sexta-feira, 28 de julho de 2017

A mudança que vem de fora

Aluno 154
Reescrita


Um dia, conversando com um amigo mais velho, fui questionado acerca de minha escolha de curso no vestibular. A questão da decisão de profissão está presente durante toda a vida, mas, dado o caráter até então inusitado de ser obrigado a escolher um caminho que, tomado em detrimento de outros fecharia algumas portas e abriria outras, me encontrei desolado quando provocado a buscar minha proficiência. Era claro para mim que, se pudesse, estaria até o dia de minha morte estudando e compondo textos e músicas, mas como sustentar-me com a produção e consumo de arte? Afrontado por essa dúvida, percebi que não conhecia qualquer vocação própria que pudesse significar um trabalho rentável. Não soube responder a pergunta de meu amigo e essa foi por muito tempo uma preocupação voraz em minha vida. Simplesmente não me ocorria resposta razoável.
Li “A Morte de Ivan Ilitch” (1886), de Tolstói, aos 15 anos, e passou-se que me condoí profundamente pelo protagonista, que morre após ter descoberto que não fez durante a vida o que gostaria de ter feito, morrendo arrependido da vida que levou. A personagem fez um efeito devastador em mim, de forma que a experiência dessa leitura pareceu não ser obra do acaso, encaixando-se perfeitamente ao momento, como fosse algo que saísse do livro e invadisse a realidade: “(...) acredito que a leitura deva provocar no leitor uma reação. Essa, por sua vez, permitirá que sejam emitidas opiniões, pois aceitar ou recusar um assunto é, muitas vezes, o ponto de partida para a construção do conhecimento.” (ROTTAVA, 2000, p. 16). Após a leitura, percebi o que representaria para mim escolher um trabalho que a mim não fizesse sentido, senão a ganância por dinheiro, e pude decidir-me a tomar a decisão de dar importância primaz ao gosto pelo que faria.

"A leitura só é parte da construção do conhecimento como prática social que se insere nas práticas discursivas de que o leitor participa no cotidiano. (...) O que é, então, leitura como prática social? É uma leitura que envolve o propósito de que ler é utilizar-se da linguagem para determinado objetivo, bem como para alguém e em certas circunstâncias." (ROTTAVA, 2000, p. 13-14).
Tolstói criou uma personagem que trouxe à tona uma reflexão que me dizia respeito, que se encaixava na pergunta que eu fazia a mim mesmo, de modo que o fato de ter escolhido um curso pensando na importância que teria o gostar ou não daquilo que faria foi diretamente influenciado pela leitura do livro. Assim, me pareceu mais assertivo fazer o que me traria felicidade do que o que me traria retorno financeiro, de modo que se confirma a afirmação de Rottava (2000), de que ler é construir sentidos: "É a construção de uma mensagem, cujas intenções e significado são próprias desses interlocutores, onde se instala uma complexa rede de representações características de cada falante".























REFERÊNCIAS:

1 ROTTAVA, Lucia. A importância da leitura na construção do conhecimento. Espaços da Escola, ano 9, n. 35. p. 11-16. Editora Unijuí. Janeiro/março de 2000.

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