quarta-feira, 14 de maio de 2014

Reescrita 
Por Aluno 12

       Existe uma sigla que tem o poder de causar fortes reações à maioria dos alunos do Colégio de Aplicação da UFRGS, no qual cursei toda a minha educação básica. É uma sigla curta, duas letras apenas, mas ela pode soar desagradável, como um forte sopro de vuvuzela, aos ouvidos de alguns alunos e causa reações adversas: de bufadas exauridas e ranger de dentes até o olhar frustrado de quem poderia virar mesas e bater portas. Eu não costumava agir diferente – nunca virei mesas nem bati portas, mas gastei muito fôlego bufando e muito esmalte dos dentes rangendo-os por raiva de ter que fazer a I.C. Essa sigla quer dizer Iniciação Científica, e se hoje ela me causa alguma reação frustrada é porque não percebi antes que a atividade não era aborrecida – eu é que não sabia como fazê-la.
      No Aplicação, o currículo trazia períodos para a realização do projeto de Iniciação Científica. Era responsabilidade do aluno desenvolver a hipótese, a justificativa, a pergunta inicial e estabelecer seus objetivos de pesquisa. O incentivo dos professores para que escolhêssemos um assunto de nosso interesse para a pesquisa e que cumpríssemos suas etapas dentro do cronograma era grande – e eu, no início, fui contagiada pelo entusiamo. Achei a I.C. uma ótima ideia. Mas quando o trabalho começou, os assuntos que havia escolhido não pareciam mais tão interessantes assim.
      Tentei variados assuntos: no meu primeiro ano, em 2011, pesquisei sobre os monumentos históricos de Porto Alegre, afinal, eu gostava de arte e história. Mas não era o suficiente. Em 2012, desenvolvi um projeto sobre os posicionamentos da mídia em relação à construção da usina de Belo Monte, pois era um assunto polêmico, atual, crítico... porém não era o que eu queria. Cheguei ao terceiro ano do Ensino Médio em 2013, erguendo as mãos para os céus em agradecimento por ter que fazer apenas mais um projeto de I.C. Como um último esforço para fazer aqueles períodos reservados à pesquisa valerem a pena, decidi pesquisar sobre algo que eu realmente gostasse, sem me preocupar com nenhum outro fator. Escolhi como tema “a representação da mulher celta na literatura atual”; estava animada por trabalhar com base em um livro que eu gostava, A Senhora de Avalon de Marion Zimmer Bradley, embora não esperasse que o projeto fosse realmente render um trabalho de Iniciação Científica que alguém se interessasse em ler.
      Mas rendeu – meus professores me incentivaram a montar um poster e levar o trabalho à feira de ciências do UFRGS Jovem, onde se pode apresentar o projeto para qualquer visitante que pare perto do seu banner. E mais, rendeu um pequeno troféu retangular, em acrílico amarelo marca-texto que seria bem repelente à vista se não fossem pelas letras em preto que traz, e pelo que elas significam: Projeto Destaque VIII Salão UFRGS Jovem.
      Agora, pensando em toda a minha trajetória com a Iniciação Científica, percebo que havia só uma diferença entre os dois primeiros projetos e o último: eu realmente gostava do que estava fazendo em minha última pesquisa. Foi assim que percebi como realmente deveria fazer pesquisa. E mais do que me permitir aprender sobre a cultura celta e sobre romance histórico contemporâneo, a I.C. me levou a entender que quando se faz o que se gosta, as coisas têm mais chances de dar certo – aprendizado que me levou, naquele mesmo ano, a prestar o vestibular para o curso no qual hoje estudo (e amo): Letras na UFRGS, aquela faculdade pertinho do Colégio de Aplicação. Tudo isso por causa de um projeto que deu certo, e que me fez ver que trabalhar com o que ama pode trazer frutos mais concretos – como um troféu cor de marca-texto.

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