Reescrita
Por Aluno 3
Cumprimentamo-nos, como manda a
etiqueta. Por todo o decorrer daquela nossa momentânea interação, respeitosa e
atentamente encarávamos um ao outro, sem ousarmos, sob hipótese alguma, um
inadequado descruzamento de olhares. Na rua se apresentava um céu nublado, como
se as nuvens, por algum motivo muito tensas, observassem atentamente cada
pequeno movimento por nós efetuado durante a atividade que se desenrolava
dentro daquela sala em que praticávamos. Um com mais acentuada elegância, outro
com mais enérgicos movimentos, ambos cautelosos no andar e na manutenção de uma
confortável distância entre nós, assim dávamos continuidade àquela sincrônica,
breve interdependência nossa. O som que preenchia a sala de macio chão e alvas
paredes era melodicamente entoado por uma orquestra de sussurros, da qual
ignorávamos o concerto: não podíamos, naquele momento, dedicar atenção aos
comentários dos curiosos ali presentes relativos à nossa atividade;
estragaríamos todo o ato, desse jeito. Essa notável cadência coreográfica
perdurou por aproximados 60 segundos.
O primeiro a desrespeitar aquela
harmonia, aquela tão bem demonstrada intercalação de passos e de discretos
movimentos, foi este que vos fala. Interessante como um simples instante de
desatenção pode levar à total ruína até a mais perfeita sequência de movimentos.
Minha imediata sanção: três diretos socos ao peito.
Ainda que por um minuto daquela
batalha tenha se mantido vivo um implícito “acordo de não-agressão”, por um
passo em falso que por demasiado diminuiu a distância entre nós dois, deixando
meu temporário companheiro de treino então hábil a me atingir com seus ataques,
esse momento de observação mútua e silenciosa teve seu inevitável fim. Deu-se,
então, início ao combate propriamente dito, na sua faceta mais agressivamente
violenta, sendo deixados de lado por nós, a partir daquele instante, os traços
de natureza mais sublime relativos às artes marciais orientais: não foram
presentes beleza plástica ou filosofia naquela cena.
Os três primeiros golpes de punho,
por não serem por mim de qualquer maneira defendidos, muito a mim injuriaram já
nos primeiros momentos da luta. Os retribuí com uma curta sequência ofensiva:
ainda próximo do Adversário, visando suas costelas, com meu braço direito
lancei na direção de seu torso um golpe vertical ascendente com o cotovelo e,
me distanciando com um rápido movimento de pernas, com o peito do meu pé
esquerdo tentei atingir-lhe a cabeça com um chute circular, do qual o atento
Oponente muito ágil e habilidosamente desviou com um súbito movimento de
cabeça, já com um contra-ataque digno de alarme em sua mente preparado: um
chute frontal em direção ao meu abdome. Deste último ataque por reflexo me esquivei
retirando meu corpo da sua trajetória de impacto, tendo, assim, a oportunidade
de me afastar brevemente da contenda e talvez por alguns pares de segundos
recuperar meu fôlego. Não o pude fazer. O condicionamento físico do prodigioso Oponente
era evidentemente muito mais desenvolvido do que o meu e, sem necessidade por
um instante de relaxamento muscular ou por uma breve retomada de energias, o
notável combatente já à minha frente se posicionava frações de segundo após
minha tentativa de escape dos seus primeiros ataques. Tentei efetuar um rápido
recuo dando um curto salto, pés próximos ao chão, para trás, mas não o pude
fazer. Segurando com ambas as mãos a minha cabeça, e me puxando desse modo para
mais perto do seu peito, deu-me ele uma inesperada joelhada sobre o fígado, tirando
de mim, por um breve e desesperante momento, o controle sobre os meus pulmões. Doíam-me
as costelas. Fraquejavam as minhas pernas.
Se ainda restava em mim alguma dúvida quanto às possibilidades que ali tinha
eu de vencer, a partir desse momento soube que era a mim impossível concluir aquele
embate em melhores condições do que as do meu Desafiante. Por um potente chute
circular, o qual acabou por atingir meu ombro esquerdo, fui arremessado em
direção a um encontro de paredes sobre os cinzentos tatames da academia onde
então praticávamos a luta. Estava, por fim, encurralado e com poucas energias
para continuar.
Iniciei minha prática no caratê no
ano de 2008, e até aquela noite de fevereiro, quatro anos após minha iniciação
como aspirante à artista marcial, não havia ainda me deparado com um oponente
que não apenas se equiparava com minhas habilidades de combate, como se
mostrava incomparavelmente superior a mim na arte da luta corpo-a-corpo: seus aproximados
dois metros de altura, desenvolvida musculatura e mais apurada experiência (derivada
de, no mínimo, dez anos de treinamento) com enfrentamentos de natureza
semelhante à desse duelo aqui representado, fizeram daquele por mim recém
conhecido faixa preta, o qual recebíamos naquela semana como convidado da nossa
academia, um adversário verdadeiramente digno de respeito. Pelo costume, tinha
eu de me mostrar, através de proezas em batalha, valoroso de semelhante
maneira. Visto a dificuldade que encontrei em acompanhar o ritmo à nossa luta
imposto pelos potentes e incessantes punhos do meu bem treinado adversário,
muita dificuldade tive em achar forma alguma que me fizesse aparecer como
também válido lutador naquela ocasião.
