Reescrita
Por Aluno 43
Quanto uma mudança pode mexer com minha mente? Quanto ela pode
transformar minha forma de agir e pensar, e quão benéfica pode ser? Não eram
tais perguntas que se passavam por minha cabeça num dia fresco de fevereiro de
2010, quando eu enfrentava toda a insegurança de ir para uma nova escola; com
apenas treze anos, eu preferia nunca ter que responder tais indagações. O que
sabia, na realidade, naquele momento em que pela primeira vez arrastei meus pés
pelo pátio de pedrinhas do colégio novo, era que eu tinha um grande desafio
pela frente e que as coisas iam dar certo de alguma forma. Segui em frente.
O pequeno prédio da escola, que era exatamente igual à foto que eu encontrara
na internet, me deixava intrigada. Não fazia ideia do que encontraria lá
dentro. Torcia para que fossem pessoas gentis e que me aceitassem, afinal, eu
não havia mudado apenas de colégio, mas também de cidade - de uma Porto Alegre
poluída e perigosa para uma Canela de natureza, araucárias e frio – e não
queria ficar sozinha. Havia, no entanto, um obstáculo cruel entre mim e esse
desejo de novas amizades: eu vinha de uma realidade diferente dos colegas que
iria conhecer. Sempre estudara na rede particular de ensino, mas agora, vivendo
uma circunstância financeira muito distinta, eu estava indo para um colégio
estadual. “Escola pública”, alguém minha havia me falado, “tem muito menos
recursos. E é melhor tu não contar que vem de uma escola privada.” Naquele dia de
fevereiro, pisando na entrada da Escola Estadual Danton Côrrea, eu sabia que
deveria me preparar para um mundo muito diferente do meu, mundo que eu nunca
conhecera.
Como era primeiro dia de aula, fui conferir o número da minha sala e
turma de oitava série num papel pendurado no corredor. Não precisou se passar
um mês para que eu descobrisse que havia entrado na pior turma do turno da
tarde, segundo os gritos dos educadores e lágrimas da professora de História. A
bagunça era de enlouquecer qualquer um, com música alta na sala e conversas
incessantes. Também não precisou de muito tempo para que eu percebesse as
gritantes e drásticas diferenças da infraestrutura do ensino particular para o
público. Se minha antiga e amada escola privada tinha ambientes ideais para o
aprendizado – laboratórios de ciência e informática, um anfiteatro que parecia
um cinema, quadras de esporte e salas de arte -, a nova sequer possuía uma
biblioteca aberta para os estudantes do turno vespertino. Quando a bola de
vôlei furou, não tivemos mais bola, e quando a bola de futebol furou, fizemos
uma vaquinha para comprar uma nova. O barzinho que vendia lanche acabou
fechando.
Também fui conhecendo meus novos colegas, que tinham uma vida diferente
daqueles de Porto Alegre. Muitos trabalhavam, tinham barba na cara e condições
financeiras adversas, morando em casinhas de madeira. Meus amigos da escola
privada tinham pais presentes para defendê-los no que fosse preciso, mas uma
boa parte dos estudantes da escola pública não contava com o apoio dos
genitores para o estudo.
Aliás, estudo? Que estudo? Se antes o que eu mais amava era estar em aula,
escrevendo poesia, entendendo o corpo humano, descobrindo História, Geografia e
Ciências ao lado de educadores muito cuidadosos, isso havia passado como um
sonho. Esta era a mais cruel realidade da escola pública, e a que mais mexeu
comigo: Pouco havia aula. Pouco havia ensino. Algumas professoras apenas
escreviam no quadro: “Copiar da página x à y”. Matemática? Só lembro de ter
tido Bhaskara. A professora de inglês
escrevia inglês errado. E, ao contrário de toda atenção e cuidado com que eu
estava acostumada, os lemas da nova escola pareciam ser “salve-se quem puder” e
“o aluno é a escória do colégio”.
Em dois meses, eu já estava profundamente triste. Meu anseio por estudar
fazia com que meus colegas tivessem um grande preconceito comigo, ofendendo-me
e uma vez ou outra agindo de má fé (como quando falaram mal de mim por
bilhetinhos ou colocaram corretivo em minha cadeira). Eu não queria ter mudado
para o ensino público, não queria. Mas não podia voltar atrás, e então não
desisti. Se eles não podiam mergulhar no meu mundo, eu mergulharia no deles,
pelo menos no que fosse lícito; afinal, eles haviam aprendido a ter preconceito
com pessoas que aparentavam ser diferentes, e eu provaria que estavam errados.
Passei a me aproximar de alguns sem me importar com o que pensariam. Puxando
conversa, convidando para jogos de carta ou com bola, encontrando pontos em
comum, no meio do ano eu já tinha meu grupo de amigos. Provei que eu não era um
alienígena, e sim pessoa comum como qualquer outra. Aprendi a considerar coisas
que eu nunca teria na outra realidade em que havia vivido: a ida a pé para
casa, depois da escola, pisando no tapete das folhas de outono; o encontro com
os colegas a apenas uma caminhada de distância para comer um cachorro-quente;
e, acima de tudo, uma indignação que nascera em mim de uma forma assustadora. Como
eu desejava que aquelas pessoas simples de Canela – que, até o fim daquele ano,
eu já me tornara íntima - entendessem que também mereciam uma boa educação e
base escolar, como um dia eu tivera! Que eram iguais a qualquer um dos meus
antigos colegas, e que também deveriam ter acesso a um ambiente estimulante
onde, durante as aulas, se fizesse mais do que o jogo do arremesso ao lixo ou
jogo de UNO.
Lembro-me até hoje do meu último dia de aula naquela escola. Foi no ano
de 2010, mesmo. Eu e meus amigos – praticamente todos meninos – fomos
caminhando até o centro de Canela e gritávamos para tudo e todo mundo: “E daí,
é último dia de aula!” Estávamos livres pelo menos pelas férias, e aquele dia
estava ensolarado e fresco, tal como no começo do ano letivo.
Essa alegria foi relativizada, no entanto, quando recebi uma nova notícia.
Minha mãe havia decidido mudar-se mais uma vez, e eu e minha família iríamos de
novo para outra cidade. Não só isso: iríamos para outro estado, Minas Gerais -
eu teria de viver outra completa mudança! Ao mesmo tempo em que fiquei triste
por deixar Canela, percebi o quanto conhecer uma realidade diferente da minha –
uma instituição de ensino pública do interior – havia me fortalecido; como fora
importante reconhecer um novo mundo, tão próximo e ao mesmo tão longe daquele
que eu sempre vivera! Além de me ensinar a sair da minha zona de conforto, a
fazer amigos e a suportar coisas desagradáveis, me tornara pronta para encarar
novas transformações de cabeça erguida, mesmo que doessem.
Depois de sair da Escola Estadual
Danton Côrrea, na oitava série, passei por outras três escolas até me formar no
Ensino Médio, e hoje curso Letras na UFRGS, movida pelo sonho de fazer alguma
diferença na educação das pessoas. O colégio de Canela marcou meu coração de
uma maneira diferenciada. Talvez, ao contrário de mim, nenhum desses meus
antigos colegas esteja numa universidade; no entanto, quero lutar para que seus
filhos possam estudar numa boa escola, independente de seu dinheiro – coisa que
nunca seria minha ambição se eu mesma não tivesse passado por uma dura mudança.
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