Reescrita
Por Aluno 6
É interessante como em uma sociedade
dita moderna o manuseio de furadeira - instrumento destinado a furar paredes,
madeiras e outros materiais- por mulheres ainda cause surpresas e por vezes até
espanto. Isso porque este trabalho é tido como tipicamente masculino. Quando
menciono o fato de que faço instalações de objetos pendentes nas paredes a
familiares e amigos ou mesmo conhecidos logo me indagam com ares surpresos:
- sério que tu mesma fura?
Então respondo:
- sim, aprendi, pois não queria
depender de outros para executar o serviço quando precisasse instalar estantes,
cortinas, ou outros aparatos suspensos.
Desde adolescente, ou mesmo antes
ainda na infância não lembro bem, desenvolvi a “mania” de tentar resolver os
probleminhas ditos domésticos como trocar lâmpadas, interfones, gás, o que para
muitas pessoas é motivo de medo, pintar paredes, em síntese, realizar
atividades gerais de manutenção de uma casa. Por isso, saber utilizar uma
furadeira não seria um item estranho em minha lista de conhecimentos.
Pode-se dizer que minha
relação especificamente com a furadeira é recente. Tudo começou no ano de 2012,
não lembro exatamente do mês, mas foi um ano após minha mudança para São Leopoldo
cidade onde resido atualmente. Meu novo lar, um apartamento em um prédio de
esquina bem localizado no centro da cidade possui dois quartos e uma sala com
amplas janelas iluminadas pela luz solar da aurora. Adoro este astro e a claridade
proporcionada por ele. Sua falta me faz sentir incompleta como uma cadeira de
três pés. No entanto, o calor que provém de seus raios em todas as manhãs
estava excessivo, sufocante, principalmente nos verões escaldantes dos últimos anos.
Além disso, os móveis e aparelhos eletrônicos que eram atingidos por este jato
de luz estavam tendo suas superfícies danificadas, ficando manchados como dálmatas.
Então, resolvi que a instalação de cortinas findaria este pequeno inconveniente
além de embelezar o ambiente.
Encontrada a alternativa de súbito me
veio à mente uma pergunta: A quem pedir auxílio? Não tenho o instrumento
necessário ao serviço e tão pouco sei utilizá-lo.
A solução foi encarar a furadeira de
frente e domá-la como se faz com cavalo xucro ao manuseio. E foi exatamente o
que fiz. Adquiri um equipamento simples, dito doméstico. Seu pequeno porte e
peso permitem a um mulher manuseá-lo
tranquilamente com apenas uma das mãos. Junto com a ferramenta foi preciso
adquirir também brocas e parafusos, pois descobri que sem eles o trabalho não seria
possível. Com os materiais em mãos achei que estava com tudo que precisava e
poderia começar a aventura. Puro engano. Ao me encontrar no topo do sexto
degrau de uma escada simples de uso doméstico, branca feita de ferro, percebi
que o fio do instrumento era curto demais para alcançava a tomada mais próxima.
Era necessário, portanto, um fio mais longo em torno de uns três metros, neste
caso quem desempenharia tal função seria uma extensão. Como não tinha tal
artefato em casa voltei à ferragem e adquiri um cabo, capaz de suportar a corrente
elétrica exigida pela ferramenta tão intensa que pode deixar o operador de
cabelo em pé ou esticado no chão, e mais duas flechas não se comparam às indígenas
e sim são peças que ficam nas extremidades desse fio conectando-o a outros
objetos. Com estes materiais montei a extensão de que precisava e parti para a
ação. Primeiro foi preciso decidir a altura das cortinas, só então medir a
distância do teto ao local escolhido e marcar onde seriam feitos os furos. Até
lembrei-me de colar fita crepe onde seriam feitos os buracos a fim de evitar que
a poeira se espalhasse muito, já que é inevitável que todos os objetos ao em torno
fiquem alvos de pó. Em seguida “fantasie-me” com as indumentárias de proteção:
touca na cabeça, protetor auricular- o barulho de pedras sendo perfuradas
próximo aos ouvidos é ensurdecedor – óculos de proteção, este numa tentativa vã
de evitar que dos olhes desprendessem algumas gotas de lágrimas causadas pelo contato
com o pó fino lançado da parede. Bem trajada entrei em ação com a peça
principal: a furadeira. Liguei o instrumento e apliquei força suficiente com o
braço direito até completa introdução da broca na parede e fiz o primeiro furo.
Repeti a operação para os três outros que eram necessários. Mesmo tendo o braço
já cansado após a força empreendida prendi o suporte da cortina com os
parafusos nas cavidades e em seguida juntei o bastão, já com os panos atrelados.
Missão concluída com sucesso: os encaixes ficaram na medida ajustando-se tal
como luvas nas mãos.
Ao contemplar o resultado do meu
aprendizado senti-me satisfeita por ter alcançado o objetivo de manusear uma
furadeira e resolvido o problema que os salutares raios solares matutinos estavam
causando a epiderme de meus móveis. Além disso, esta experiência me fez
perceber que em muitas ocasiões a solução dos problemas está em nós mesmos e
que podemos aprender tudo aquilo a que nos propomos sem preocuparmo-nos com a
classificação social que o serviço possa ter.
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