Aluno 90
1 Versão
A viagem no
ônibus é como navegar no bote de Caronte – você é um morto-vivo, aguardando
impotentemente o seu destino. O seu destino é a meia-vida através de caminhadas
solitárias por lugares movimentados: apesar da solidão, você gosta de ter
companhia em volta. É um meio-morto se agarrando tenuemente a algum resquício
de calor humano; embora incapaz de se comunicar com as pessoas em volta, gosta
da posição de zumbi ou fantasma inofensivo, de parte da paisagem tal qual uma
árvore. E assim como ocorre com uma árvore, talvez alguém, algum dia, alguma
hora, num raro gesto de empatia, decida verificar o que ocorre contigo; e aí
você vai sorrir e dizer tudo bem, silenciosamente desejando despejar o conteúdo
de suas entranhas – todas as agruras, todas elas – mas não podendo, por medo de
assustar esse amigo da interação de vinte segundos, o qual você nunca mais vai
ver.
Antes da viagem de ônibus você acordou: por alguns minutos, até parecia um dia de gente normal. Você nunca teve um, mas imagina que seja como aquela música do Edvard Grieg – (cantarola a melodia de A Manhã) –, a pessoa se levantando, abrindo a janela, dizendo “olá, passarinhos!”; provavelmente esse dia não existe nem para os normais, mas é, para você, tanto um ideal para ser alcançado como um reforçador da sua auto-piedade, do coitadinho de mim que você faz para não ter que escalar a montanha do dia tal Sísifo. Ei-la: você sabe que, no próximo dia, a rocha que você carregou até o cume vai voltar ao início da montanha, mas fazer o quê? A ilusão da manhã perfeita se desfaz após alguns míseros minutos de bem-estar neuroquímico, e logo o Deus do Mal, Tchernobog, toma reino na sua mente: ele escala o seu cérebro como aquela montanha no Fantasia da Disney, violinos dolorosos tocando, e ele abre as asas e – como um eclipse, você é encoberto pela sensação de ser uma merda. A cama, antes um leito da ilusão bucólica de sol e passarinhos, vira um sepulcro de mal-estar: você se rola na cama, sentindo que precisa fugir; seus poros suam com uma espécie de enjoo existencial; você reluta. Você reluta e pensa: bom, talvez eu possa esperar, aí isso vai embora e –
Não vai! “Não vai” é a conclusão que se tem quando você pega um livro ou tenta ver um filme, ainda deitado. “Não vai”: você deixa de prestar atenção na cena no monitor ou na página, fazendo uma cena própria na sua mente, uma série de imagens confusas que se repete e dói, dói e você não consegue tirar sentido daquilo tudo: tudo o que você sabe é a dor neuroquímica, a sensação de inchaço, náusea, dor, suor, dor –
Precisa fugir. E aí você sai da cama e morre no banho – alguns dias você espera e espera na água escaldante, esperando o efeito revigorador de uma sauna; outros dias até o chuveiro é uma tortura, paredes de mármore, vapor sufocante e você pelado consigo mesmo, o horror, o horror; mas em ambos os casos, o destino é o mesmo. Ônibus do mal-estar para a morte-vida entre as pessoas que vivem: você não pensou muito bem no que iria fazer, porque o Tchernobog neuroquímico não deixou, e, portanto, a ordem do dia é a caminhada compulsiva, descerebrada, para ver se a dor vai embora. Para ver se o cérebro desembaça, para ver se a alma se limpa: mas talvez você esteja ligeiramente mais inspirado hoje, e decida trocar a caminhada por uma vegetação em algum bar com pessoas falando. É ligeiramente uterina a atmosfera do bar: o murmúrio das pessoas te consola, você não está tão sozinho assim, mesmo que seja uma sociabilização por osmose. Sendo o bar uma espécie de templo, talvez você decida desafiar Tchernobog com uma espada feita de palavras: você trouxe um bloquinho, onde começa a escrever febrilmente, com a mesma compulsão que outro dia guiou os seus passos pela caminhada de zumbi. Você, ao mesmo tempo, ordena um café tamanho jumbo: espera que, ao tomá-lo com a mesma voracidade compulsiva, ative alguma coisa que o seu cérebro mutilado não ativa geralmente, e com isso torne-se Um Com A Força, um mestre Jedi dos escritores de barzinho. É até legal: muitas vezes saem textos legais de situações como essas, e você se sente o máximo porque, dos seus pulmões secos de zumbi, conseguiu exalar algumas pequenas baforadas de existência, que ninguém provavelmente vai ler, mas – um pequeno passo para a humanidade, um grande passo para um zumbi.
E aí você volta para casa, Caronte dirigindo o ônibus novamente. As pessoas estão cansadas, a mulher manda o filho – vividamente – calar a boca, um jovem enlaça os braços em volta dos ombros do outro – vivos, satisfeitos, eles viveram, só você que não. Muito. Você espera que, pelas suas ações do dia, tenha fugido o suficiente de Tchernobog ou o espantado com a caneta e o café. Você entra em casa implorando consigo mesmo “por favor, eu andei tanto hoje, vi tantas pessoas, fui um ser social à medida da minha capacidade debilitada de interagir, eu posso ficar em paz agora?”
Você se deita na cama. Os passarinhos, os passarinhos da noite! você sente que pode ir lá fora e cantar para os morcegos. Enquanto abre a janela, e olha pra noite lá fora, asas lentamente começam a engolfar o teu cérebro. O pensamento fica fosco, os morcegos parecem uma idiotice, o dia parece ter sido uma idiotice, cada respirada que você dá não satisfaz – e Tchernobog neuroquímico escala a montanha do cérebro novamente, e você gostaria de chorar mas não consegue fazer nem isso. Só consegue suar, se sentir um lixo; você talvez tenta transcrever as folhas que escreveu e editá-las, mas tudo é torpe e tudo é fosco. Nada faz sentido, só resta a cama, três horas rolando de um lado para outro debilmente, sufoco e náusea, sufoco e náusea, os seus braços que seguram a pedra na escalada da montanha fraquejam, perdem o controle, a pedra rola por cima de ti, você dorme um sono pesado. Amanhã, a pedra aguarda.
