Aluno 149
Reescrita
Escrever nunca foi uma tarefa fácil: ficar horas batendo a caneta entre os dedos, olhando fixamente para a folha em branco, buscando pela palavra certa. Muitas vezes, sem conseguir extrair dos pensamentos mais do que 4 ou 5 frases, desconexas e superficiais. Essas são algumas de minhas desventuras ao tentar escrever um texto, e, ainda que o ato de escrever possa parecer um tanto torturante, inventar histórias tornou-se em certo momento, um de meus grandes fascínios. Passar horas a fio construindo personagens, suas características, seus conflitos e dilemas transformou-se em algo comum para mim. Com caderno e caneta em mãos, sentada no sofá desconfortável de uma pequena sala, minha imaginação irrefreável fazia-me encher páginas e páginas, que narravam sobre pessoas que só existiam em minha mente e nas realidades que inventava. Percebi, então, que eu tinha uma grande necessidade de escrever. Porém, tudo isso teve um começo.
Em uma escola localizada em um bairro periférico, é óbvio que nem tudo ocorre facilmente. Por conta disso, a primeira vez que pude ir à Feira do Livro de Porto Alegre foi em 2005, quando tinha 11 anos. Ainda me lembro de minha professora levando-me pela mão a cada uma das bancas, fazendo com que eu descobrisse um mundo novo e cheio de vida que jamais havia tido contato. Me vi envolta pelas mais diversas histórias, as capas coloridas chamavam minha atenção, e eu olhava-as detalhadamente com a curiosidade típica de uma criança. Até que me deparei com um livro maravilhoso, que mudaria minha visão sobre escrever. Pois, até então, o ato de escrever era simplesmente uma tarefa escolar que não me despertava prazer nem emoção. Isso transformou-se quando recebi o livro “5° Habitasul: Revelação Literária na Feira”, que continha textos criados por visitantes do evento no ano anterior. Ao folheá-lo, li com euforia cada palavra, e descobri narrativas fascinantes que se tornavam mais envolventes a cada releitura. Eram estilos de escrita diferentes do meu, e consequentemente, melhores que o meu. A partir disso, decidi mudar. Não mais perderia meu tempo escrevendo histórias sem importância. Queria revelar ao leitor, através dos meus personagens, meus próprios sentimentos e angústias, mostrar um “eu” que eu mesma desconhecia. O grande responsável pela minha mudança foi um dos textos que conheci através deste livro, intitulado “O Aniversário”. O título é uma referência à famosa obra de Chagall, tendo a personagem principal da narrativa uma réplica do quadro em seu apartamento. Os nomes dos personagens já fugiram de minha memória, mas a história permanece viva até hoje. Tudo se inicia com uma mulher loucamente apaixonada por um pianista, seu amante. Ela é intensa, trágica, voz rouca por conta do cigarro. Ele começa a interessar-se por outra mulher, uma cantora, cuja voz era suave, parecida com a de Elis. Seu amor excessivo sufoca-o, irrita-o. Ela quer que ambos sejam como os amantes de Chagall, unidos, quase entrelaçados e atados por um beijo. Ele a trai com a cantora. Ela desespera-se, seu semblante escurece como em dias de tempestade. Decide então, tirar a própria vida na frente de seu amado, dando um tiro em sua cabeça. Seu sangue respinga, pintando de vermelho o quadro de Chagall. A força dessa narrativa deixou marcas em mim. Nunca mais vi o ato de escrever da mesma forma e percebi o quão extraordinário é o poder das palavras, e a profundidade a qual elas podem te tocar. Completamente influenciada e encantada com O Aniversário, me propus então, a inventar minhas próprias histórias.
Muitas de minhas professoras incentivaram-me a escrever, mesmo que frequentemente eu me sentisse frustrada por não ter plena facilidade com as palavras. Muitas vezes elas fogem de mim, escapam entre meus dedos. E encontrá-las, pode demorar algum tempo. Morri Por Amor foi minha primeira experiência narrativa, ao centrar-se em Luisa, que já morta, conta sua história para o leitor: uma mulher que se apaixona por um homem que não vale a pena. Enganada por ele, descobre ser nada mais do que uma de suas amantes. Ela mata-o, e assim como em O Aniversário, suicida-se. Dar vida e voz a um personagem, desnudá-lo através de palavras e ações, é incrivelmente desafiador. Escrever essa história foi, simultaneamente, uma homenagem para O Aniversário e também uma tentativa de me encontrar como escritora anônima. Ambas personagens morrem por amor, ambas perdem o controle de si mesmas. Ainda que meu texto não se igualasse nem se aproximasse em questões de qualidade, fui parabenizada pela professora: “Excelente, deve ser publicado!”, escreveu ela, na mesma folha de caderno que usei para inventar Luisa. Jamais o publiquei, pois ao longo do tempo, me dei conta de que faltava ao texto originalidade, algo que o diferenciasse e que realmente o tornasse meu.
Escrevi e escrevo coisas que me vem à cabeça, e a partir delas, crio representações sobre o mundo que me cerca. Tenho fascínio por heroínas trágicas. Talvez, porque tenhamos algo em comum: somos movidas pelo amor. Elas, por amor a seus amantes, seus companheiros, seus amados. Eu, pelo ato de escrever.
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