Aluno 84
Reescrita
O fascínio pelo mundo da TV
foi projetado para a faculdade de Jornalismo. Ao longo dos semestres, a ebulição
de aprendizados caminhou na mesma trajetória dos percalços da vida acadêmica. Teorias,
pensadores, fundamentos, conceitos, técnicas... De História da Imprensa à Cibercultura,
passando pelas mídias de comunicação e laboratórios de audiovisual. E depois
navegar no mar de 64 créditos eletivos para ampliar a bagagem do comunicador. Em
determinada altura, notei que a conclusão estava próxima e que o sonho havia se
transformado em planejamento. Dava até para visualizar a luz refletida no túnel
que já me sufocava. E então veio o Trabalho de Conclusão de Curso.
O primeiro desafio foi a
escolha do tema; afinal, Comunicação Social é uma área de conhecimento muito
ampla. Na última folha do caderno, fiz uma lista de assuntos de interesse. Ao
longo dos anos de faculdade, ia anotando possíveis objetos de estudo sempre que
tinha uma ideia. Após adiar a realização da monografia por dois semestres,
sentia o ar cada vez mais rarefeito. Na tentativa de transformar o passatempo
de assistir televisão em trabalho científico, defini a temática de pesquisa: telenovela.
Uni o agradável ao necessário para sair daquele tormento.
O próximo passo era
conseguir um professor para orientar a pesquisa. Para isso, tive que selecionar
aqueles cujo campo de pesquisa abrangesse o meu projeto. E-mails enviados e respostas
que recusavam o convite devido à demanda de orientações que os professores já
haviam assumido. O período para inscrição na disciplina final estava chegando
ao fim. Quando se depende de mais alguém para realizar algo a situação fica
ainda mais tensa. Cometi o erro de adiar um projeto que deveria ter sido
planejado com antecedência. Em busca da assinatura de um professor, fui até a
faculdade. A tentativa final foi escrita pelo acaso de um encontro na escadaria
do prédio. Uma das destinatárias dos convites frustrados fez com que aquela asfixia
fosse substituída por um alívio de agradecimento. A professora de audiovisual
seria a orientadora da pesquisa.
O TCC foi onipresente desde
o primeiro semestre, mas quando chegou o momento de encará-lo nos olhos, enxerguei
a estressante fisionomia de metodologias científicas, objetos de estudo,
objetivos de pesquisa e formatações padronizadas. Tudo isso encoberto de
prazos. Preocupações dobradas e disponibilidade reduzida; tarefas agendadas e
nem sempre cumpridas. O esforço para cumprir as obrigações acadêmicas dividia
espaço com o temido jubilamento, a desvinculação compulsória do curso. A
pressão do tempo me roubava ainda mais o ar, mas eu não poderia perder a
respiração. Reiniciar mais um semestre adiaria mais uma vez os planos de
transformar os sonhos de infância em um futuro promissor. Como uma mensagem de autoajuda,
esse pensamento ecoava e me estimulava a escrever cada página.
Percebi a importância da
página de agradecimentos. Essa folha que antecede o texto representa um pouco
de escrita pessoal no trabalho científico; geralmente, passa despercebida para
o leitor. Porém, para quem a escreve, significa que aquela luz incipiente do
túnel se transformou em um céu de alívio e satisfação pessoal. E eu, finalmente,
consegui respirar. A sensação de finalizar a monografia é inesquecível e
difícil de descrever, talvez uma metáfora enriquecida de criatividade pudesse
deixar mais clara a sensação de euforia, mas ainda assim a comparação estaria
incompleta. Aprendi o valor da gratidão, dizendo obrigado às pessoas que
oxigenaram essa trajetória. Aprendi também que a vontade de desistir às vezes
vem obstruir a expectativa da chegada. Nesse momento, é preciso rejuvenescer
décadas para recarregar a energia infantil de sonhar e recuperar o fôlego.
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