Aluno 90
Reescrita
Uma vez me perguntaram se eu
estava irritado – não, respondi, é apenas a minha cara mesmo. Outra vez já fui
definido como, pura e simplesmente, “mau”. Não por brincadeira: a pessoa quis
dizer que eu era do mal, genuinamente. Eu era conhecido por, vez em vez, ter
explosões de raiva. Na creche, meu apelido entre as moças que cuidavam de nós
crianças era “cardíaco”. Tais dados que recebi me levam a crer que sou alguém
intimidador – de fato sou sério, agressivo e irritado.
Mas por trás dessa casca – minha
seriedade, sobrancelhas franzidas, cabelo curto, andar rígido e rápido –,
existe um ser sensível, que por questão de sobrevivência mantém uma casca
externa; um ser que prefere a positividade da amizade e do amor ao negativo já
exemplificado. Na verdade, é justamente porque sou sensível que me mantenho tão
rígido: aqueles mais sensíveis sentem mais e reagem mais, seja se revoltando e
erigindo defesas externas contra um mundo hostil ou se deprimindo profundamente.
A revolta e as defesas vieram para mim bem cedo, com algumas experiências ruins
na infância. A depressão eu fui conhecer após alguns anos, com a chegada da
puberdade e do questionamento existencial; foi um internalizar da revolta: não
mais eu dirigia minha raiva aos outros, e sim a mim mesmo, pois notava que o
externalizar da raiva era fútil.
Demorei anos para superar isso: o
que, ou melhor, quem me ajudou foram algumas pessoas incríveis. Pessoas que
corresponderam à sensibilidade que, até então, o ambiente hostil ajudara a
suprimir; elas me tiraram do poço, figurativamente falando, abrindo uma fresta
momentânea na minha casca, para deixar a criatura sensível respirar um pouco.
Foram pessoas que me mostraram amor incondicional, sendo meus amigos apesar do
meu exterior negativo.
Como ocorre conforme as pessoas
vão crescendo, profissional e humanamente, meus amigos e eu vivemos um tanto
distanciados nos dias de hoje. No início isso foi bem complicado, pois permitiu
o meu descontrole acerca da raiva – tanto direcionada externa quanto
internamente – voltasse, ficando eu sozinho comigo mesmo novamente. Mas, não
mais tão afundado assim no interior de mim mesmo, consegui meditar, mesmo que
por pequenos instantes, e aprender a canalizar a revolta para algo positivo.
Minha tentativa de controle, de
reconstrução da vida que eu havia destroçado até então, começou quando decidi
ser mais social, mais proativo, esperar menos pela ajuda dos outros. Como toda
aprendizagem humana, começou com passos desastrados: amizades que não eram
realmente amizades, substâncias iludindo-me, fazendo-me achar que havia algo
mais profundo nas experiências rasas que tive; mas após anos de busca externa,
tomei coragem e voltei-me ao interior. Temia fazer isso com medo de perder o
controle, ficar com raiva de mim mesmo e recair na depressão, mas a autonomia
que construí me tornou um tanto mais forte, ainda autodestrutivo, sim, mas
capaz de balancear isso com momentos de investimento externo, os quais eram
como filhos que precisava criar, objetos adequados à minha sensibilidade
interna, que dependiam de mim e, portanto, me motivavam a viver.
Esses investimentos foram, em
essência, a arte: músicas, textos, ideias que eu expressava num formato
estético que parecia ter vida. Era como se eu transferisse as energias da raiva
em corpos que cresciam e tomavam vida própria. Ser um artista, ou no mínimo
tentar ser um, não é tanto de um parto quanto uma paternidade ou maternidade,
um ato de amor. Criar um objeto de arte é se importar com ele: torná-lo mais
bonito, ou mais feio, se é esse o seu propósito, deixar que ele tenha sustento
o suficiente para aprender a viver por si; deixar possível que ele alcance, sem
mais precisar do autor, aquela outra pessoa o experimentará e compreender. É,
concluí após meses de foco nisso, uma comunicação. Nesse processo de criação de
comunicação através da arte, conectando o meu interno com o exterior, notei que
acabei tomando maior consciência de maneiras com as quais poderia interagir com
as pessoas – abstraí o desejo que era representado pela arte e pensei nele no
cotidiano, do qual eu fugia.
Foi nesse ponto que decidi
retornar ao mundo externo, social, para trabalhar minhas interações com as
outras pessoas. Mas não mais através das artes: eu seria, para com elas, alguém
em carne e cor. Foi mais fácil dito que feito, porém: com a minha nova
consciência, chegou um leque de preocupações. Me preocupava se tinha uma
postura involuntariamente agressiva, tentava amenizar isso, evitando ser
incisivo ou muito direto, muito sobrecarregante; procurei o caminho da
diplomacia, desgastar um pouco da casca.
Disso, aproveitei várias coisas,
tornando a minha conduta social mais respeitosa e justa, mas a epifania final
que tive, nesse processo, foi de que me desgastava demais. Vivia, novamente,
falsidades – desta vez criadas por mim mesmo, alterando-me excessivamente pelo
medo de perder o controle. A realidade é que não sou um Buda, ou um santo,
vivendo nesta terra sem machucar ninguém. Embora tenha o meu lado pacífico,
artístico, também preciso ser enérgico, ativo, transgressivo. Conhecera apenas
o lado ruim disso, em forma de agressividade, mas há algo de positivo nessa
postura: traço, na minha vida, mais o caminho que eu quero, que é natural para
mim, do que um caminho idealizado de paz que requer supressão demais para ser
viável com a constituição do meu ser. Meu ser pacífico, afinal, precisa da sua
casca, precisa que ela não seja erodida inteiramente, caso contrário perece por
ser sensível demais; há de se ter alguma casca para filtrar as brutalidades do
mundo.
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