sexta-feira, 17 de junho de 2016

O dia em que eu não soube boiar

Reescrita
Aluno 103


 Todos os anos meus pais costumavam viajar pro Litoral de Santa Catarina, juntamente com alguns amigos da família. Isso já era um tipo de tradição antes de meu irmão e eu nascermos e assim se seguiu até o ano de 2005. As cidades eram sempre as mesmas, os estilos de casas também, e assim as praias. Levando em conta a segurança das crianças e a tranquilidade dos pais, as prainhas escolhidas eram as mais calmas possíveis, onde havia poucos visitantes e o mar era sereno. Quando o lugar ideal na areia era encontrado, os adultos "montavam acampamento". Guarda sol no lugar ideal, cadeiras posicionadas de forma que o chimarrão passasse mais fácil de mão em mão, crianças bem engorduradas de protetor solar, meu irmão bebê sentado no meio dos meus pais brincando com qualquer coisa que lhe chamasse atenção. Enquanto eles organizavam seu ambiente eu corria direto pro mar. Porque era como se ele me chamasse, porque eu o amava, porque eu era feliz demais sentindo a água geladinha nas minhas pernas gordinhas. Nessa época eu tinha 5 anos, e a rotina de praia era sempre essa: chegada, corrida, mar, meu melhor amigo naqueles momentos. Até que um dia essa rotina, impecável e muito adorada por mim, mudou.
Chegamos à praia, encontramos o lugar ideal, e os adultos começaram os trabalhos. O melhor amigo mar continuava lá, e eu, sem saber que ele tinha bebido todas durante a noite fui ser a Lúcia saltitante, mais uma vez. Ele estava com um negócio muito estranho chamado "ressaca". Papai e mamãe não sabiam, é claro, e tudo aconteceu absurdamente rápido. As imagens ainda são muito nítidas na minha cabeça quando me lembro desse episódio. Meu pai, meu ex melhor amigo mar e minha mãe, todos misturados e embaçados, assim como quando tentamos manter os nossos olhos abertos debaixo d'água. Em um minuto eu tinha a água nos meus joelhos, e no outro eu lutava muito pra me manter na superfície. As ondas iam e vinham, e meus pezinhos tão gordinhos desesperadamente tentavam tocar o chão, mas o danado não ajudava. Meu pai, num momento de impulso de herói correu em minha direção e estava quase me alcançando quando um buraco apareceu no meio do caminho e eu continuei sendo levada pra longe. É estranho, mas ao mesmo tempo engraçado, que em momento algum eu entrei em desespero, porque só pensava na seguinte coisa: "poxa vida, a minha amiga Nádia disse que sabe boiar, se eu soubesse boiar agora eu não estaria assim". Até hoje quando penso nisso fico tentando entender de onde surgiu esse pensamento. Talvez seja esse o motivo de eu gostar e me identificar tanto com a Alice, aquela do país das maravilhas. Papai sumiu do meu campo de visão e aí entra em cena mamãe com a mágica do sorriso que nunca existiu. Sorriso que eu enxerguei, sorriso que eu VI nela e posso afirmar que lembro nitidamente. Sorriso que me tranquilizou ainda mais. Ela também entrou na água no desespero de não deixar a Lúcia gordinha de cinco anos ser levada pelo -agora muito malvado- mar, e a água nos meus olhos me confundiu TANTO que eu enxerguei na mamãe desesperada um sorriso. O que ela negou, obviamente, porque segundo ela: "não havia motivo nenhum pra eu estar sorrindo naquela hora". Não lembro direito de como eu fui alcançada e nem do trajeto até a areia, mas meu pai conta que só enxergava o loirinho dos meus cabelos boiando na água quando conseguiu me alcançar, e por muito -muito pouco mesmo- não foi levado também. No colo da mãe, a paz reinou de novo, mas não posso dizer que tudo voltou ao normal.
Depois daquele ano, as viagens para lá nunca mais aconteceram e um sentimento diferente veio grudadinho em mim: o medo do meu ex amigo mar. Eu nunca mais corri pra encontrar o meu amigo, eu nunca mais gostei de ficar horas brincando na água, e nem mesmo de sentar na margem e sentir as ondinhas indo e vindo. Esse foi um dos momentos de aprendizagem mais marcantes da minha vida. Tudo isso teria sido evitado se eu já soubesse boiar, então logo após o acontecido tive pressa de aprender. E aprendi também que, é sempre bom perguntar aos amigos por onde eles andaram na noite passada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário