1 Versão
Aluno 102
Após o banho, me preparo para o frio vestindo várias
camadas de roupa. Tiro dois ou três fios de cabelo que caíram em meu blusão e
confiro se tudo está em ordem. Nada parece estar errado. Saio de casa.
Nos
primeiros quatro passos dados após passar pelo portão, cruzo com uma idosa e
ela me lança um olhar de desaprovação e balança sua cabeça de um lado para o
outro. “Tudo bem.” pensei, “gente mais velha é assim mesmo, cabeça de outro
tempo”. Continuo a caminhada. Ao chegar na esquina um caminhão passa por mim, o
carona bota o rosto para fora da janela e emite alguns sons que não pude
compreender. Como eu era a única na rua, suspeito que os sons se dirigiam a
mim.
Após
alguns minutos de quase paz e tranquilidade (sim, quase, nunca sei se é mais
seguro andar em uma rua muito movimentada ou muito vazia), uma moto passa. O
condutor da moto é um homem. O homem, não contendo “sua natureza”, a mesma
compartilhada pelo carona do caminhão, grita “ô roxinha hein” como se isso ao
menos fizesse algum sentido.
Chegando
à avenida finalmente me senti mais segura, afinal que homem em seu veículo
seria capaz de se dar ao luxo de distrair-se do trânsito para mexer com uma
menina. Achei os homens. O primeiro: faço de conta que não é comigo e continuo
andando. O segundo: acelero o passo. O terceiro: olho feio bem pra cara do
moço. O quarto: perco a vergonha e lhe mostro logo o dedo do meio pra deixar de
ser idiota. O quinto: xingo, xingo muito. O sexto, o sétimo, o oitavo, o nono...
Ao final do trajeto de aproximadamente uma hora eu já contabilizava dezessete
homens que se dispuseram a abdicar sua atenção ao tráfego para dar atenção a
uma desconhecida.
Já
cansada daquele longo dia, chego à escola e sou recebida pelos meus alunos, aqueles
que não tiram os olhos das minhas madeixas coloridas. Para eles eu sou a fada,
a princesa, a sereia. Acho que aguento mais um dia roxo.
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