domingo, 19 de junho de 2016

Superego

Aluno 90
Reescrita


A minha timidez sempre foi o resultado de algum elemento opressivo. Há algo negativo dentro de mim, que espera as minhas horas mais vulneráveis para me afligir com sensações de ridículo, vergonha, até mesmo ódio, direcionadas a mim mesmo.
            Curiosamente, não foi a psicoterapia e os remédios que me forneceram insight o suficiente para entender de onde esse mal persistente, sempre presente comigo através dos anos, vinha. Foi com uma droga – mais especificamente, a cannabis sativa, que havia fumado, na ocasião do relato a seguir, poucas vezes. Também, até então, só havia sentido efeitos relaxantes e eufóricos a partir da sua utilização; a diferença que essa nova “viagem” trouxe foi como um soco súbito no estômago, algo que marcou profundamente os meus 18 anos, idade que tinha na época.
            Evitarei detalhes supérfluos. A principal coisa a ser falada foi que, ao invés de euforia, me ocorreu algo parecido com um ataque de pânico, mas diferente. Enquanto aconteciam as coisas típicas de um ataque de pânico – sensação de ataque cardíaco iminente, baixa de pressão corporal –, também acontecia algo diferente: na minha mente, via uma cena bizarra, mas familiar.
            Era como se eu me visse a partir de uma perspectiva de terceira pessoa: minha visão vendo eu mesmo de longe, como se fosse um filme. O cenário desse filme era exatamente onde eu estava naquele momento, a sala de estar de um amigo. Eu estava vestido da exata maneira que na “vida real”: o “filme” era uma reprodução fiel da realidade. Esse é o bizarro – mas e o familiar? O elemento familiar nessa visão foi o que eu sentia: ridículo, vergonha, ódio.
            Mas aconteceu algo de diferente quanto a isso: havia, claramente, um sujeito e um objeto desses sentimentos. Ambos eram eu mesmo.          
            Quem via, quem estava por trás da “câmera” que observava, era um “eu” que odiava, sentia escárnio, pelo outro “eu”, aquele retratado como se num filme. Numa situação em que não haveria o efeito da droga no meu sistema, ambos este sujeito e objeto estariam misturados. No momento em que notei isso, foi aterrador: a cisão desses dois elementos deixou mais nítido quão forte são essas sensações, as quais sinto numa base diária, porém atenuadas.
            Isto é: enquanto eu as sinto cotidianamente, de maneira atenuada, elas não parecem ser tão sérias quanto naquela ocasião. No início, foi aterrador ter noção disso: eu não sabia mais do que exatamente eu era consistido, em termos de espírito.
            A reação de longo prazo a isso foi a reclusão e negação. Tentei esquecer daqueles sentimentos cruéis, de como, no fundo de tudo, o seu agente era senão eu mesmo; as poucas tentativas de discussão que tive – com meu psiquiatra, com o amigo cujo apartamento foi onde tive essa “viagem” – acabavam sempre com o desespero, com a sensação de ter um problema insuperável, inerente: eu ainda não contava com a direção e os recursos com os quais procurar entendê-lo.
            Esses eu só fui adquirir lá pelos meus 21, 22 anos. Estudava Psicologia na PUCRS e tinha uma importante cadeira de Psicanálise. Nela, aprendi sobre o Inconsciente, sobre a estrutura psíquica humana postulada por Freud, e entendi de onde esses sentimentos recorrentes vinham. Eram parte do “regulador” da psique, o superego, que é onde os julgamentos de valor que uma pessoa recebe vão, para serem arquivados e depois reutilizados – sobre ela mesma. Isto é: há, dentro de todos nós, um “censor” que vai nos reprimir a partir de coisas que foram ditas sobre nós.
            Falar da origem dessas repressões seria o suficiente para outro texto, portanto vou me limitar a explorar o que aconteceu e como a experiência com a cannabis me ajudou a entender isso. Por Freud, o superego se situa abaixo da linha da consciência, no inconsciente, o que me leva a crer que só sentimos pequenas pontadas das suas repressões diariamente. Aquela sensação de vergonha subliminal, de ridículo, é uma dessas repressões; ela só não é mais forte porque, na consciência, sentimos apenas ecos do superego.
            Acredito que a droga conseguiu elevar o inconsciente, deixando-o mais nítido que o normal. Aproximando-o da minha consciência, vi com relativa crueza os sentimentos recorrentes, agora desinibidos e mais intensos, e vi o processo superegoico de auto-repressão, simbolizado pelo seu agente e receptor – um eu duplo, auto-destrutivo.
            A ciência desse processo, desse superego, deixou-me dar um nome ao problema que me afeta faz tanto tempo, e isso é um tamanho progresso. Onde as coisas pareciam brutas, absolutas, impassíveis de controle, eu vejo algo com o qual talvez possa lidar. Agora, com meus 24 anos, sinto que me conheço melhor – toda a vez que sinto os sentimentos superegoicos chegando, tenho, como resposta, menos o desespero e mais um par de braços abertos procurando apaziguar.

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