quarta-feira, 14 de maio de 2014

Da tinta que em minha pele habita

Reescrita
Por Aluno 37


            O relógio-cuco, marcando o tempo daquela manhã segundo a segundo, em setembro de 2011. Um homem magro, alto e de longos cabelos loiros estalava seus dedos, sozinho, na sala de estar. Cortinas semifechadas, apesar do Sol lá fora: tudo escuro, salvo aqueles dedos quase imperceptíveis de luz querendo – mas não conseguindo – arrancar furiosamente a cortina e banhar a sala com seus dourados. Trovões rasgavam minha mente, imaginando a dor excruciante que eu passaria nas próximas horas; meus dentes rangendo simulavam a agressão dos grossos pingos de chuva no peito de um homem perdido na tempestade. Então, o esperneio daquele pássaro de madeira marcava a hora de enfrentar meus medos: aquiesci aos desejos do bruxuleante feixe de luz na cortina e afastei-as; o próprio Sol, como a me desejar coragem, me abraçou com seus braços quentes.
Ao chegar no local, aproximei-me do estranhamente branco balcão do estúdio de tatuagem, logo à frente da porta – por algum estereotipo resgatado dos confins de minha consciência, acreditava que ele deveria estar cheio de manchas de tinta. Uma moça exoticamente tatuada me ofereceu ajuda. Respondi, então, convocando com os mais pios rituais religiosos que conhecia a voz do fundo de minha garganta, “tenho um horário marcado para uma tatuagem”. À mera menção da palavra, a escada de madeira tremeu ao meu lado. Um homenzarrão cabeludo, barbudo e barrigudo, de braços com a espessura de jovens troncos de araucária, postou-se às minhas costas – bloqueando, portanto, qualquer tentativa de fuga. Timidamente, me virei – o “Welcome do the Jungle” tocando na Ipanema FM o fez parecer ainda mais algum fóssil de neandertal esquecido ali por um algum circo misterioso. Sua barba deslocou-se para deixar escapar o grunhido – “me acompanhe”.
Sentei-me no divã na sala do segundo andar e entreguei o desenho à ser tatuado. Enquanto ele preparava os materiais, tomei nota da sala: um local excepcionalmente limpo e bem-decorado - em todos os possíveis aspectos, agradável. Não demorou muito antes de ele começar a conversar – era uma pessoa, surpreendentemente, completamente antagônica à sua aparência. Em menos de meia hora estava o procedimento pronto – e, durante todo o enquanto, o som de nossas vozes em colóquio afogou qualquer possível mal-estar oriundo do estridente ir-e-voltar das agulhas.
A cena acima descrita foi, até o dia de hoje, repetida dezenas de vezes, cada uma com um crescente senso se familiaridade. A amizade criada – e até hoje mantida – com o tatuador (o perfeito arquétipo de um imigrante uruguaio da fronteira: duro, forte e exigente; nunca, porém, deixando de ser doce abaixo de seu quase impenetrável casco) devido às subsequentes sessões e desenhos me forneceu até um emprego temporário de aprendiz, exercido por mais de um ano. Infelizmente (ou felizmente), visto a delicadeza e destreza de minhas pequenas patinhas, eu me mostrei mais apto a reciclar as peles sintéticas utilizadas para a prática do que embelezá-las. Porém, desde a primeira vez que a tinta tomou minha pele por lar, sinto que exercito uma característica tanto naturalmente minha quanto comum a todos os neoprimitivistas: um inconformismo nato, automático – a impossibilidade de aceitar as coisas como são. Sim, de aceitar até a si mesmo estando imperfeito: com o próprio corpo virgem de sua mão modeladora. O límpido reflexo de não mais assistir a vida como algo que transcende a si.



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