Aluno 140
Reescrita
Dos amigos do meu irmão, Maurício é o mais antigo. Eles se conhecem desde pequenos; moravam na mesma rua e iam à mesma escola, e viam-se tanto que às vezes nem dava para saber onde um terminava e o outro começava. Vitor começava uma frase e Maurícia acabava. Posso te jurar que se um não fosse loiro e o outro moreno até as próprias mães os confundiriam.
Vitor era o mais magrinho, parecia um fiapo dentro das roupas de segunda mão que ganhava do nosso primo, dois anos mais velho. Tinha – e ainda tem – os olhos pretinhos, “de jaboticaba”, como dizem por aí. Maurício já era maior, de cabelos e olhos claros, que contrastavam com os do meu irmão como as tintas de um Caravaggio, gritantemente diferentes, mas complementares, num chiaroscuro que se extendia das suas faces às suas dores e desejos. O que juntava os dois eu nunca soube exatamente, mas se eu tivesse que dizer, acho que era uma vontade de louca de ser mais como o outro. Eles realmente se admiravam muito e viam no amigo aquilo tudo que queriam ter e ser. Vitor era afável e doce e Maurício era enérgico e direto, mas a companhia que tinham na amizade balanceava e fazia dos dois o melhor que eles podiam ser.
Hoje, já adultos, os dois ainda são amigos e ainda seguem essa dança de claro escuro: têm muito em comum, embora Vitor seja professor e Maurício advogado, mesmo aquele gostando de cerveja e esse de whisky; aquele de gatos, esse de bicho nenhum. Acho que dá para notar que em algum momento eles se distanciaram além dos contrastes iniciais. Muita gente diz que isso acontece com todo mundo - nenhuma amizade de infância permanece a mesma depois que a gente casa, tem filho, financia um carro. O que acontece é que eu vi acontecer, na minha frente, o momento em que o Maurício começou a mudar.
A gente morava em casas, não apartamentos, como costuma ser hoje, no pé de uma ladeira. Era uma época em que aquela região ainda tinha muitas ruas de chão batido, o caso da nossa. A ladeira, por outro lado, já vinha passando pelo processo de modernização fazia um tempo, e estava quase totalmente asfaltada, com as calçadas pavimentadas e tudo.
Na infância, ninguém pensava na valorização imobiliária da vizinhança, mas em como aquilo tudo era ótimo para descer de bicicleta. Os guris sempre andavam de bicicleta na rua no fim da tarde. Eles andavam NA bicicleta, porque meus pais não tinham dinheiro para comprar uma para o Vitor, então eles revezavam na do Mau.
Um dia eles tiveram uma ideia brilhante, das melhores que duas mentes de dez anos de idade poderiam ter juntas. O fim da ladeira ainda estava passando pela pavimentação, e os operários tinham deixado um buraco aberto bem alí na frente de casa. Eis o jogo perigoso: um descia a ladeira de bicicleta, usando a gravidade como motor, de olhos fechados. O outro ficava de guarda e gritava: “freia!” bem no último momento, evitando que o amigo caísse no buraco da obra. Acho que eu vi o quão perigoso aquilo era quando ouvi a ideia, mas como era a irmã mais nova ninguém me ouviu.
Vitor foi primeiro porque era o mais corajoso, ou tentava parecer. Acho que tentava compensar por não ser tão atlético quanto Mau e os outros meninos. Ele nem sempre se dava bem com isso, vivia cheio de cortes e machucados. Meu coração de espectadora parou junto com a bicicleta, num tranco. Não me agradava em nada a ideia do meu irmão estatelado no chão (mais uma vez).
O revezamento se seguiu algumas vezes sem maiores problemas. O importante era ir até o fim de olhos fechados, mostrando a coragem, e eles sempre questionavam um ao outro no fim da rodada: “Abriu, né?”, “Não, eu juro que eu não abri!”. Em dada vez, era Mau na pilotagem. Ele respirou fundo lá em cima e veio, os pés soltos sobre os pedais da bicicleta verde. Meu irmão esperava ansioso perto do fim do caminho.
Quando ele chegou perto, bem perto, eu não sei bem o que me deu. Não sei se foi inveja deles, ou se eu queria que o jogo acabasse logo porque me deixava ansiosa, mas derrubei meu urso de pelúcia no chão e gritei como se tivesse sido um acidente terrível. O fato é que meu irmão virou bem na hora; o Mau voou no ar por frações de segundo e foi buraco a dentro, dando de cara nas pedras e entulhos deixados pelos operários. Ouvimos um instante de silêncio seguido de um grito.
Podem começar a me julgar. Eu mesma o fiz por um tempo. Ele não se machucou muito, no entanto, pelo menos fisicamente. Foram alguns arranhões e um pulso quebrado, algumas semanas engessado. Além de mais alguma coisa que quebrou dentro dele – aquele equilíbrio de yin yang se dissipou e o que havia de Vitor em Mau deixou de ser.
Ele ainda era muito legal, ainda jogava videogame muito bem (depois que o braço sarou). Mas tinta direta, bruta e visceral que ele suavizava com as gotas da amizade do meu irmão resolveu ser saturada e reinar sozinha dentro dele, o que sempre me fez me perguntar, não seria aquele o Mau de verdade, enquanto o Mau anterior era apenas uma diluição daquilo que ele realmente tinha que ser?
Depois disso, ele e meu irmão continuaram amigos e seguiram suas vidas em caminhos paralelos, mas diferentes; aquele gostando de futebol e esse de teatro. Sabe como é, nenhuma amizade de infância permanece a mesma depois de casar, ter filhos, deixar seu melhor amigo cair de cabeça num poço de obra. Ele nunca mais foi o mesmo, mas acho que isso foi bom. Quem ele seria se não tivesse sido por aquele segundo, aquele pulso quebrado, aquela quebra de confiança entre eles dois, se ele seguisse se diluindo e enfraquecendo pela personalidade suave do Vitor? O Mau nunca mais confiou totalmente em ninguém além dele mesmo, nunca mais teve a empatia que antes brotava de algum lugar, mas isso fez dele um ótimo advogado.
De nada, Maurício.
Nenhum comentário:
Postar um comentário