sexta-feira, 17 de junho de 2016

Sem título

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Aluno 88


Escrever forçadamente parece ser hábito desde que ouvi falar em redação. No colégio, os temas são propostos pelos professores, mas parece que eles nunca refazem ou renovam suas propostas de redação; elas devem estar até empoeiradas. Estudando em colégio de freiras, então, os temas pareciam terem sido feitos por elas, vindo direto do convento. Já na faculdade, eles são mais amplos, mais vagos, o que muitas vezes dificulta. Já dá pra sentir o cheiro de problema quando o tema da proposta é mostrado. Acredito que aí, todos já entram no dilema de pensar nas palavras.
Porém, o problema mesmo é ler em voz alta. São palavras que saíram dos meus dedos, montadas em minha cabeça, minha cabeça onde ninguém entra, a não ser na quinta-feira, quando a invadem; e invadem a parte onde ficam as palavras forçadas esperando para serem montadas, e claro, expostas. Ler para todos é expor uma parte de si para várias pessoas desconhecidas, que tentam perceber quais são os erros – que sempre existirão – do seu próprio texto e dos das pessoas desconhecidas.
            Começando pelo meu notebook: além de ele ligar quando quer, não dá cinco minutos e minha gata já vai digitar junto comigo, e depois, claro, dorme em cima do teclado. Acredito que ela lê minhas palavras no Word, tenta digitar corrigindo meu trabalho e como não deixo acaba dormindo de tédio. Como a amo muito, tenho pena de tirá-la de cima do computador atrapalhando suas dezoito horas diárias de sono, e consequentemente atrasando meu trabalho. Mas tudo bem, ainda é segunda-feira. Lá por quarta, lembro que ainda não terminei o texto. Releio e percebo que detestei o que escrevi. Acabo mudando todas as palavras montadas, procuro ordens diferentes ou mesmo assuntos diferentes, até que desisto de tentar gostar do meu eu exposto no texto, e simplesmente o acabo.
            Na semana seguinte, leio o texto, em voz volta, para todos ouvirem. É bom estar com os olhos virados para baixo, olhando para a folha onde estão aquelas infelizes palavras reescritas, e não ver que expressões a professora faz ao ouvi-las. Já as pessoas desconhecidas ao meu lado, não podem comentar com as outras desconhecidas sobre minhas palavras, afinal, eu ouviria. Terminando de ler o texto, termina a arritmia cardíaca junto. Após as críticas anotadas, o objetivo agora é (re)reescrever o texto.
            Mais uma vez, viro religiosa esperando o notebook ligar, e mais ainda quando a gata chega para que haja pausa na escrita. Novamente, detesto minha (re)reescrita e a reescrevo. Já não sei mais quantos “res” existem, nem quantos precisam existir pra que eu aceite ou goste do que forcei e das palavras que montei. Acho que o próximo vou deixar que a gata escreva, reescreva e (re)reescreva. 

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