1ª
Versão
Por Aluno 12
Não
é incomum, quando se é uma aluna de ensino médio, ouvir (e também dizer)
diversas vezes a mesma coisa: mas para quê eu vou usar isso na minha vida?
Sempre há pelo menos uma matéria que pode deixar um aluno olhando para as página
em branco do seu caderno, questionando-o silenciosamente: “por que eu preciso
saber isso?”. Essa tal matéria que parece ser apenas um peso a mais na mochila,
uma nota a mais pra atingir a média no boletim do final do ano, pode ser
qualquer uma, variando de pessoa para pessoa; era assim que eu – que acabei
cursando Letras na faculdade – via Física e Matemática, enquanto ouvia os
colegas dizerem com descaso: “ah, é só Literatura, grande coisa”, ou pior, com
exasperação “não gosto de ler”.
Pronto, assim está cristalizada a
visão de literatura como sendo a matéria de colégio e o gostar-de-ler resumido
às experiências com as obras geralmente são exigidas pelo currículo escolar.
Essa visão tão estreita e restrita pode ser uma pedrinha no sapato de uma
estudante de Letras que tem a literatura como objeto de estudo e trabalho, e
portanto, como uma fatia considerável da vida no que se refere à tão estimada
“utilidade”. Uma grande coisa, sim, sem
o tom irônico com o qual essa expressão é geralmente empregada.
É possível verificar que a
experiência de muitas pessoas com a leitura de obras literárias começa no
colégio, que muitas vezes acabam não sendo parte da esfera de conhecimentos do
aluno, seja conhecimento de mundo, linguístico, textual, etc. É compreensível
que um texto localizado fora do contexto do leitor não atraia o interesse, mas
é igualmente possível que se estenda a experiência para outras obras que, às
vezes por motivos sociais, podem trazer significado à leitura, tornando aquela
literatura algo relevante para a vida de quem lê. É o que sustenta uma aluna do
primeiro semestre de Engenharia Elétrica na PUCRS, de 17 anos, em uma
entrevista. A estudante narra que seu primeiro contato com a literatura foi na
escola, e que na maioria das vezes, acabava não lendo o que era solicitado;
porém, ao ser apresentada a um livro mais próximo de sua realidade, que
circulava em sua esfera social, fez a descoberta inédita para sí de que a
leitura poderia ser agradável. “E foi naquele ano que pedi de natal um livro,
para espanto da familia.”, conta.
Outro fator que pode ser
determinante no que se refere à “utilidade” da literatura na vida das pessoas é
o emocional. Literatura é também uma arte e um meio de entretenimento – e
geralmente é esse o aspecto mais lembrado quando se fala em livros. Os que
clamam que “não gostam de ler” muitas vezes se referem a livros específicos,
que lhes foram apresentados em determinados contextos, mas podem acabar
encontrando obras que lhes sejam mais atraentes, e usando-os como forma de se
divertir. Por ser também entretenimento, a literatura acaba sendo considerada
menos “útil”, mas não deve-se esquecer o fator de que se divertir não é uma
necessidade irrelevante. Esse aspecto é ressaltado pela entrevistada, que
define a literatura como um meio de se esquecer dos problemas e viver emoções
que são reais para o leitor, ao mesmo tempo que são ficção; ela diz que é
importante ter um refúgio do real, do normal.
Visto isso, pode-se dizer que ler
literatura consiste, mesmo para quem não trabalha com essa área, na apreensão
de conhecimentos que podem ser tanto bibliográficos (como as ideias sobre
política, a economia, a organização da sociedade no momento em que o livro foi
escrito), quanto também em uma esfera mais “humana”, da diversão, da emoção. A
leitura de obras que exigem a imaginação e a atenção para se colocar no lugar
do autor, de entender as razões e as ideias que levaram um livro a ser do jeito
que é, pode ser um importante exercício de análise e compreensão do ponto de vista
de outros, e portanto, pode auxiliar a formação do leitor como pessoa. Entender
e pensar a partir da visão do outro, que pode ser completamente diferente de
sí, pode ser grande coisa.
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