Aluno 97
1 Versão
Desde criança eu
aprendi que as pessoas são cruéis. No geral, as pessoas não costumam se
importar em opinar sobre questões frágeis, pessoais, que nos machucam, ou fazem
pouco caso das dificuldades das nossas vidas. Eu percebi isso desde cedo, mais
precisamente na minha infância/pré-adolescência, quando era difícil ser aceita
nos grupinhos sociais através de quem eu era. Essa fase pode ser um tempo
difícil para quem não se encaixa no padrão de “menininha bonitinha, de cabelo
liso que usa calça da De Mattos”. Isso numa escola pública lá pelo 5ª ano em
2005. Hoje, só muda a marca da calça.
Passar por essa fase foi difícil para
mim, e hoje, com meus 20 anos e nenhuma experiência, exceto a conclusão dessa
frieza das pessoas, eu tento aconselhar duas crianças que passam por essa mesma
etapa pedante e decisória para a construção de suas identidades. Uma dessas
crianças é meu irmão, o Guilherme, de 12 anos e autista.
É possível imaginar como é complicado
para uma criança autista superar essa fase da vida, já que para mim, que não
possuo esse problema cognitivo foi difícil, imagina pra ele. O Guilherme é
constantemente vítima de bullying na escola. Hoje ele está no 6ª ano e ainda é
hostilizado por preferir brincar com tampinhas de garrafas do que jogar
futebol. Por ser muito literal e não entender metáforas. Por ser tão peculiar,
gostar e saber de coisas como espécies de peixes, ele sabe mil tipos de
espécies de peixes. Eu me lembro de passar por essa fase de incompreensão, mas
de uma maneira tão dramática, enquanto ele, tendo mil e um motivos a mais para
se chatear, segue me dando todo dia uma lição de vida, sendo o menino doce e
amável que ele é, e me mostrando o quanto ele tem a me ensinar.
Outro dia, eu o questionei sobre como
ele se sentia depois de um episódio em que um coleguinha o xingou por que ele
não havia entendido como se joga queimado, ele me disse que não se importava, e
que eles não o entendiam, e ainda acrescentou que no fim da aula, ele e o
Eduardo -o coleguinha- jogaram Yugh Yoh. Eu ali, toda ressentida com o que
aconteceu, e ele completamente desapegado. Mas isso dói em mim, afinal, dizer
que as crianças são malvadas, é compreensível, até por que eles estão na fase
de construção de caráter, e não são culpados pelos valores que recebem da
família, mas ouvir de uma mãe dizer pra um colega dele: “Não chega perto
daquele guri, ele é louquinho”, é de cortar o coração, é de se desiludir com a
humanidade.
Embora a cada dia que passe eu tenha
mais certeza de como as pessoas são cruéis, ele me faz duvidar disso todo dia.
Embora eu saiba como o mundo afora é maldoso com quem é diferente, ele me
mostra autoconfiança e independência. E embora eu saiba que há centenas de outros
Guilhermes por ai, que talvez não tenham o devido apoio da família, ou não
consigam lidar com essas situações. O Guilherme -meu irmão-, autônomo,
confiante e nenhum pouco frágil é a minha preocupação egoísta de todo dia.
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