segunda-feira, 7 de julho de 2014

Literatura? Grande coisa.

1ª Versão
Por Aluno 12


Não é incomum, quando se é uma aluna de ensino médio, ouvir (e também dizer) diversas vezes a mesma coisa: mas para quê eu vou usar isso na minha vida? Sempre há pelo menos uma matéria que pode deixar um aluno olhando para as página em branco do seu caderno, questionando-o silenciosamente: “por que eu preciso saber isso?”. Essa tal matéria que parece ser apenas um peso a mais na mochila, uma nota a mais pra atingir a média no boletim do final do ano, pode ser qualquer uma, variando de pessoa para pessoa; era assim que eu – que acabei cursando Letras na faculdade – via Física e Matemática, enquanto ouvia os colegas dizerem com descaso: “ah, é só Literatura, grande coisa”, ou pior, com exasperação “não gosto de ler”.
             Pronto, assim está cristalizada a visão de literatura como sendo a matéria de colégio e o gostar-de-ler resumido às experiências com as obras geralmente são exigidas pelo currículo escolar. Essa visão tão estreita e restrita pode ser uma pedrinha no sapato de uma estudante de Letras que tem a literatura como objeto de estudo e trabalho, e portanto, como uma fatia considerável da vida no que se refere à tão estimada “utilidade”.  Uma grande coisa, sim, sem o tom irônico com o qual essa expressão é geralmente empregada.
            É possível verificar que a experiência de muitas pessoas com a leitura de obras literárias começa no colégio, que muitas vezes acabam não sendo parte da esfera de conhecimentos do aluno, seja conhecimento de mundo, linguístico, textual, etc. É compreensível que um texto localizado fora do contexto do leitor não atraia o interesse, mas é igualmente possível que se estenda a experiência para outras obras que, às vezes por motivos sociais, podem trazer significado à leitura, tornando aquela literatura algo relevante para a vida de quem lê. É o que sustenta uma aluna do primeiro semestre de Engenharia Elétrica na PUCRS, de 17 anos, em uma entrevista. A estudante narra que seu primeiro contato com a literatura foi na escola, e que na maioria das vezes, acabava não lendo o que era solicitado; porém, ao ser apresentada a um livro mais próximo de sua realidade, que circulava em sua esfera social, fez a descoberta inédita para sí de que a leitura poderia ser agradável. “E foi naquele ano que pedi de natal um livro, para espanto da familia.”, conta.
            Outro fator que pode ser determinante no que se refere à “utilidade” da literatura na vida das pessoas é o emocional. Literatura é também uma arte e um meio de entretenimento – e geralmente é esse o aspecto mais lembrado quando se fala em livros. Os que clamam que “não gostam de ler” muitas vezes se referem a livros específicos, que lhes foram apresentados em determinados contextos, mas podem acabar encontrando obras que lhes sejam mais atraentes, e usando-os como forma de se divertir. Por ser também entretenimento, a literatura acaba sendo considerada menos “útil”, mas não deve-se esquecer o fator de que se divertir não é uma necessidade irrelevante. Esse aspecto é ressaltado pela entrevistada, que define a literatura como um meio de se esquecer dos problemas e viver emoções que são reais para o leitor, ao mesmo tempo que são ficção; ela diz que é importante ter um refúgio do real, do normal.
            Visto isso, pode-se dizer que ler literatura consiste, mesmo para quem não trabalha com essa área, na apreensão de conhecimentos que podem ser tanto bibliográficos (como as ideias sobre política, a economia, a organização da sociedade no momento em que o livro foi escrito), quanto também em uma esfera mais “humana”, da diversão, da emoção. A leitura de obras que exigem a imaginação e a atenção para se colocar no lugar do autor, de entender as razões e as ideias que levaram um livro a ser do jeito que é, pode ser um importante exercício de análise e compreensão do ponto de vista de outros, e portanto, pode auxiliar a formação do leitor como pessoa. Entender e pensar a partir da visão do outro, que pode ser completamente diferente de sí, pode ser grande coisa.

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