Aluno 90
1 Versão
Eu tinha me sentado há um tempo
no sofá no apartamento de alguns amigos meus, quando bateu. Eu afundei no sofá,
o resto da realidade ficou negro, só restando eu e o sofá, flutuando no vácuo.
Então subitamente eu me olhava de cima, como se estivesse voando, incorpóreo,
vendo o eu cravado no sofá e achando ele completamente ridículo. Pequenos
tiques, má dicção, corpo deformado por anos de obesidade mórbida, a criatura no
sofá era repugnante. Ao mesmo tempo em que eu sentia ódio, também me sentia
mal. E conforme ia me sentindo progressivamente mais mal, o sofá ia
desparecendo e o corpo lá embaixo ia perdendo a roupa, a carne, até virar uma
projeção pseudo-raio-X de ossos translúcidos e veias também. As veias pulsavam,
eu sentia as veias pulsar, numa nudez de sensação aterradora – e então eu não
estava mais no ar, subitamente eu era aquele conjunto de ossos e veias, e eu me
sentia nu, fundamentalmente nu, aberto à escuridão em minha volta, pulsando com
medo. Senti meu coração acelerar, algo de ruim ia acontecer, um ataque cardíaco
caminhava –
E aí eu me levantei, a sala e
seus móveis e meus amigos se materializando, e andei por ela, de um lado para
outro, como um leão enjaulado, respirando, respirando, pensando; minha
nervosidade ainda iria durar um tempo, mas ela se dissipava. Não era um ataque
cardíaco, foi só um susto. No fim do dia, a droga havia se metabolizado.
Mas desde então, os resquícios
dessa experiência permaneceram. Eu havia, refletido mais tarde, sido controlado
por uma entidade que continha dentro de mim, que até então nunca se soltara
inteiramente dos confins da minha alma. A droga só a trouxe à consciência, que
naturalmente ficou confusa, perplexa pois aquele a entidade era eu e também não
era. Ao me separar do meu corpo, estava consciente, era “eu”, pois lembro de
tudo, mas havia sido paralisado por esse elemento subconsciente desenraizado
pela droga. Esse monstro de desprezo subconsciente é algo que não posso
controlar, uma criatura raivosa que, libertada pela fraqueza induzida pela
droga, conseguiu escapar dos seus confins no fundo da minha alma; ele está em
mim, ele é eu, mas pois não posso controlá-lo, também posso dizer que não sou
eu.
Por algum tempo, foi horrível ter
essa noção. Nunca gostei muito de mim mesmo, mas também nunca senti a verdadeira
experiência de auto-desprezo, crua, inflexível, bestial – o que tinha sentido,
até então, era apenas gritos momentâneos da besta que às vezes conseguia abrir
um buraco temporário do inconsciente para a consciência. Nunca ela havia sido
inteiramente desenjaulada. Mas, após anos de ocasionais reflexões entre longos
meses de medo, nos quais temia perder o controle novamente, me dei conta de
algo importante.
Os motivos pelos quais a coisa me
odiava eram brutos. Não faziam diferença alguma quanto à qualidade do meu ser,
a quão justo eu sou, ao meu papel na humanidade. Os motivos eram os de um
valentão: eu era feio, desajeitado, anormal. A criatura, refleti, era um
valentão, ou a imagem de um, convertida num elemento psíquico que internalizara
em mim mesmo. Não consegui, e não consigo, colocar uma origem histórica muito
precisa acerca da sua fundação, mas, tendo eventualmente me tornado um
estudante de psicologia, consegui algum auxílio reflexivo.
O auxílio foi Freud, mais
especificamente a sua hipótese do superego. O superego seria uma internalização
de preceitos morais que, classicamente, o pai de uma família promulgaria ao
longo do tempo em que a criança em desenvolvimento convive com ele,
não-intencionalmente. Seria um regulador interno da pessoa, criticando-a de
acordo com que o pai falasse. Meu pai sempre foi um homem difícil, crítico, e
portador de distúrbio afetivo, algo que herdei dele e que ajudou a severizar
esse superego. Até aí tudo OK: meu pai nunca me chamou de retardado, imbecil,
gordo; seus preceitos que absorvi foram todos educativos. Mas acredito que, na
época em que estava em desenvolvimento, houve alguns incidentes que foram
integrados ao meu superego também; posso citar como exemplo, durante uma
convenção de família, quando fui confraternizar com as crianças ali, querendo
brincar com elas, mas sendo impedido por um “líder” do grupo, que incitava os
outros a me receber friamente, ignorando-me, eventualmente respondendo com
clara brutalidade, “ninguém aqui é teu amigo”, após eu ter utilizado esse termo
para me referir ao grupo, clamando para que me deixassem brincar também. Essas
crianças, e mais outras pessoas com seus léxicos brutais, foram convertidas em
memória e fundidas à besta, ao superego.
Não me surpreende, pensando
agora, que demorei tanto para me dar conta da sua natureza. É extremamente
difícil olhar o ódio na cara: preciso, até hoje, fazer algum esforço para
manter o controle enquanto repasso pela mente as cenas da soltura, da projeção
além-corpo, que era eu e não era, pois portava e era controlada pelo superego.
Mas outra coisa que aprendi, ao
estudar psicologia, é que o melhor método para vencer um estímulo aversivo é
encará-lo. Me esconder não apagaria a memória, não apaziguaria os ocasionais
esbravejares que a besta conseguia fazer nos meus momentos de fraqueza,
rompendo frestas do inconsciente ao consciente. Eu haveria de lembrar do
acontecimento, segurar-me, lembrar de novo, prestar atenção e me controlar nos
momentos em que sentia aquela voz voltando: ridículo,
inútil, feio, e de novo e de novo.
Atualmente, não consegui suprimir
estas coisas inteiramente, e tampouco quero, pois são parte de mim. Aceito-as
como são e convivo com elas, convivo com a besta que olho nos olhos, e para
qual respondo, “tá tudo bem. Você é um
ser perdido, confuso, que apela para a brutalidade pois não compreende. Eu o
compreendo e espero que um dia também o faça”.
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