Aluno 90
Reescrita
A minha timidez sempre foi o resultado de algum
elemento opressivo. Há algo negativo dentro de mim, que espera as minhas horas
mais vulneráveis para me afligir com sensações de ridículo, vergonha, até mesmo
ódio, direcionadas a mim mesmo.
Curiosamente,
não foi a psicoterapia e os remédios que me forneceram insight o suficiente para entender de onde esse mal persistente,
sempre presente comigo através dos anos, vinha. Foi com uma droga – mais
especificamente, a cannabis sativa,
que havia fumado, na ocasião do relato a seguir, poucas vezes. Também, até
então, só havia sentido efeitos relaxantes e eufóricos a partir da sua
utilização; a diferença que essa nova “viagem” trouxe foi como um soco súbito
no estômago, algo que marcou profundamente os meus 18 anos, idade que tinha na
época.
Evitarei
detalhes supérfluos. A principal coisa a ser falada foi que, ao invés de
euforia, me ocorreu algo parecido com um ataque de pânico, mas diferente.
Enquanto aconteciam as coisas típicas de um ataque de pânico – sensação de
ataque cardíaco iminente, baixa de pressão corporal –, também acontecia algo
diferente: na minha mente, via uma cena bizarra, mas familiar.
Era
como se eu me visse a partir de uma perspectiva de terceira pessoa: minha visão
vendo eu mesmo de longe, como se fosse um filme. O cenário desse filme era
exatamente onde eu estava naquele momento, a sala de estar de um amigo. Eu
estava vestido da exata maneira que na “vida real”: o “filme” era uma
reprodução fiel da realidade. Esse é o bizarro – mas e o familiar? O elemento
familiar nessa visão foi o que eu sentia: ridículo, vergonha, ódio.
Mas
aconteceu algo de diferente quanto a isso: havia, claramente, um sujeito e um
objeto desses sentimentos. Ambos eram eu mesmo.
Quem
via, quem estava por trás da “câmera” que observava, era um “eu” que odiava,
sentia escárnio, pelo outro “eu”, aquele retratado como se num filme. Numa
situação em que não haveria o efeito da droga no meu sistema, ambos este
sujeito e objeto estariam misturados. No momento em que notei isso, foi
aterrador: a cisão desses dois elementos deixou mais nítido quão forte são
essas sensações, as quais sinto numa base diária, porém atenuadas.
Isto
é: enquanto eu as sinto cotidianamente, de maneira atenuada, elas não parecem
ser tão sérias quanto naquela ocasião. No início, foi aterrador ter noção
disso: eu não sabia mais do que exatamente eu era consistido, em termos de
espírito.
A
reação de longo prazo a isso foi a reclusão e negação. Tentei esquecer daqueles
sentimentos cruéis, de como, no fundo de tudo, o seu agente era senão eu mesmo;
as poucas tentativas de discussão que tive – com meu psiquiatra, com o amigo
cujo apartamento foi onde tive essa “viagem” – acabavam sempre com o desespero,
com a sensação de ter um problema insuperável, inerente: eu ainda não contava
com a direção e os recursos com os quais procurar entendê-lo.
Esses
eu só fui adquirir lá pelos meus 21, 22 anos. Estudava Psicologia na PUCRS e
tinha uma importante cadeira de Psicanálise. Nela, aprendi sobre o Inconsciente,
sobre a estrutura psíquica humana postulada por Freud, e entendi de onde esses
sentimentos recorrentes vinham. Eram parte do “regulador” da psique, o superego, que é onde os julgamentos de
valor que uma pessoa recebe vão, para serem arquivados e depois reutilizados –
sobre ela mesma. Isto é: há, dentro de todos nós, um “censor” que vai nos
reprimir a partir de coisas que foram ditas sobre nós.
Falar
da origem dessas repressões seria o suficiente para outro texto, portanto vou
me limitar a explorar o que aconteceu e como a experiência com a cannabis me ajudou a entender isso. Por
Freud, o superego se situa abaixo da
linha da consciência, no inconsciente, o que me leva a crer que só sentimos
pequenas pontadas das suas repressões diariamente. Aquela sensação de vergonha
subliminal, de ridículo, é uma dessas repressões; ela só não é mais forte
porque, na consciência, sentimos apenas ecos do superego.
Acredito
que a droga conseguiu elevar o inconsciente, deixando-o mais nítido que o
normal. Aproximando-o da minha consciência, vi com relativa crueza os
sentimentos recorrentes, agora desinibidos e mais intensos, e vi o processo
superegoico de auto-repressão, simbolizado pelo seu agente e receptor – um eu duplo, auto-destrutivo.
A
ciência desse processo, desse superego,
deixou-me dar um nome ao problema que me afeta faz tanto tempo, e isso é um
tamanho progresso. Onde as coisas pareciam brutas, absolutas, impassíveis de
controle, eu vejo algo com o qual talvez possa lidar. Agora, com meus 24 anos,
sinto que me conheço melhor – toda a vez que sinto os sentimentos superegoicos
chegando, tenho, como resposta, menos o desespero e mais um par de braços abertos
procurando apaziguar.
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