1 Versão
Aluno 68
Um
amontoado de carbono, poeira de estrelas, homo
sapiens sapiens, evolução dos peixes que resolveram dar umas bandas na
superfície. Mulher, brasileira, gaúcha, pagã. Responder o que sou é relativamente fácil, as respostas podem ser objetivas e
diretas, mas elas não importam. Responder quem
sou parece mais relevante, porém mais difícil.
Posso dizer que sou a filha da
técnica em enfermagem séria com o falecido segurança querido, carinhoso e
idiota, que um dia teve a brilhante ideia de dirigir bêbado. Posso dizer que
sou filha de escolas públicas, essencialmente do Ildo Meneghetti, “cria” de
cada professora por quem passei pelas mãos. Sou o que sobrou de uma paixão
destruidora e transformadora; vários sonhos com um par de pernas e um cabelo
roxo; produto da cruza de Allan Moore com Machado de Assis.
Apesar de ser mais relevante,
responder quem eu sou ainda é muito vago, comprido demais, subjetivo demais;
chato demais – quem se importa? São discussões intermináveis essas a respeito
de quem somos, o que somos, qual o sentido de tudo, qual a ideia primordial do
Ser; as religiões, a Ciência, filosofias, travam batalhas infinitas pela posse
da grande Verdade absoluta de tudo. Mas isso também não importa agora.
Com minha praticidade aquariana com
ascendente em virgem, ou herdada da mãe séria, não gosto de perder muito tempo
discutindo sobre o que ou quem somos, isso deixo a encargo dos
grandes mestres da intrapessoalidade. A mim importa de fato o que queremos ser.
O presente sempre é como a largada de uma corrida, o juiz acabou de atirar para
cima, e daqui em diante temos infinitas possibilidades, o que faremos com esse
espaço de tempo que nos resta, o que queremos ser, o que podemos ser são coisas
muito mais fantásticas e importantes do que quem
ou o que somos; prefiro as reflexões
que me coloquem em movimento, com os pés no chão e os olhos na utopia do
horizonte.
Sob esse sentido concluo o que quero
ser. Fazer dois vestibulares torturantes para me meter nesse curso que me tira
às cinco e meia da manhã da cama, que me faz pegar dois ônibus todos os dias e
ainda estudar latim! E tudo porque sou completamente apaixonada por essa
bizarrice que é a língua, a comunicação, literatura, e veja só que maluquice,
ainda querendo ser professora! Dá para ver o quanto quem escolhe ser professor
realmente acredita nisso. Quero ser nem que seja metade do que a Emília foi
para mim na escola, quero acordar de manhã com um propósito em movimento,
sabendo que posso colocar as mãos na massa numa grande mudança. Sofro de
otimismo irremediável, com vários sonhos que não dormem muito bem tatuados no
peito. Quero ser professora, comunicadora, escritora; quero ser um canal, uma
transmissora de mensagens e ideias bonitas para quem passar por mim. Semeadora
de possibilidades, parra honrar quem já semeou em mim um dia e manter viva essa
seara de lutas. Quero ser a pessoa mais feliz que puder, e pôr essa felicidade
em tudo que eu tocar. E como é que se consegue isso? Parece utopia, né não? Mas
nem é, só não perder tempo fazendo o que não se gosta. O juiz acabou de atirar
para cima, a largada começa sempre agora.
Nenhum comentário:
Postar um comentário