domingo, 19 de junho de 2016

Aluno 106
1 Versão


Era um dia frio, fim de tarde, próprio para estar em casa e degustar do prazer em ficar embaixo das cobertas aquecido e sem se movimentar. Joaquim, no entanto, no auge de sua velhice, produzia. Sentado em sua poltrona verde-musgo em frente a lareira, desliza uma folha para trás da outra num movimento lento e repetitivo, observando cada vírgula, o acento faltante das palavras e, o corredor de letras que se chama parágrafo que, posteriormente unido, se transforma em texto. A temida caneta vermelha, já sem tampa, balançou de um lado pro outro por um longo tempo entre o polegar e o indicador da mão direita, enquanto os olhos do velho percorriam criticamente pelo texto, repentinamente a decisão é tomada. O braço, até então apoiado no encosto da poltrona, decide se mover. Os músculos dão a ordem para que o braço desça. A caneta esferográfica muda de posição, em um único movimento, agora ela está no sentido vertical, aponta sua esfera em direção ao papel, ao texto. Com os olhos fixos no erro, a mira da caneta, direcionada pelo apoio no dedo médio, e na ponta do polegar e indicador, se volta para determinado parágrafo, àquela linha, a palavra. Após tocar o papel, os dedos se fecham de maneira mais segura entre a caneta, e eles empurram-na no sentido contrário da ordem da palavra escrita, fazendo com que a esfera gire no sentido da impulsão, liberando sua tinta para o final contato com a superfície branca. Chegando ao início da palavra, os mesmos dedos fazem impulsão pra cima, liberando mais tinta. Rapidamente, a caneta faz uma curva, e segue agora o sentido da palavra, obrigando a esfera a acompanhar o movimento e liberando mais tinta. Ao final, continua seu traço até encontrar aquele inicial, e então para. A ponta se despede do papel num piscar de olhos, quando automaticamente, os mesmos músculos dão a ordem, para o mesmo braço subir e se apoiar no encosto original, enquanto a caneta volta a balançar nos dedos do professor. Com um sorriso por entre os lábios, Joaquim acha graça daquele “mae” sem til circulado. Talvez um erro de escrita que passou despercebido, ou talvez a pequena Maria Clara, da segunda série, achasse mais legal ou desnecessário tal acento. Antes de passar essa outra redação pra trás das demais já corrigidas, tio Joca, como era conhecido, repete a ação do contato da caneta na folha, dessa vez, para conferir o merecido A de aninha, no topo da página, por tamanha criatividade ao descrever sua família.

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