Aluno 120
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Era um domingo chuvoso, um daqueles que te faz desejar ficar na cama o dia inteiro. Infelizmente, eu não estava na cama - estava no shopping, esperando uma amiga minha. Iríamos assistir a um filme no cinema. Eu a esperava impacientemente, afinal, ela já estava atrasada há uns vinte minutos e não atendia às minhas chamadas no celular. Estava quase sucumbindo à ideia de ir para casa, de assistir algo no Netflix. Mas algo me fez mudar de ideia.
Eu vi Gabriel ao longe. Ele estava sentado, sozinho, em um daqueles bancos de madeira típicos de shoppings. Gabriel foi um colega meu, quatro anos atrás, na oitava série. Ele, como qualquer outra pessoa, tinha uma história de vida. A sua, no entanto, era especial - e foi ela que fez eu perceber o quanto eu já havia sido cruel.
Gabriel sempre foi visto como diferente pelas outras crianças. Ele era uma pessoa distante - parecia que tinha medo de se mostrar aos outros. Ficava sempre na sua, escrevendo em um diário. Às vezes, ele chorava enquanto escrevia e, por mais que tentasse disfarçar, toda a turma percebia. E ninguém fazia nada, afinal, Gabriel tinha a fama de ser estranho mesmo.
Um dia, os garotos mais "populares", isto é, os mais fortes e os mais bonitos da turma, pegaram o diário de Gabriel enquanto este estava no banheiro. Por que fizeram isso? Bom, pré-adolescentes são malvados, essa é a única explicação. E todos lemos o diário de Gabriel, além de tirar foto das melhores partes.
Então, toda a turma entendeu o motivo para Gabriel ser estranho. Ele era o que chamávamos de bixa. Nas páginas do seu diário, escrevia o quanto se sentia diferente por ser assim e como tinha medo do julgamento das outras pessoas. Por isso, evitava fazer amigos.
Gabriel logo notou a ausência de seu diário, e os meninos da turma se negaram em devolvê-lo. O pior foi o seguinte: resolveram colar trechos do diário pelos corredores da escola. Em pouco tempo, Gabriel passou a ser chamado de Gaybriel.
A situação só piorou para o menino. Ele tornou-se mais recluso. Além disso, faltava mais às aulas, e as suas notas pioraram muito. Os pais de Gabriel, preocupados com a mudança de comportamento do filho, foram falar com a diretora e perguntaram-lhe se algo havia ocorrido. E ela lhes disse tudo.
No dia seguinte em que os pais de Gabriel foram à escola, o nosso colega apareceu com um olho roxo. Todos sabíamos o que provavelmente tinha acontecido na sua casa. E a nossa reação? Meras risadas. "Olhem só, todos, Gaybriel apanhou como mulherzinha!", era o que dizíamos - até mesmo nós, meninas.
É claro que Gabriel trocou de escola, e ninguém nunca mais ouviu falar dele. A sua história, contudo, sempre foi lembrada por todos os pré-adolescentes naquela escola, e ficou o aprendizado de que, se você não quer sofrer, não deve ser diferente.
Enquanto eu me lembrava dessa história, fiquei encarando o chão, atônita. E o pior – aquilo que eu não queria admitir para mim mesma – é que eu também fui culpada. Ri de Gabriel como todos os outros, chamei-o por apelidos maldosos e fiz parte do seu sofrimento. Hoje, mais madura, percebo o erro que cometi. Mas do que adianta reconhecer o meu erro? Gabriel sofreu a vida toda pelo o que eu e outros colegas fizemos. Eu, por outro lado, vou sentir-me culpada por alguns minutos e, depois, darei continuidade à minha vida, como se nada tivesse acontecido.
Nesse momento, fui abraçada pelas costas. Minha amiga havia finalmente chegado. Cumprimentou-me e, depois, com um sorriso malicioso, aproximou-se do meu ouvido e disse:
- Guria, tu viu que aquele tal de Gaybriel tá por aqui?
Olhei para o menino. Ele continuava lá, sozinho. Que novidade há nisso? Talvez Gabriel tenha estado sozinho a vida inteira.
- Sim, eu vi – respondi.
E caminhei até Gabriel, deixando a minha amiga para trás. Quem sabe, ainda há tempo de mudar alguma coisa. Gabriel não precisa ser sozinho. E eu não preciso continuar causando sofrimentos.
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