Reescrita
Por Aluno 37
Da
minha existência, com todas as suas contradições, pode ser dita apenas uma
palavra: inconformismo. Apresento-vos Pedro Jung, vinte e um anos no corpo e
portador de uma mente que – enquanto inconstante – reserva-se eternamente
condenada a pertencer à outra época. Educado em uma família antiquada, rígida e
religiosa e, posteriormente, entregue ao irracional chafurdar da sociedade.
Desiludido, portanto: me tornei uma espécie de utopia cronológica, congelada
nalgum lugar após a Idade Média e antes da Revolução Industrial.
Minha
adolescência passou sob o jugo de pais tão inconformados quanto o filho; quando
critiquei tais inadequados conceitos de religiosidade, casamento, materialismo
estúpido e ignorância frente as minhas necessidades de arte e filosofia somente
incrementei uma sensação de não-pertencimento até em meu próprio lar.
Insatisfeitos, então, com minha encomenda – encomenda que de tanta nutrida
espera revelou-se mais um cogumelo decompositor do que uma doce papaia,
dedicaram seu tempo a tentar corrigir o filho. Todos estão vendo que foi uma vã
tentativa.
Apaixonado
por história, mitos e filosofias: frutos, por certo, de meus engasgues frente à
esse mundo. Metódico ao ponto de constantemente sentir a necessidade de
pesquisar as origens das irracionais tradições atuais para entendê-las.
Possuidor de uma mentalidade artística: pincelando o preto no branco posso
atingir os cinzas que nunca vejo pelos meus olhos. Muito sonhador. Ainda mais
ambicioso: um nato perfeccionista nervoso. Vejo riquezas onde não há dinheiro:
alucinado. Naturalmente, portanto, os livros tornaram-se os meus melhores
amigos; as personagens, minhas concubinas. Bons autores: todos meus mestres. E
as aulas mais produtivas de meu público Ensino Médio: noites chuvosas, na cama,
imerso em leituras à luz de lamparinas.
Confesso
não saber sequer de qual bom exemplo – visto que não os tive – veio tanta
insatisfação. Talvez, um índice de genialidade; talvez, uma garantia precoce de
ter meu túmulo cavado na lama. Ainda, talvez os dois: ou nenhum deles; onde não
se sabe o começo, nunca tente descobrir o final. Somente uma coisa na minha
vida permanece constante: a vontade de eternizar-me pela mudança. Deixarei algo
alterado antes de partir nem que seja a marca de minha testa nalgum muro. Pois sempre
permanecerei insatisfeito: comigo, com a sociedade. Insatisfeito até com meu
inconformismo.
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