar a estudar. Como resultado, nasceu uma promessa entre os dois: se meu pai conseguisse estudar todas as matérias e passasse no concurso para ganhar a bolsa de estudos, o Padre lhe daria o certificado de conclusão das séries iniciais.
No final das contas, meu pai ganhou a bolsa, voltou a estudar e, anos depois, ingressou na faculdade para se tornar professor. Já faz cerca de vinte anos que meu pai se afastou da docência pela aposentadoria por tempo de serviço. Mesmo assim, ao lembrar da generosidade daquela figura sem nome, seus olhos chegam a marejar por trás da carranca de homem que não chora.
O Padre não precisava ter acolhido meu pai. Contudo, ele teve a sensibilidade de ajudá-lo, mesmo em uma situação que poderia ser considerada juridicamente condenável. Por muitas vezes nos sentimos tão pequenos e insignificantes perante as outras pessoas, mas esse único ato de bondade, de uma pessoa desaparecida há mais de meio século de nossas vidas, demonstra como cada indivíduo é capaz de gerar um ciclo de mudança. Eu posso desconhecer o nome e o rosto dessa pessoa, mas mesmo assim ela foi capaz de me mudar pelo mais singelo dos atos de generosidade.
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