sexta-feira, 17 de junho de 2016

DIAS ROXOS

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Aluno 102


Após o banho, me preparo para o frio vestindo várias camadas de roupa. Tiro dois ou três fios de cabelo que caíram em meu blusão e confiro se tudo está em ordem. Nada parece estar errado. Saio de casa.
            Nos primeiros quatro passos dados após passar pelo portão, cruzo com uma idosa e ela me lança um olhar de desaprovação e balança sua cabeça de um lado para o outro. “Tudo bem.” pensei, “gente mais velha é assim mesmo, cabeça de outro tempo”. Continuo a caminhada. Ao chegar na esquina um caminhão passa por mim, o carona bota o rosto para fora da janela e emite alguns sons que não pude compreender. Como eu era a única na rua, suspeito que os sons se dirigiam a mim.
            Após alguns minutos de quase paz e tranquilidade (sim, quase, nunca sei se é mais seguro andar em uma rua muito movimentada ou muito vazia), uma moto passa. O condutor da moto é um homem. O homem, não contendo “sua natureza”, a mesma compartilhada pelo carona do caminhão, grita “ô roxinha hein” como se isso ao menos fizesse algum sentido.
            Chegando à avenida finalmente me senti mais segura, afinal que homem em seu veículo seria capaz de se dar ao luxo de distrair-se do trânsito para mexer com uma menina. Achei os homens. O primeiro: faço de conta que não é comigo e continuo andando. O segundo: acelero o passo. O terceiro: olho feio bem pra cara do moço. O quarto: perco a vergonha e lhe mostro logo o dedo do meio pra deixar de ser idiota. O quinto: xingo, xingo muito. O sexto, o sétimo, o oitavo, o nono... Ao final do trajeto de aproximadamente uma hora eu já contabilizava dezessete homens que se dispuseram a abdicar sua atenção ao tráfego para dar atenção a uma desconhecida.
            Já cansada daquele longo dia, chego à escola e sou recebida pelos meus alunos, aqueles que não tiram os olhos das minhas madeixas coloridas. Para eles eu sou a fada, a princesa, a sereia. Acho que aguento mais um dia roxo. 

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