quarta-feira, 19 de julho de 2017

A Ressaca de Luís

Reescrita
Aluno 149


Luís faria 30 anos no sábado. Por causa do trabalho, não encontrava os amigos há um bom tempo, queria sair para beber, dançar e esquecer os problemas cotidianos. Resolveu que comemoraria essa data especial em um barzinho na Cidade Baixa, para poder estar rodeado por todos eles. Adorava as risadas altas, as conversas que se atravessavam, e as piadas sem graça que ainda assim o faziam rir. E, acima de tudo, adorava um bom vinho. Não era sua intenção passar dos limites naquela noite, mas em um determinado momento, Luís já estava tão fora de órbita, que pediu ajuda ao amigo Jorge para subir em uma das mesas do bar, com a intenção de dançar (de um jeito extremamente esquisito) ao som de “Me Leva”, aquela música do Latino que qualquer um gostaria de esquecer. Já meio tonto, quase caiu em cima do amigo, que segurando uma taça cheia de vinho na mão, acabou derrubando tudo na camisa branca de Luís, que a havia comprado justo para aquela ocasião. Olhou para a mancha horrenda com uma cara de quem fosse chorar, mas logo começou a rir novamente, dando saltos como um canguru.
Ao chegar em casa, já eram quase sete horas da manhã, o cabelo completamente desarrumado, a mancha na camisa parecia um pouco mais escura, mal conseguia andar. Jogou o corpo inteiro na cama, deixando um dos braços para fora, enquanto o outro segurava a cabeça que parecia ter meia tonelada. “Preciso curar essa ressaca”, pensou. Mas, naquele momento, era quase impossível executar essa tarefa, pois só de tentar levantar uma das pálpebras tinha ficado exausto, como se tivesse competido em uma maratona. O telefone começou a tocar. O toque instrumental estava lhe dando nos nervos. Com todas as forças que ainda restavam no seu corpo, conseguiu sair completamente da cama, caminhando como se tivesse uma bola de ferro presa entre as pernas. Chegou até a sala, onde havia deixado o telefone atirado no sofá. A ligação era de Jorge.

- Alô – disse Luís, com uma voz fraca.
- Oi guri, chegou bem? Tua voz tá tão fraquinha, parece a de um filhotinho desmamado – brincou, rindo logo em seguida.
- Para com isso, Jorge. Tô com uma ressaca horrível.
- Também... bebeu como se não houvesse amanhã! É nisso que dá!
- Tu sabe como curar ressaca? – perguntou, com a mão segurando a cabeça como se ela fosse cair.
- Olha, que eu saiba tem que tomar bastante água, suco de laranja ou tomate. Toma um banho, cara, vai te fazer bem. E comer coisinhas leves, come banana, banana é bom.
- Banana? Não sei se tem banana aqui em casa...
- Ah, então te vira! Vou desligar, ainda vou dormir mais um pouco, só queria saber se tu estava bem. Tchau, guri!
- Tchau!
Após a conversa com o amigo, decidiu: iria curar definitivamente aquela ressaca. Foi lentamente até a cozinha, abriu a geladeira e viu que a garrafa de água já estava pela metade, quase não tendo nada para beber. Mesmo assim, pegou-a como se fosse salvar sua vida, bebendo até a última gota, e dando pequenas batidinhas nela para que não restasse nenhum vestígio. Estava um pouco enjoado, e sentou-se na bancada da cozinha, com o olhar fixo nas bananas que estavam numa cestinha em cima da pia. Levantou-se decidido, e acabou por comer só uma delas, pois as outras já estavam bem maduras. Colocou as cascas no lixo, indo direto ao banheiro tomar uma ducha rápida para acordar de uma vez por todas. Ao sair do chuveiro, sentiu-se leve e bem-disposto pela primeira vez naquela manhã. Estava começando a melhorar, não completamente, mas já era alguma coisa. Voltou então à cozinha, para procurar as laranjas que precisava para fazer o seu suco. Achou algumas escondidas na cestinha, e com o auxílio do espremedor antigo que raramente usava, fez um suco meio amargo que encheu um único copo, olhando- o com cara de poucos amigos. Mas, se era para ajudar a melhorar a ressaca, se sentia na obrigação de fazer esse sacrifício. Pensou na conversa com Jorge: ainda faltava o suco de tomate. Abriu novamente a geladeira e encontrou dois ou três tomates para fazer o bendito suco. Novamente usou o espremedor, que quase não funcionou, mostrando que Luís precisava comprar outro. Bebeu tudo em um único gole, e por usar o mesmo copo com o qual havia tomado o suco de laranja, sentiu os dois sabores ao mesmo tempo. Logo após tantos processos, Luís já estava perfeitamente bem. Nenhum membro doía, já conseguia caminhar normalmente e a voz voltara ao normal. “Curei minha ressaca”, pensou alegre, quase dando pulos. Meia hora depois, estava trancado no banheiro. Tinha conseguido curar a ressaca. Mas, em compensação, ganhou uma dor de barriga.

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