segunda-feira, 10 de julho de 2017

Fábrica de defuntos

Aluno 114
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Minhas botas afundavam um pouco na grama molhada enquanto subíamos aquela pequena trilha. A chuva fina caía sobre meus ombros e o vento da primavera polonesa me gelava o rosto e fazia meu queixo tremer. Mesmo em abril, a temperatura lá era mais baixa do que qualquer uma já registrada em pleno inverno portoalegrense. Ainda assim, fazia mais frio no topo daquele campo do que em sua entrada.
Tínhamos nos preparado tanto para aquela viagem. Foram aulas e mais aulas sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre o Holocausto, sobre a vida dos judeus na Europa antes da instauração do governo nazista e sobre a pseudovida que levavam nos guetos e nos campos de concentração depois dela. Mas não há bagagem teórica, não há preparação psicológica suficiente para evitar o choque, o tapa na cara, o soco na boca do estômago que era pisar ali onde sabíamos que haviam se efetuado tantos daqueles assassinatos sobre os quais havíamos lido em livros didáticos ou ouvido em relatos de nossos parentes mais velhos.
Terminada a caminhada, nos alinhamos em fila em frente a nossa guia, paralelos à fornalha a céu aberto que se estendia pelo campo. “As fornalhas ao ar livre foram instaladas aqui em Treblinka depois de algum tempo, ao perceberem que os fornos que construíram não eram suficientes para dar conta de todos os cadáveres que saíam das câmaras de gás”, disse ela.
Pronto. Foi necessária apenas uma frase para me desestabilizar completamente. As lágrimas escorriam pelo meu rosto, o almoço subia pela minha garganta. Fechei a boca, engoli ele de novo. Era impossível não se deixar abalar por aquelas palavras. Em parte porque eu estava apenas no segundo ano do Ensino Médio, em parte por ser judia e, assim, sentir o peso de ter que carregar ___________, em parte por saber que a grande maioria dos colegas que me acompanhavam naquela viagem eram judeus e se encontravam na mesma situação que eu, mas também pelo simples fato de que qualquer ser humano com a mínima capacidade de empatia se comoveria ao pisar no mais eficiente campo de extermínio da história.
Treblinka. Nome digno para uma fábrica de defuntos. Seco. Ríspido. Nome que faz tremer a língua, ao ser pronunciado, e todo o resto do corpo, ao lembrarmo-nos do que ele representa: uma máquina de matar, uma cadeia de produção em que os prisioneiros chegavam, eram despidos e privados de todos os seus pertences, tinham seus cabelos raspados, e eram, por fim, atumultuados nas câmaras de gás para depois serem jogados no fogo, fosse ele a céu aberto ou protegido por tijolos.
O que antes era uma construção perfeitamente arquitetada para garantir sua máxima eficácia, hoje se resume a ruínas, a um grande contingente de pedras. Pedras que eu observava de perto enquanto pensava que  

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