Reescrita
Por Aluno 37
O relógio-cuco, marcando o tempo
daquela manhã segundo a segundo, em setembro de 2011. Um homem magro, alto e de
longos cabelos loiros estalava seus dedos, sozinho, na sala de estar. Cortinas
semifechadas, apesar do Sol lá fora: tudo escuro, salvo aqueles dedos quase
imperceptíveis de luz querendo – mas não conseguindo – arrancar furiosamente a
cortina e banhar a sala com seus dourados. Trovões rasgavam minha mente, imaginando
a dor excruciante que eu passaria nas próximas horas; meus dentes rangendo
simulavam a agressão dos grossos pingos de chuva no peito de um homem perdido
na tempestade. Então, o esperneio daquele pássaro de madeira marcava a hora de
enfrentar meus medos: aquiesci aos desejos do bruxuleante feixe de luz na
cortina e afastei-as; o próprio Sol, como a me desejar coragem, me abraçou com
seus braços quentes.
Ao
chegar no local, aproximei-me do estranhamente branco balcão do estúdio de
tatuagem, logo à frente da porta – por algum estereotipo resgatado dos confins
de minha consciência, acreditava que ele deveria estar cheio de manchas de
tinta. Uma moça exoticamente tatuada me ofereceu ajuda. Respondi, então,
convocando com os mais pios rituais religiosos que conhecia a voz do fundo de
minha garganta, “tenho um horário marcado para uma tatuagem”. À mera menção da
palavra, a escada de madeira tremeu ao meu lado. Um homenzarrão cabeludo,
barbudo e barrigudo, de braços com a espessura de jovens troncos de araucária,
postou-se às minhas costas – bloqueando, portanto, qualquer tentativa de fuga.
Timidamente, me virei – o “Welcome do the Jungle” tocando na Ipanema FM o fez
parecer ainda mais algum fóssil de neandertal esquecido ali por um algum circo
misterioso. Sua barba deslocou-se para deixar escapar o grunhido – “me
acompanhe”.
Sentei-me
no divã na sala do segundo andar e entreguei o desenho à ser tatuado. Enquanto
ele preparava os materiais, tomei nota da sala: um local excepcionalmente limpo
e bem-decorado - em todos os possíveis aspectos, agradável. Não demorou muito
antes de ele começar a conversar – era uma pessoa, surpreendentemente,
completamente antagônica à sua aparência. Em menos de meia hora estava o
procedimento pronto – e, durante todo o enquanto, o som de nossas vozes em
colóquio afogou qualquer possível mal-estar oriundo do estridente ir-e-voltar
das agulhas.
A
cena acima descrita foi, até o dia de hoje, repetida dezenas de vezes, cada uma
com um crescente senso se familiaridade. A amizade criada – e até hoje mantida
– com o tatuador (o perfeito arquétipo de um imigrante uruguaio da fronteira:
duro, forte e exigente; nunca, porém, deixando de ser doce abaixo de seu quase
impenetrável casco) devido às subsequentes sessões e desenhos me forneceu até
um emprego temporário de aprendiz, exercido por mais de um ano. Infelizmente
(ou felizmente), visto a delicadeza e destreza de minhas pequenas patinhas, eu
me mostrei mais apto a reciclar as peles sintéticas utilizadas para a prática
do que embelezá-las. Porém, desde a primeira vez que a tinta tomou minha pele
por lar, sinto que exercito uma característica tanto naturalmente minha quanto
comum a todos os neoprimitivistas: um inconformismo nato, automático – a
impossibilidade de aceitar as coisas como são. Sim, de aceitar até a si mesmo
estando imperfeito: com o próprio corpo virgem de sua mão modeladora. O
límpido reflexo de não mais assistir a vida como algo que transcende a si.
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