Reescrita
Aluno 90
É a manhã de um dia livre, nada
para fazer. Você acorda sentindo aquele júbilo por ter passado 10 horas
dormindo, anestesiado: é hoje, você pensa, espreguiçando-se na cama com deleite,
surfando as últimas ondas do descanso. O sol brilha pela janela – você não os
ouve, mas tem certeza que os passarinhos cantam alegremente na proximidade. É
hoje – hoje você se levantará e irá ao mundo responder ao fim de semana, na
maneira das pessoas saudáveis: com diversão e desapego, pipoca e cinema, sol e
parque.
Mas antes, o próximo deleite
matinal: você sente alguma fome, e dessa vez parece que ela será saciada sem
dor. Há algo na comida que normalmente eclipsa a felicidade da manhã: primeiro
parece bom ter o estômago cheio, mas então o seu corpo passa a trabalhar na
digestão, e o metabolismo ativo acorda uma dor que te abraça com tentáculos
sufocantes pelo resto do dia.
Mas hoje não. Hoje a comida
desce, e está tudo bem, e você abre a janela para o sol, esperando ver os
passarinhos.
É um pouco menos do que você
esperava, mas consegue ver um sabiá e ouvi-lo piar. Ótimo. O sol é por vezes
obscurecido pelo nublar das nuvens, mas você não deixa isso te abalar. Embora
cada escuridão momentânea te lembre da dor, você se mantém otimista, mesmo
quando o piar do sabiá começa a parecer um pouco pesado e irritante. E um pouco
mais pesado e irritante. E um pouco mais pesado e irritante, até que tudo te
sobrecarregue: as paredes, a tua cama, o som dos vizinhos lá fora; você não viu
– talvez pela cegueira do otimismo – mas, a cada obscurecer do sol, a dor
avançou, escondida, e por fim te abraçou. Seus tentáculos sufocam cada átomo do
seu corpo, e agora você tem que carregar ela.
Você a carrega até o banheiro,
onde espera que um banho quente te liberte. Sob a água agradável, você sente
algum alívio momentâneo, a respiração mais ampla, os pensamentos mais claros,
mas é só uma breve ilusão logo a ser sobrecarregada pelo sufoco doloroso. Você
sai do banho, se veste, senta na cama e pensa no que fazer. Você contempla a
parede, que parece mais espessa que o normal, mais próxima, te encarando cada
vez mais – logo, o próprio ato de contemplar torna-se inchado, turvado, como
uma febre torpe. Na cabeça, as palavras se embaralham; no peito, o coração
aperta, o pulmão não traga ar o suficiente; na barriga, a sensação de estar
cheio, mas de uma maneira desprazerosa, com algo indesejado dentro de si. Você
se levanta e anda de um lado para outro do quarto, as paredes encarando com
severidade – você precisa sair dali. Você não sabe exatamente o que fazer – a
mente se afoga num pântano de dor pesada –, mas, apesar de tudo, ainda resta
algo que poderia te guiar: um impulso primordial, aquilo que faz o lobo
mastigar a própria perna quando preso na armadilha – você acha que ainda resta
algo dele. Você busca por ele dentro da névoa da alma, tentando tocar nele,
sacudi-lo, “me tira daqui” – você acha que sente uma fraca faísca, e isso é o
suficiente. Você sai de casa.
No ônibus, parece que os
tentáculos da dor se desprenderam e ela retornou às sombras, deixando, porém,
ferimentos, roxos, resquícios da constrição intensa. Mas é um pouco melhor,
aqui dentro do ônibus: você abre uma janelinha e sente o vento bater na cara. É
bom sair daqui, você pensa, enquanto o ônibus começa a percorrer a avenida que
te levará ao reino dos vivos. Você sente estar meio-morto, amassado pela dor
que, te parece, voltou senão para a casa de onde você saiu: lá ela te aguarda,
e quando você menos esperar –
Mas isso é uma preocupação para
depois. O momento, agora, é de descansar, guardar as energias para o mundo
ensolarado dos saudáveis. Você repousa no banco do ônibus, cansado, apagando as
faíscas, meio-cadáver flácido deixando de se importar com tudo.
Quase uma hora depois, você chega
no seu destino, você vê as lojas na rua, as pessoas caminhando, mãos dadas,
cachorros em coleiras, bancos e mesas e conversas. Você caminha, sente o sol
resplandecer, compra algum livro ou bugiganga de feira, senta para tomar um café,
sozinho, mas você espera que, como o sol, as pessoas irradiem o brilho da vida
e felicidade por simplesmente estarem próximas. Você, às vezes, pensa em abrir
a boca e dizer algo amigável para alguém, mas sente que tal alguém desconfiaria
de uma boa intenção aleatória. Você tenta esquecer de tal tolice.
Por mais algum tempo, você
perambula por onde os vivos vivem, silencioso, verdadeiro à sua condição
inalterável de meio-morto. Você, no fundo, sabe que não passa de um veículo
quase-inanimado percorrendo burramente um caminho vazio, as pessoas
desaparecendo nas periferias da sua visão tais quais o mundo fora de um ônibus
em movimento: aparecendo e desaparecendo, aparecendo e desaparecendo, mas nunca
um “oi”, um aperto de mão – a janela os separa.
Mas foi bom enquanto durou, você
pensa, enquanto espera pelo ônibus de volta, na sua parada de sempre, com o sol
começando a se despedir, como sempre. A verdade é que já houve muitos dias como
este: você não lembra direito de como e quando começou esta rotina, mas parece
ter sido anos. Anos com o mesmo falso início, a mesma dor e seus tentáculos, o
mesmo você-veículo-burro transitando por um mundo de estranhos. Mas foi bom
enquanto durou. Amanhã durará um pouco também. Você, daqui a algumas horas, se
revirará na cama com medo da dor – mas logo o sono virá, a inconsciência
levando tudo, bom ou ruim, embora. E depois, um novo dia, nova manhã, de
sempre.
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