Por fim, creio eu que, de alguma forma, o consegui fazer, ainda que sob
severas penas.
De costas, então, para a parede, e somente com aquela ameaçadora montanha
de músculos à minha frente, tentei eu permanecer lutando. Alarguei a distância
entre meus pés, de modo a melhor firmar minha base, encurtei minha guarda,
pondo meus punhos em frente ao queixo e os cotovelos em frente às costelas, e,
tentando achar o mínimo conforto naquela desprivilegiada posição, recostei-me
ao concreto das paredes. Por aproximados dez segundos tentei, com meus braços,
bloquear a avalanche de impiedosos socos que em minha direção eram arremessados
com o peso de incrivelmente densos pedregulhos: falhei miseravelmente. Sentia
cada punho do Oponente à minha frente como se gradativamente esmagasse meu
esterno e as fibras dos meus músculos peitorais, deixando estes com apenas metade
da sua espessura natural. Minhas costelas muito ainda me doíam daquela joelhada
anterior, e através de chutes de baixa altura eram de mim retiradas as forças
das pernas pelo meu oposto. Visto minha incapacidade de, tão cansado quanto
estava, efetivamente manter uma estratégia defensiva, comecei a simplesmente
ignorar todo o dano que recebia, retribuindo socos com mais socos.
Enquanto trocando intermináveis sequências de golpes com o Oponente,
sentia eu a textura suave e levemente aderente do tatame aos meus pés, tomava
noção do frio que se espalhava pelas minhas costas pelo contato com as paredes
de concreto brancas daquela sala, percebia a confortante brisa que de encontro
ao meu fatigado rosto vinha, proveniente das poucas janelas que haviam sido
abertas naquela escaldante noite de mais um exagerado verão porto-alegrense.
Tomei conta, naquele momento de percepção consciente dos meus arredores, de
todos os meus amigos que observavam, em completo silêncio, minhas angustiosas
tentativas de me igualar em batalha àquele agora por todos tão temido e
respeitado faixa preta, e pensei que, se nada mais fizesse até o fim daquele
enfrentamento, iria a todos eles muito severamente decepcionar. Ainda assim,
não sabia o que fazer para me redimir da desonra pela qual passava naquele
momento: notei, pela primeira vez, que sobre a fronte do alto homem à minha
frente não escorria uma única gota de suor, enquanto eu já me percebia desde
muito antes totalmente exaurido daquele fervoroso combate. Ele nem ao menos um
pouco se esforçava enquanto contra mim combatia.
Eu não podia vencer, mas também não podia me dar por vencido, não podia
me deixar ser derrotado, ao menos não ali, não naquele momento.
Aguentaria a dor. Suportaria, em nome dos meus mais próximos e queridos colegas
e amigos, todo o dano a meu corpo transmitido naqueles intermináveis dois
minutos de luta (te parece pouco tempo, leitor? Pois não o é, tenhas certeza).
Meu Adversário sairia vitorioso, porém sem haver, de fato, me derrotado, e assim
conservaria eu minha restante honra. Até que fosse terminado o combate, não
tocaria meus joelhos o chão, e por assim me manter com ereta postura, haveria
eu de me provar verdadeiramente digno aos olhos dos que me julgassem. E assim o
fiz.
Percebi o seguinte: não há vergonha em ser vencido por um valoroso e mais
experiente adversário; a desonra está na derrota pela própria fraqueza frente a
uma situação de provação, como o era a contenda que neste texto tento
representar.
Nos últimos segundos de luta, ficamos por completo imersos naquela
constante movimentação violenta de braços e punhos cerrados, até que,
percebendo um momento propício ao ato, virei-me de costas ao Oponente e, pondo
minhas duas mãos de encontro à parede (de modo a conquistar melhor estabilidade
e impulso), desferi, visando o abdome do carateca a mim oposto, um bem
executado chute retilíneo traseiro (semelhante a um coice de cavalo, realmente)
atingindo (em cheio!) o estômago do alvo com meu calcanhar.
Pelo golpe, nos distanciamos. São trocados os secos sons das batidas e do
rápido arrastar de pés em constante movimentação pelas melodias da até então
silenciosa orquestra de murmúrios. Na rua, finalmente, chove. Eu, combatente com
mais acentuada elegância, e o outro, Oponente com mais enérgicos movimentos,
ambos cautelosos no andar e na manutenção de uma confortável distância entre si,
assim dávamos término àquela nossa caótica, sincrônica, breve interdependência.
Encaramo-nos, novamente, sem ousar um inadequado (e desrespeitoso) descruzar de
olhares. Cessamos as movimentações, nos dispondo, novamente, um em frente ao
outro, ambos com exemplar postura, como deve se apresentar o honroso guerreiro,
e ambos em pé. Cumprimentamo-nos, como manda a etiqueta. Meus colegas muito
aplaudem o combate e os valores de ambos os lutadores.
Quando cessam os elogios dos homens do duelo espectadores aos lutadores,
tratam as gotas de chuva de manter por mais dois dias a incessante sessão de
aplausos à grandiosidade da contenda.
Tem término a batalha.
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