Aluno 106
1 Versão
Era um dia frio, fim de
tarde, próprio para estar em casa e degustar do prazer em ficar embaixo das
cobertas aquecido e sem se movimentar. Joaquim, no entanto, no auge de sua
velhice, produzia. Sentado em sua poltrona verde-musgo em frente a lareira, desliza
uma folha para trás da outra num movimento lento e repetitivo, observando cada
vírgula, o acento faltante das palavras e, o corredor de letras que se chama
parágrafo que, posteriormente unido, se transforma em texto. A temida caneta
vermelha, já sem tampa, balançou de um lado pro outro por um longo tempo entre
o polegar e o indicador da mão direita, enquanto os olhos do velho percorriam
criticamente pelo texto, repentinamente a decisão é tomada. O braço, até então
apoiado no encosto da poltrona, decide se mover. Os músculos dão a ordem para
que o braço desça. A caneta esferográfica muda de posição, em um único
movimento, agora ela está no sentido vertical, aponta sua esfera em direção ao
papel, ao texto. Com os olhos fixos no erro, a mira da caneta, direcionada pelo
apoio no dedo médio, e na ponta do polegar e indicador, se volta para
determinado parágrafo, àquela linha, a palavra. Após tocar o papel, os dedos se
fecham de maneira mais segura entre a caneta, e eles empurram-na no sentido
contrário da ordem da palavra escrita, fazendo com que a esfera gire no sentido
da impulsão, liberando sua tinta para o final contato com a superfície branca.
Chegando ao início da palavra, os mesmos dedos fazem impulsão pra cima,
liberando mais tinta. Rapidamente, a caneta faz uma curva, e segue agora o
sentido da palavra, obrigando a esfera a acompanhar o movimento e liberando
mais tinta. Ao final, continua seu traço até encontrar aquele inicial, e então
para. A ponta se despede do papel num piscar de olhos, quando automaticamente,
os mesmos músculos dão a ordem, para o mesmo braço subir e se apoiar no encosto
original, enquanto a caneta volta a balançar nos dedos do professor. Com um
sorriso por entre os lábios, Joaquim acha graça daquele “mae” sem til
circulado. Talvez um erro de escrita que passou despercebido, ou talvez a
pequena Maria Clara, da segunda série, achasse mais legal ou desnecessário tal
acento. Antes de passar essa outra redação pra trás das demais já corrigidas,
tio Joca, como era conhecido, repete a ação do contato da caneta na folha,
dessa vez, para conferir o merecido A de aninha, no topo da página, por tamanha
criatividade ao descrever sua família.
Nenhum comentário:
Postar um comentário