segunda-feira, 7 de julho de 2014

A importância da Literatura no Ensino Médio e as implicações do ENEM sobre a disciplina escolar

Reescrita
Por Aluno 43



O desaparecimento dos tradicionais vestibulares, que são portas de entrada para as universidades federais, e a substituição desses pelo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) têm provocado certa apreensão por parte de docentes de Literatura da educação secundária. A disciplina de Literatura não parece ter espaço especial no exame do MEC, pelo menos, não da maneira habitual. Tais questões levantam a reflexão sobre a importância e o futuro da disciplina literária no Ensino Médio, já que, na maioria dos colégios, essa fase escolar parece ser regida pelo desejo de aprovação imposto aos alunos nos exames das universidades. Que rumo tomará a Literatura na escola secundária frente às novas circunstâncias?







         Para a compreensão do tema, uma questão deve ser resolvida: Do que se trata a matéria de Literatura no Ensino Médio? Apenas o estudo de romances ou poemas de autores consagrados, ou também se inclui qualquer texto escrito, como receitas ou propagandas em revistas, já que eles também fazem parte da produção escrita do ser humano? O consagrado dicionário Houaiss apresenta o verbete literatura como, entre outros significados: “1. arte da utilização estética da linguagem, esp. a escrita; 2. Conjunto de obras literárias pertencentes a um país, época, etc. <l. brasileira>”.  Para o avanço da análise, se tomará aqui Literatura por estudo de tais textos apenas enquanto manifestações artísticas, abrangendo contos, romances, poemas, textos teatrais e até canções populares ou HQs. No Ensino Médio, no entanto, geralmente atribui-se à Literatura o segundo significado do verbete; estuda-se a literatura brasileira, e de um ponto de vista mais tradicional e diacrônico, apresentando ao aluno a divisão de escolas literárias que vão desde o Trovadorismo português ao Modernismo. Para a professora de português Andrea Miranda, educadora de um colégio particular da Zona Norte de Porto Alegre, o que importa para o aluno não é, em si, essa rígida forma de ensino, e sim o oferecimento de uma leitura específica, sobre a qual uma discussão e estudo deverá ser encaminhada pelo professor. No entanto, a docente afirma que “a Literatura, do jeito que é proposta no atual currículo, (com as escolas literárias e sendo relacionada ao momento político do país), é mais enriquecedora para o aluno. Ele sai com um conhecimento maior do que aquele que não vai ter contato com isso.” Ela explica: “O aluno que tem a presença da Literatura no Ensino Médio sabe relacionar as questões culturais, [...] aquele período literário da época, com a questão política, econômica e social, ou seja, com o momento que a sociedade vivia.” Dessa forma, mesmo que o atual sistema da disciplina escolar de Literatura possa ser criticado como “conservador”, ele gera (ou deveria gerar) um espírito crítico a respeito da historicidade de sua nação ou da própria sociedade. A partir das produções literárias estudadas, o aluno pode entender acerca das características artísticas apreciadas ao longo dos séculos e, mais que isso: compreender o pensamento coletivo de cada época, pois o autor do texto, por mais que tenha seus pensamentos individuais, sempre está inserido num contexto. Marisa Lajolo, autora de literatura juvenil, crítica literária e pesquisadora da USP, afirma em seu livro O que é Literatura (1982): “O mundo representado na literatura, simbólica ou realisticamente, nasce da experiência que o escritor tem de uma realidade histórica e social muito bem delimitada.” Dessa forma, o leitor do Ensino Médio pode conhecer ainda mais o mundo, vendo-o pela ótica do escritor. A Literatura nessa fase da escola básica, então, possui grande importância cultural e social.


         E onde entra o problema? Entendendo a disciplina literária como a apresentada anteriormente, analisa-se a prova do MEC, do qual apenas duas das dez maiores universidades federais do país não utilizam como forma de ingresso. Um artigo feito por diversos docentes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (entre eles, Luís Augusto Fischer e Gabriela Luft) intitulado “A Literatura no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)”, considera alguns dados alarmantes. Numa análise das provas do ENEM, desde sua criação (1998) até o ano de 2010, foi constatado que, de todas as 164 questões relacionadas à Literatura apresentadas até então (sendo considerado não apenas textos literários tradicionais como contos e poemas, mas também textos críticos, canções, HQs e outros), 80% podiam ser respondidas sem assistir a uma aula de Literatura. “Tradicionalmente, o que é cobrado no vestibular tende a ditar o programa de ensino das escolas, e o que não é cobrado acaba por desaparecer.”, afirmam os docentes. Sabe-se que, nos dias atuais, as escolas tendem a confundir o Ensino Médio com um período de preparação para o vestibular, (mesmo que em diferentes proporções, dependendo da instituição), numa prática quase mercadológica. Se for assim, a disciplina de Literatura como é atualmente conhecida pode perder cada vez mais espaço, pois possui pouco espaço no exame do MEC. Luis Augusto Fischer, numa reportagem da Zero Hora, fala sobre o que acredita ser a ideologia dominante do Ministério, “segundo a qual o livro e a tradição literária em sentido estrito não devem ser mais valorizadas do que a "leitura" de cartazes de rua, revista, enciclopédia, blogue, bula de remédio, panfleto político, etc.” Para ele, é um equívoco uma publicidade ser posta lado a lado com a mesma importância de um consagrado poema brasileiro, por exemplo, pois o que a prova propõe, principalmente, é a interpretação de texto.

