1 Versão
Aluno 68
Não
foi a formatura no ensino médio, nem o primeiro beijo, ou o primeiro beijo com
o mesmo sexo, nem o primeiro – e único – cigarro na boca. Não foi a primeira
festa noturna, o primeiro porre, nem mesmo a primeira transa. A minha transição
entre estágios da adolescência, o meu “rito de passagem” foi bem mais sutil.
Mesmo que todos estes eventos citados tenham me esculpido com gosto, o
acontecimento mais importante da minha vida foi distinto. Veio de dentro para
fora, uma avalanche natural, casual, nem intenções nem obrigações.
Começou quando troquei de escola, um
refreso para minha cabecinha. Vinha de um ambiente hostil e cruel, crianças
podem ser bem malvadas sem a supervisão consciente de adultos; chegar nessa
nova escola já era um suspiro de alívio que duraria por muito tempo. Cheguei e
já fui fazendo amigos, me apegando, criando vínculos; escureci as roupas,
pintei as unhas e troquei as músicas da igreja por rock. Já começa a dar alguns
ares de metida quando tudo aconteceu, e aconteceu bem devagarzinho, foi me
mordendo pelas beiradas até que, quando me dei por conta, já estava completamente
moída, digerida e refinada por ela.
Era minha professora de Ensino
Religioso, a disciplina mais sem graça, com apenas um período semanal. Não
tenho nada de incrível para descrever sobre ela, o mistério dessa conexão
aconteceu por dentro, onde as palavras não alcançam. Mas, para ilustrar uma
imagem, posso pedir que imagine uma mulher dura e forte, feita de ferro; Vênus
de pedra, tinha os olhos cor de cobre, uma boca sempre bem vermelha e voz de
trovão. Todos a temiam e respeitavam; no íntimo eu a amava.
O sentimento progrediu
geometricamente. Com anos desconfiava que aquilo não era muito normal, com
treze já me rasgava por dentro. Aconteceu comigo um dos maiores clichês da
adolescência: me apaixonei pela professora. O contexto inteiro foi absurdamente
marcante, cada dia era um pedaço meu que se desfazia, que ia derretendo. Fui
despedaçada e mordida por um punhado de sorrisos raros e desinteressados, pois
como já disse, ela era feita de pedra, era séria e bem prática no trabalho. Os
sorrisos que colecionei eram valiosos e suficientes para torturas maravilhosas.
Fiz desse amor uma tragédia digna da
poesia mais dramática, mas é sobre o fim que quero contar. Mesmo que toda
jornada tenha sido emocionante, a verdadeira “Passagem” veio com a conclusão
dessa história.
Já
contava quinze anos quando decidi entregar as pontas e falar a verdade. “Me
encontrar com a verdade” soa mais correto, pois a verdade já estava contada de
todas as maneiras possíveis: presentes, bilhetes, poemas, uma carta, abraços
apertados. A verdade já estava ali há tempos, só me faltava fôlego para
percebê-la.
Foi no intervalo de uma manhã fria
de junho – talvez julho -, com um sol pálido que mal servia para iluminar o
pátio. Esperei ela terminar o assunto que tratava com outra professora, esperei
muito tempo, na minha mente era pior que fila de banco. Quando ela finalmente
saiu eu a segui, hesitando, tropeçando, passando bastante vergonha. Alcancei-a
pela esquerda e enlacei o braço.
- Posso falar com a senhora? –
perguntei.
- Só se tu andar no meu ritmo – ela
respondeu. – Fala logo.
Andava marchando pelo pátio, era quem vigiava os alunos na hora do
recreio. Tinha os olhos atentos grudados em tudo, eu tinha os meus grudados
nela; lembro que vestia uma blusa azul cor de céu.
Não lembro direito como disse, só
sei que no meio de um monte de desnecessidades saiu um “eu te amo” gaguejado,
ao passo que ela respondeu “Eu sei, faz tempo, e tá tudo bem”. Quatro anos de
paixão platônica, de amor rasgado sublimaram-se num segundo de “tá tudo bem”. Não
havia mais nada para ser dito.
Dei-lhe um beijo na bochecha, chorei
um pouco no banheiro e depois fui para aula. Tudo mais ocorreu como se nada
tivesse acontecido. O que eu não esperava é que meses depois ela seria afastada
da escola, devido a uma sindicância mal feita, ficamos quase um ano sem
contato, já tinha aceitado que era o fim; nunca mais veria minha amada
novamente. Uma coisa que não nos contam nos contos de fadas que nem todo amor
acorda com o beijo e é feliz para sempre. Tem amores sonâmbulos que nunca serão
beijados, e há ainda aqueles que se suicidam e desistem por imposições
circunstanciais.
Não foi meu primeiro beijo, nem
minha primeira transa. Não foi sobre reciprocidade, romance ou tesão, o final
pode ter sido bem broxante para alguns. Uma paixão que se suicidou numa manhã
de inverno. No entanto, carrego comigo essa história até hoje, pois, mais
importante que joelhos amolecerem e borboletas farfalharem no estômago, foi ter
conquistado a coragem de viver e expressa tudo o que sutil sem vergonha nem
medo. Uma entrega total, inconsequente mas consciente. “Encontre o que ama e
então deixe isso te matar” me disse Bukowiski um dia desses, e essa morte que o
amor nos proporciona também é ressurreição. Não teve beijo, nunca terá, mas
hoje, sete anos depois daquela sexta série, dois anos depois do nosso
afastamento, devo atentar – com muito orgulho – que releio esse texto sentada
no sofá da sala de estar da casa dela, enquanto ela cozinha para nós. O prato
de hoje é massa com linguiça, e uma porção de massa alho e olho para a
vegetariana chata que vos escreve.
Nenhum comentário:
Postar um comentário