quarta-feira, 14 de maio de 2014

Nova realidade

Reescrita
Por Aluno 43


Quanto uma mudança pode mexer com minha mente? Quanto ela pode transformar minha forma de agir e pensar, e quão benéfica pode ser? Não eram tais perguntas que se passavam por minha cabeça num dia fresco de fevereiro de 2010, quando eu enfrentava toda a insegurança de ir para uma nova escola; com apenas treze anos, eu preferia nunca ter que responder tais indagações. O que sabia, na realidade, naquele momento em que pela primeira vez arrastei meus pés pelo pátio de pedrinhas do colégio novo, era que eu tinha um grande desafio pela frente e que as coisas iam dar certo de alguma forma. Segui em frente.
O pequeno prédio da escola, que era exatamente igual à foto que eu encontrara na internet, me deixava intrigada. Não fazia ideia do que encontraria lá dentro. Torcia para que fossem pessoas gentis e que me aceitassem, afinal, eu não havia mudado apenas de colégio, mas também de cidade - de uma Porto Alegre poluída e perigosa para uma Canela de natureza, araucárias e frio – e não queria ficar sozinha. Havia, no entanto, um obstáculo cruel entre mim e esse desejo de novas amizades: eu vinha de uma realidade diferente dos colegas que iria conhecer. Sempre estudara na rede particular de ensino, mas agora, vivendo uma circunstância financeira muito distinta, eu estava indo para um colégio estadual. “Escola pública”, alguém minha havia me falado, “tem muito menos recursos. E é melhor tu não contar que vem de uma escola privada.” Naquele dia de fevereiro, pisando na entrada da Escola Estadual Danton Côrrea, eu sabia que deveria me preparar para um mundo muito diferente do meu, mundo que eu nunca conhecera.
Como era primeiro dia de aula, fui conferir o número da minha sala e turma de oitava série num papel pendurado no corredor. Não precisou se passar um mês para que eu descobrisse que havia entrado na pior turma do turno da tarde, segundo os gritos dos educadores e lágrimas da professora de História. A bagunça era de enlouquecer qualquer um, com música alta na sala e conversas incessantes. Também não precisou de muito tempo para que eu percebesse as gritantes e drásticas diferenças da infraestrutura do ensino particular para o público. Se minha antiga e amada escola privada tinha ambientes ideais para o aprendizado – laboratórios de ciência e informática, um anfiteatro que parecia um cinema, quadras de esporte e salas de arte -, a nova sequer possuía uma biblioteca aberta para os estudantes do turno vespertino. Quando a bola de vôlei furou, não tivemos mais bola, e quando a bola de futebol furou, fizemos uma vaquinha para comprar uma nova. O barzinho que vendia lanche acabou fechando.
Também fui conhecendo meus novos colegas, que tinham uma vida diferente daqueles de Porto Alegre. Muitos trabalhavam, tinham barba na cara e condições financeiras adversas, morando em casinhas de madeira. Meus amigos da escola privada tinham pais presentes para defendê-los no que fosse preciso, mas uma boa parte dos estudantes da escola pública não contava com o apoio dos genitores para o estudo. 
Aliás, estudo? Que estudo? Se antes o que eu mais amava era estar em aula, escrevendo poesia, entendendo o corpo humano, descobrindo História, Geografia e Ciências ao lado de educadores muito cuidadosos, isso havia passado como um sonho. Esta era a mais cruel realidade da escola pública, e a que mais mexeu comigo: Pouco havia aula. Pouco havia ensino. Algumas professoras apenas escreviam no quadro: “Copiar da página x à y”. Matemática? Só lembro de ter tido Bhaskara. A professora de inglês escrevia inglês errado. E, ao contrário de toda atenção e cuidado com que eu estava acostumada, os lemas da nova escola pareciam ser “salve-se quem puder” e “o aluno é a escória do colégio”.
Em dois meses, eu já estava profundamente triste. Meu anseio por estudar fazia com que meus colegas tivessem um grande preconceito comigo, ofendendo-me e uma vez ou outra agindo de má fé (como quando falaram mal de mim por bilhetinhos ou colocaram corretivo em minha cadeira). Eu não queria ter mudado para o ensino público, não queria. Mas não podia voltar atrás, e então não desisti. Se eles não podiam mergulhar no meu mundo, eu mergulharia no deles, pelo menos no que fosse lícito; afinal, eles haviam aprendido a ter preconceito com pessoas que aparentavam ser diferentes, e eu provaria que estavam errados.
Passei a me aproximar de alguns sem me importar com o que pensariam. Puxando conversa, convidando para jogos de carta ou com bola, encontrando pontos em comum, no meio do ano eu já tinha meu grupo de amigos. Provei que eu não era um alienígena, e sim pessoa comum como qualquer outra. Aprendi a considerar coisas que eu nunca teria na outra realidade em que havia vivido: a ida a pé para casa, depois da escola, pisando no tapete das folhas de outono; o encontro com os colegas a apenas uma caminhada de distância para comer um cachorro-quente; e, acima de tudo, uma indignação que nascera em mim de uma forma assustadora. Como eu desejava que aquelas pessoas simples de Canela – que, até o fim daquele ano, eu já me tornara íntima - entendessem que também mereciam uma boa educação e base escolar, como um dia eu tivera! Que eram iguais a qualquer um dos meus antigos colegas, e que também deveriam ter acesso a um ambiente estimulante onde, durante as aulas, se fizesse mais do que o jogo do arremesso ao lixo ou jogo de UNO.
Lembro-me até hoje do meu último dia de aula naquela escola. Foi no ano de 2010, mesmo. Eu e meus amigos – praticamente todos meninos – fomos caminhando até o centro de Canela e gritávamos para tudo e todo mundo: “E daí, é último dia de aula!” Estávamos livres pelo menos pelas férias, e aquele dia estava ensolarado e fresco, tal como no começo do ano letivo.
Essa alegria foi relativizada, no entanto, quando recebi uma nova notícia. Minha mãe havia decidido mudar-se mais uma vez, e eu e minha família iríamos de novo para outra cidade. Não só isso: iríamos para outro estado, Minas Gerais - eu teria de viver outra completa mudança! Ao mesmo tempo em que fiquei triste por deixar Canela, percebi o quanto conhecer uma realidade diferente da minha – uma instituição de ensino pública do interior – havia me fortalecido; como fora importante reconhecer um novo mundo, tão próximo e ao mesmo tão longe daquele que eu sempre vivera! Além de me ensinar a sair da minha zona de conforto, a fazer amigos e a suportar coisas desagradáveis, me tornara pronta para encarar novas transformações de cabeça erguida, mesmo que doessem.
 Depois de sair da Escola Estadual Danton Côrrea, na oitava série, passei por outras três escolas até me formar no Ensino Médio, e hoje curso Letras na UFRGS, movida pelo sonho de fazer alguma diferença na educação das pessoas. O colégio de Canela marcou meu coração de uma maneira diferenciada. Talvez, ao contrário de mim, nenhum desses meus antigos colegas esteja numa universidade; no entanto, quero lutar para que seus filhos possam estudar numa boa escola, independente de seu dinheiro – coisa que nunca seria minha ambição se eu mesma não tivesse passado por uma dura mudança. 

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