         Pode-se dizer que outro ponto que se perde com o ENEM é a lista das leituras obrigatórias, coisa que o exame não apresenta. Os livros escolhidos pelas universidades tendiam a ser amplamente divulgados, muitos deles da literatura de cada região. Um triste exemplo é o da UFC, Universidade Federal do Ceará. Roderic Szasz, professor de Literatura em um colégio do Ceará, afirmou em uma entrevista ao Diário do Nordeste que, antes da adesão ao ENEM, a universidade cobrava em seu vestibular a leitura de uma lista de dez livros, entre os quais seis ou sete correspondiam a obras de escritores cearenses. Com a chegada do ENEM, as obras não são mais divulgadas como antes. Na mesma reportagem, o professor de Literatura Luciano Araújo fala que seus alunos até gostam de conhecer a literatura cearense, “mas não a valorizam tanto, pois não cai no ENEM”. Com isso, perde-se um forte incentivo à identidade literária de uma região. A professora Andrea comenta que, mesmo que sobre a influência da prova do MEC, o ensino tradicional de Literatura mude, não se deve deixar de falar a respeito de histórias tão marcantes para um povo: “Vamos deixar de ensinar as escolas literárias, de caracterizá-las, de falar sobre os momentos sociais, políticos e econômicos da época, mas não devemos deixar de falar das histórias, porque as histórias são a representação da humanidade, do povo com seus sonhos e desejos. O autor quer representar isso, ele não tira aquilo do nada.” A respeito das leituras obrigatórias do Ensino Médio (e sabemos que muitas delas destinam-se ao vestibular), ela comenta: “Pra mim é inconcebível pensar que o aluno vai sair da escola, do Ensino Médio, sem que um livro o tenha tocado, sem que um livro tenha feito a diferença.” Muitos livros das listas de leituras obrigatórias das universidades marcam aqueles que os lêem, ampliando seu senso crítico tanto a respeito da literatura como a respeito do mundo, além de conhecer a identidade literária da sua região. Se o Ensino Médio for destinado apenas ao ENEM, exame que visa mais a interpretação de textos e seus aspectos linguísticos, quantas leituras se farão nessa fase escolar?
         Andrea, no entanto, se mostra otimista a respeito do exame do MEC: “O ENEM já mudou muito desde sua ideia inicial. Ele vem progredindo e em algumas áreas já conseguiu acertar. [...] Na nossa área de Linguagem, realmente espero que a ideia não esteja completa. Eu entendo que as questões servem para nortear o conhecimento de interpretação de texto, mas tenho praticamente certeza que a prova mudará. A tendência é que ela se modifique e, da mesma forma que vem acontecendo em outras áreas, contemple conteúdos que são significativos. Talvez não pergunte a respeito de características árcades, por exemplo, mas certamente vai abordar alguma leitura. [...] A prova de Linguagem ainda está em experimentação. Eu vejo que já houve grandes mudanças desde o início da prova.” O Jornal O Globo, por exemplo, ouviu de professores, após a realização do ENEM 2013, que a prova ficara mais “conteudista”, apresentando mais conteúdo das diferentes áreas do Ensino Médio e menos interpretação pura.
         Em contrapartida às críticas negativas do ENEM, muitos acreditam que ele pareça ser a solução para o que antes era a “decoreba” dos exames de ingresso. Alguns outros comentários também são feitos contra os tradicionais vestibulares e, consequentemente, contra o tradicional ensino da literatura na escola secundária, alegando que ela ensina apenas uma “literatura branca de elite”. Sobre isso, Andrea afirma: “É óbvio que existe essa literatura de elite, que muitas vezes afasta o aluno do Ensino Médio da leitura, porque ele acha muito difícil ou acha o vocabulário muito apurado, e sente que não condiz com a realidade dele. Isso principalmente em relação aos alunos da escola pública, que muitas vezes possuem menos acesso à cultura do que os da escola privada, é uma verdade.” No entanto, a professora alega que a prova do ENEM possui espaço para tudo, tanto para abordar uma literatura mais clássica quanto para apresentar uma literatura mais popular ou juvenil. Ela exemplifica: “Quem sabe relacionar, por exemplo, uma obra da época do Romantismo com uma letra de música popular, que fale de amor da mesma maneira.” Também alega: “Temos excelentes autores gaúchos contemporâneos, que fazem uma literatura riquíssima, assim como outros autores brasileiros jovens que poderiam estar na lista do ENEM, tendo obras indicadas como leituras.” Para ela, então, há espaço tanto para literatura popular quanto clássica; não há desculpa para que a Literatura não tenha seu espaço na prova.

            Essa fase de tantas mudanças e, pode-se dizer, “turbulências” na tradicional matéria de Literatura do Ensino Médio, pode ser aproveitada de maneira positiva. Quem sabe, como disse a professora da Zona Norte de Porto Alegre, apresentar aos alunos leituras brasileiras mais próximas de sua realidade. No entanto, reduzir os textos literários ao patamar de qualquer texto escrito apenas para o teste de compreensão, como muitas vezes faz o ENEM, seria um erro. Se 18% da população brasileira é analfabeta funcional, como indicam os preocupantes dados do IBGE, tentar corrigir os problemas dos leitores através do exame não é uma solução, apenas um empobrecimento. Talvez, para muitos alunos, a Literatura no Ensino Médio seja o primeiro forte contato com a literatura em si; se a matéria obtiver seu espaço adequado no ENEM, não perderá sua influência na escola, o que, visto sua importância como formadora cultural, será recompensador para os alunos. Afinal, como afirmaram os doutores em Teoria e História Literária da UNICAMP, Luciano Cavalcanti e Cilene Pereira: “Uma das necessidades fundamentais do homem é dar sentido ao mundo e a si mesmo, e a literatura permanece como veículo primordial para esse diálogo.”

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