1ª
Versão
Por Aluno 3
Pratico o karatê-do (transcrição
adaptada do japonês ao português por convenção internacional das diferentes
federações representantes da prática da luta) desde março de 2008, quando tinha
eu apenas 12 anos de idade. É minha atividade física de maior apreço e, ainda
que nos dois últimos anos não tenha participado de quaisquer competições
relativas ao esporte baseado na arte marcial da qual aqui trato, desde o meu
segundo ano de práticas participei de vários campeonatos em nome da minha
academia. Foi através dessa minha interação com a competição esportiva que
aprendi uma das lições a que mais me atendo desde que a tomei em meio a um
específico torneio, nos primeiros meses do ano de 2012.
No ano anterior ao do advento a que
anteriormente me referi, tinha eu participado de cinco diferentes competições,
das quais fui eu campeão em todas: uma “maré de boa sorte”, talvez. Quando
competia, era atleta na modalidade de kata.
Os kata (não há plural explícito pela
forma da palavra quando transcrita dessa maneira), também conhecidos como formas (e assim irei me referir a eles
pela maior proximidade do termo à realidade do cotidiano geral), são
possivelmente os maiores resquícios das formas mais tradicionais da prática do karatê mais antigo, e consistem em uma sequência elaborada de movimentos específicos, todos com alguma aplicação voltada à defesa pessoal escondida em
sua “coreografia”. Para as competições de forma,
muito é exigido do atleta o domínio refinado sobre o próprio corpo, de modo que
sempre seja guiado o treinamento do atleta, em relação a todas as sequências
diversas de movimentos dos diagramas sobre os quais são definidas as formas, pelo perfeccionismo exagerado, e
é pelo julgamento de qual dos dois competidores participantes em cada partida
dos campeonatos mais se aproxima dessa perfeição de desempenho que é declarado
o vencedor de uma disputa esportiva de formas.
A prática destas é, por esses e outros motivos não tão relevantes, facilmente
exaustiva ao que não se compromete ao seu treinamento com maior dedicação.
O problema é que, dadas as minhas
sucessivas vitórias naquele ano de 2011, quanto mais vezes seguidas era eu
escolhido campeão dos torneios em que participava, mais me permitia deixar de
lado os treinos mais intensos que tinham por objetivo a real melhora do
exercício dos movimentos que usava nas competições: fui tomado, sem que
notasse, por uma arrogância preguiçosa. O inevitável aconteceu e, no primeiro
campeonato de 2012, fui classificado como segundo colocado na modalidade de formas. Pode não soar como grande
diferença o espaço entre o primeiro e o segundo colocados aos que não passaram
por situação semelhante, mas naquele momento específico senti-me como se
tivesse decepcionado a todos os meus amigos que naquele campeonato também
estavam: alguns destes apenas viam como possibilidade de vitória naquele dia a
minha participação no torneio. Meus amigos não se importaram, e alguns até
mesmo receberam suas primeiras medalhas de ouro naquele dia, o que, de certa
forma, aliviou meu pesar em grande medida, mas não deixei de me sentir
profundamente envergonhado pelo meu “fracasso” (falo desta maneira, com
palavras mais fortes, pois via o acontecido com forma semelhantemente trágica,
na época).
Passados alguns dias do evento,
comecei a me questionar sobre a importância de tudo aquilo, o que poderia levar
de proveitoso para a minha vida, não necessariamente em relação direta às
competições ou ao karatê, daquela minha inesperada derrota no inusitado
campeonato de 2012. Cheguei à seguinte conclusão primeira: a estagnação
derivada da arrogância é, talvez, uma das maiores desgraças que podem acontecer
ao homem. Dado todo o nosso potencial para a grandeza, jamais devemos nos
permitir concluir que somos suficientemente bons em relação a qualquer coisa a
que nos propomos a praticar, estudar, ou aprender. O traço mais fascinante da
humanidade é a sua capacidade de constante desenvolvimento e evolução, seja
esta relativa à prática de um esporte por um indivíduo, seja relativa à
obtenção de conhecimento (tal restrição de sentido é, para o sustento deste argumento,
irrelevante).
Muito sou agradecido, hoje, àquela
minha aparente derrota, por ter essa me ensinado a importância da perseverança
na busca pelo frequente melhoramento de mim mesmo em qualquer aspecto de meu
interesse, pois entendo que esse tipo de concepção muito se mostra fundamental
no maior desenvolvimento das nossas capacidades em proximidade aos limites
impostos a nós pelas nossas próprias naturezas. A força de vontade é o mais
prático caminho de receber um maravilhoso resultado através de um inevitável
sofrimento.
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