Antes da viagem de ônibus você acordou: por alguns minutos, até parecia um dia de gente normal. Você nunca teve um, mas imagina que seja como aquela música do Edvard Grieg – (cantarola a melodia de A Manhã) –, a pessoa se levantando, abrindo a janela, dizendo “olá, passarinhos!”; provavelmente esse dia não existe nem para os normais, mas é, para você, tanto um ideal para ser alcançado como um reforçador da sua auto-piedade, do coitadinho de mim que você faz para não ter que escalar a montanha do dia tal Sísifo. Ei-la: você sabe que, no próximo dia, a rocha que você carregou até o cume vai voltar ao início da montanha, mas fazer o quê? A ilusão da manhã perfeita se desfaz após alguns míseros minutos de bem-estar neuroquímico, e logo o Deus do Mal, Tchernobog, toma reino na sua mente: ele escala o seu cérebro como aquela montanha no Fantasia da Disney, violinos dolorosos tocando, e ele abre as asas e – como um eclipse, você é encoberto pela sensação de ser uma merda. A cama, antes um leito da ilusão bucólica de sol e passarinhos, vira um sepulcro de mal-estar: você se rola na cama, sentindo que precisa fugir; seus poros suam com uma espécie de enjoo existencial; você reluta. Você reluta e pensa: bom, talvez eu possa esperar, aí isso vai embora e –
Não vai! “Não vai” é a conclusão que se tem quando você pega um livro ou tenta ver um filme, ainda deitado. “Não vai”: você deixa de prestar atenção na cena no monitor ou na página, fazendo uma cena própria na sua mente, uma série de imagens confusas que se repete e dói, dói e você não consegue tirar sentido daquilo tudo: tudo o que você sabe é a dor neuroquímica, a sensação de inchaço, náusea, dor, suor, dor –
Precisa fugir. E aí você sai da cama e morre no banho – alguns dias você espera e espera na água escaldante, esperando o efeito revigorador de uma sauna; outros dias até o chuveiro é uma tortura, paredes de mármore, vapor sufocante e você pelado consigo mesmo, o horror, o horror; mas em ambos os casos, o destino é o mesmo. Ônibus do mal-estar para a morte-vida entre as pessoas que vivem: você não pensou muito bem no que iria fazer, porque o Tchernobog neuroquímico não deixou, e, portanto, a ordem do dia é a caminhada compulsiva, descerebrada, para ver se a dor vai embora. Para ver se o cérebro desembaça, para ver se a alma se limpa: mas talvez você esteja ligeiramente mais inspirado hoje, e decida trocar a caminhada por uma vegetação em algum bar com pessoas falando. É ligeiramente uterina a atmosfera do bar: o murmúrio das pessoas te consola, você não está tão sozinho assim, mesmo que seja uma sociabilização por osmose. Sendo o bar uma espécie de templo, talvez você decida desafiar Tchernobog com uma espada feita de palavras: você trouxe um bloquinho, onde começa a escrever febrilmente, com a mesma compulsão que outro dia guiou os seus passos pela caminhada de zumbi. Você, ao mesmo tempo, ordena um café tamanho jumbo: espera que, ao tomá-lo com a mesma voracidade compulsiva, ative alguma coisa que o seu cérebro mutilado não ativa geralmente, e com isso torne-se Um Com A Força, um mestre Jedi dos escritores de barzinho. É até legal: muitas vezes saem textos legais de situações como essas, e você se sente o máximo porque, dos seus pulmões secos de zumbi, conseguiu exalar algumas pequenas baforadas de existência, que ninguém provavelmente vai ler, mas – um pequeno passo para a humanidade, um grande passo para um zumbi.
E aí você volta para casa, Caronte dirigindo o ônibus novamente. As pessoas estão cansadas, a mulher manda o filho – vividamente – calar a boca, um jovem enlaça os braços em volta dos ombros do outro – vivos, satisfeitos, eles viveram, só você que não. Muito. Você espera que, pelas suas ações do dia, tenha fugido o suficiente de Tchernobog ou o espantado com a caneta e o café. Você entra em casa implorando consigo mesmo “por favor, eu andei tanto hoje, vi tantas pessoas, fui um ser social à medida da minha capacidade debilitada de interagir, eu posso ficar em paz agora?”
Você se deita na cama. Os passarinhos, os passarinhos da noite! você sente que pode ir lá fora e cantar para os morcegos. Enquanto abre a janela, e olha pra noite lá fora, asas lentamente começam a engolfar o teu cérebro. O pensamento fica fosco, os morcegos parecem uma idiotice, o dia parece ter sido uma idiotice, cada respirada que você dá não satisfaz – e Tchernobog neuroquímico escala a montanha do cérebro novamente, e você gostaria de chorar mas não consegue fazer nem isso. Só consegue suar, se sentir um lixo; você talvez tenta transcrever as folhas que escreveu e editá-las, mas tudo é torpe e tudo é fosco. Nada faz sentido, só resta a cama, três horas rolando de um lado para outro debilmente, sufoco e náusea, sufoco e náusea, os seus braços que seguram a pedra na escalada da montanha fraquejam, perdem o controle, a pedra rola por cima de ti, você dorme um sono pesado. Amanhã, a pedra aguarda.
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