Aluno 120
Reescrita
Era metade de fevereiro, e eu estava comprando material escolar em uma papelaria do centro de Porto Alegre, algo que sempre faço nessa época do ano. Eu olhava a seção dos cadernos e me divertia com a minha indecisão – rosa ou lilás? estampado ou liso? com figurinha ou sem figurinha? Sim, aquele momento era muito bom! Afinal, quem não se anima comprando material escolar? A minha felicidade, contudo, desapareceu em um piscar de olhos. Bastou eu enxergá-lo a alguns metros de mim para que eu desejasse sair correndo daquela loja.
Gabriel estava lá. Ele, assim como eu, fazia compras. A sua presença me perturbava, pois o menino fazia-me lembrar do quão cruel eu já havia sido. E o pior de tudo aquilo – ele estava observando o setor dos diários. Diários! Como ele não havia desistido de escrevê-los depois de tudo que fizeram com ele? Ou melhor, depois de tudo que eu fiz com ele?
Aquele garoto foi um colega meu, quatro anos atrás, na oitava série. Ele sempre foi visto como diferente pelas outras crianças. Era uma pessoa distante, que não gostava de conversar ou de brincar com ninguém durante o recreio. Gabriel apenas se abria para um pequeno diário, que o acompanhava a todo momento. Eram raros os momentos em que ele não estava escrevendo; igualmente raro era quando ele escrevia sem chorar. Ele tentava disfarçar as suas lágrimas, mas a turma inteira as percebia. O que fazíamos? Ríamos, afinal, Gabriel, além de isolado e estranho, era um chorão.
É claro que, diante dessa situação, a curiosidade pré-adolescente começou a aflorar. “O que será que Gabriel tanto escreve? Por que ele sempre chora?” – essas eram perguntas que circulavam pela nossa turma, e todos estávamos empenhados a ir atrás de suas respostas. Como espiões, reunimo-nos no auditório da escola e começamos a tramar o seguinte plano para sanar as nossas dúvidas: roubaríamos o diário de Gabriel e o leríamos conjuntamente depois.
Na mesma semana da reunião, atingimos os nossos propósitos. Apenas tivemos que esperar Gabriel ir ao banheiro e... pronto, diário roubado. Iniciamos a leitura nos dias seguintes, na casa de um colega, e logo entendemos o motivo de Gabriel ser tão estranho. Ele era o que chamávamos de bixa. Nas páginas de seu diário, o menino explicou o quanto se sentia diferente e como tinha medo de ser julgado pelo o que realmente era – por isso, mantinha distância das pessoas.
Pois é, o medo de Gabriel virou realidade. Não foi só a nossa turma que o julgou – fizemos questão que toda a escola falasse (mal) dele. Tiramos cópias dos escritos do garoto e as colamos nos murais dos corredores. Em pouco tempo, alguém que era tão isolado e distante tornou-se o centro das atenções; não era mais o Zé-Ninguém, agora chamava-se Gaybriel.
Não é difícil de imaginar como o colega ficou após esse constrangimento. Ele tornou-se ainda mais recluso, parou de frequentar as aulas e as suas notas começaram a cair. Os pais de Gabriel, preocupados com o comportamento do filho, marcaram uma reunião com a diretora da escola, e esta os contou tudo. No dia seguinte à visita de seus pais, o nosso colega apareceu com um olho roxo. Todos sabíamos o que provavelmente havia acontecido em sua casa. Rimos com gosto. "Olhem só, todos, Gaybriel apanhou como mulherzinha!", era o que dizíamos - até mesmo nós, meninas.
É claro que Gabriel trocou de escola, e ninguém nunca mais ouviu falar dele. Essa era a primeira vez que eu o via depois de quatro anos. Quem me dera se eu não o tivesse visto, se eu tivesse simplesmente esquecido de sua existência! Hoje, não digo isso por desaprovar a identidade de meu ex-colega, mas por ter vergonha de ter participado de seu sofrimento – li seu diário em voz alta, chamei-o por apelidos maldosos... Não gosto de lembrar-me do quão cruel já fui.
Hoje, mais madura, reconheço o meu erro e aprendo com ele – sei que não devo repeti-lo. Mas do que adianta esse reconhecimento? Gabriel sofreu a vida toda pelo o que eu e outros colegas fizemos. Eu, por outro lado, vou sentir-me culpada por alguns minutos e, depois, darei continuidade à minha vida, como se nada tivesse acontecido. Comprarei os meus cadernos e irei embora.
Sim, os cadernos. Nem me importava mais com eles. Deixei-os de lado. A única coisa que estava na minha cabeça era que eu precisava mudar alguma coisa, precisava agir. Caminhei até Gabriel, com o intuito de falar com ele. Dessa vez, eu não queria machucá-lo. Eu queria apenas compreendê-lo. E eu sabia: isso era tudo que ele queria.
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