domingo, 19 de junho de 2016

Superego

Aluno 90
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Eu tinha me sentado há um tempo no sofá no apartamento de alguns amigos meus, quando bateu. Eu afundei no sofá, o resto da realidade ficou negro, só restando eu e o sofá, flutuando no vácuo. Então subitamente eu me olhava de cima, como se estivesse voando, incorpóreo, vendo o eu cravado no sofá e achando ele completamente ridículo. Pequenos tiques, má dicção, corpo deformado por anos de obesidade mórbida, a criatura no sofá era repugnante. Ao mesmo tempo em que eu sentia ódio, também me sentia mal. E conforme ia me sentindo progressivamente mais mal, o sofá ia desparecendo e o corpo lá embaixo ia perdendo a roupa, a carne, até virar uma projeção pseudo-raio-X de ossos translúcidos e veias também. As veias pulsavam, eu sentia as veias pulsar, numa nudez de sensação aterradora – e então eu não estava mais no ar, subitamente eu era aquele conjunto de ossos e veias, e eu me sentia nu, fundamentalmente nu, aberto à escuridão em minha volta, pulsando com medo. Senti meu coração acelerar, algo de ruim ia acontecer, um ataque cardíaco caminhava –
E aí eu me levantei, a sala e seus móveis e meus amigos se materializando, e andei por ela, de um lado para outro, como um leão enjaulado, respirando, respirando, pensando; minha nervosidade ainda iria durar um tempo, mas ela se dissipava. Não era um ataque cardíaco, foi só um susto. No fim do dia, a droga havia se metabolizado.
Mas desde então, os resquícios dessa experiência permaneceram. Eu havia, refletido mais tarde, sido controlado por uma entidade que continha dentro de mim, que até então nunca se soltara inteiramente dos confins da minha alma. A droga só a trouxe à consciência, que naturalmente ficou confusa, perplexa pois aquele a entidade era eu e também não era. Ao me separar do meu corpo, estava consciente, era “eu”, pois lembro de tudo, mas havia sido paralisado por esse elemento subconsciente desenraizado pela droga. Esse monstro de desprezo subconsciente é algo que não posso controlar, uma criatura raivosa que, libertada pela fraqueza induzida pela droga, conseguiu escapar dos seus confins no fundo da minha alma; ele está em mim, ele é eu, mas pois não posso controlá-lo, também posso dizer que não sou eu.
Por algum tempo, foi horrível ter essa noção. Nunca gostei muito de mim mesmo, mas também nunca senti a verdadeira experiência de auto-desprezo, crua, inflexível, bestial – o que tinha sentido, até então, era apenas gritos momentâneos da besta que às vezes conseguia abrir um buraco temporário do inconsciente para a consciência. Nunca ela havia sido inteiramente desenjaulada. Mas, após anos de ocasionais reflexões entre longos meses de medo, nos quais temia perder o controle novamente, me dei conta de algo importante.
Os motivos pelos quais a coisa me odiava eram brutos. Não faziam diferença alguma quanto à qualidade do meu ser, a quão justo eu sou, ao meu papel na humanidade. Os motivos eram os de um valentão: eu era feio, desajeitado, anormal. A criatura, refleti, era um valentão, ou a imagem de um, convertida num elemento psíquico que internalizara em mim mesmo. Não consegui, e não consigo, colocar uma origem histórica muito precisa acerca da sua fundação, mas, tendo eventualmente me tornado um estudante de psicologia, consegui algum auxílio reflexivo.
O auxílio foi Freud, mais especificamente a sua hipótese do superego. O superego seria uma internalização de preceitos morais que, classicamente, o pai de uma família promulgaria ao longo do tempo em que a criança em desenvolvimento convive com ele, não-intencionalmente. Seria um regulador interno da pessoa, criticando-a de acordo com que o pai falasse. Meu pai sempre foi um homem difícil, crítico, e portador de distúrbio afetivo, algo que herdei dele e que ajudou a severizar esse superego. Até aí tudo OK: meu pai nunca me chamou de retardado, imbecil, gordo; seus preceitos que absorvi foram todos educativos. Mas acredito que, na época em que estava em desenvolvimento, houve alguns incidentes que foram integrados ao meu superego também; posso citar como exemplo, durante uma convenção de família, quando fui confraternizar com as crianças ali, querendo brincar com elas, mas sendo impedido por um “líder” do grupo, que incitava os outros a me receber friamente, ignorando-me, eventualmente respondendo com clara brutalidade, “ninguém aqui é teu amigo”, após eu ter utilizado esse termo para me referir ao grupo, clamando para que me deixassem brincar também. Essas crianças, e mais outras pessoas com seus léxicos brutais, foram convertidas em memória e fundidas à besta, ao superego.
Não me surpreende, pensando agora, que demorei tanto para me dar conta da sua natureza. É extremamente difícil olhar o ódio na cara: preciso, até hoje, fazer algum esforço para manter o controle enquanto repasso pela mente as cenas da soltura, da projeção além-corpo, que era eu e não era, pois portava e era controlada pelo superego.
Mas outra coisa que aprendi, ao estudar psicologia, é que o melhor método para vencer um estímulo aversivo é encará-lo. Me esconder não apagaria a memória, não apaziguaria os ocasionais esbravejares que a besta conseguia fazer nos meus momentos de fraqueza, rompendo frestas do inconsciente ao consciente. Eu haveria de lembrar do acontecimento, segurar-me, lembrar de novo, prestar atenção e me controlar nos momentos em que sentia aquela voz voltando: ridículo, inútil, feio, e de novo e de novo.
Atualmente, não consegui suprimir estas coisas inteiramente, e tampouco quero, pois são parte de mim. Aceito-as como são e convivo com elas, convivo com a besta que olho nos olhos, e para qual respondo, “tá tudo bem. Você é um ser perdido, confuso, que apela para a brutalidade pois não compreende. Eu o compreendo e espero que um dia também o faça”.

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