Aluno 88
Reescrita
Eu
fiz o sonho de minha mãe ser o meu sonho: viajar e estudar fora do país. Quando
menos esperava, fui para Londres viver em uma host family. Alguns amigos e professores tinham me dito que
britânicos, e especialmente ingleses, eram mal-educados, arrogantes, etc.
Então, fui para lá já “preparada” para ser recebida por rudes pessoas. Porém,
esse estereoótipo foi desfeito logo ao chegar no aeroporto de Heathrow: uma
senhora me avisou que meu nariz estava sangrando, por causa do frio, e me
ofereceu um lenço para me limpar. Ela me ajudou quando estava sozinha e perdida
no encantamento de ter finalmente chego naquela cidade gelada e com constantes
garoas.
Depois de uma hora dentro de um
ônibus fui conhecer minha família nova na cidade de Bath. A casa era repleta de
gatos, cachorros, galinhas e de novos irmãos. O mais novo tinha cinco anos, o
mais velho vinte e seis. A solidariedade deles era grande. Era notável que eles
não recebiam estrangeiros somente por serem pagos, mas principalmente por
estarem mais perto de outras culturas. O pacote que já estava pago, não incluía
almoços nem vale-transportes, mas eles faziam questão de me ajudar. Eu não via
aquelas coisas sobre arrogância que haviam me alertado, só via bondade e ânsia
de me conhecerem.
Porém, meu estereótipo, ao contrário
do deles, não havia sido quebrado, e nem seria tão fácil. A primeira vez que
recebi o que eles achavam sobre o Brasil foi ao ler no jornal local algo sobre
os “samba boys”. Com a minha surpresa
com esse termo, meu irmão mais velho começou a me chamar de samba girl.
Em outro acontecimento, me
perguntaram se vivíamos em árvores juntamente com os macacos no Brasil. Já
desistindo de tentar quebrar todos esses rótulos, respondi a um britânico que
meu nome era Tupiniquim, e ele encantado com essa palavra totalmente
desconhecida anotou-a e falou que colocaria esse nome em algum filho seu.
Sentia-me como na música de Gilberto
Gil: Lá em Londres, vez em quando me
sentia longe daqui/Naquela falta de juízo que eu não/Tinha nem uma razão pra
curtir/Naquela ausência de calor, de cor, de sal/De sol, de coração pra sentir,
como tupiniquim longe da terra natal. Porém, mesmo com esse desconforto, me
sentia confortável por estar entrando em contato com outras pessoas, com
histórias totalmente diferentes das que conhecia e contextos extremamente
diferentes dos brasileiros.
Toda viagem proporciona
aprendizados, até mesmo viagens para outras cidade ou estados e agora pretendo
chegar a todo e qualquer lugar, sem qualquer especulação sobre as pessoas e nem
sobre como irão me tratar. Nessa viagem a outro continente desfiz esses rótulos
que tinham formado para mim, e mesmo não conseguindo desfazer totalmente os que
tinham sobre nós, brasileiros, acredito que fiz o mesmo para algumas pessoas
que hoje já tenho muitas saudades.
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