segunda-feira, 7 de julho de 2014

Literatura? Grande coisa.



Reescrita
Por Aluno 12



Pesquisa realizada pela Ipsos, empresa mundial de pesquisa e inteligência de mercado, revela que apenas 17% dos estudantes entre seis e nove anos tem Literatura/Português como sua matéria preferida. Mesmo que estes dados tenham sido observados em um restrito grupo cujos estudantes são ainda muito novos, não é incomum observar que o padrão se repete em séries mais avançadas e  até no Ensino Médio. Parece e que o interesse em literatura por parte de muitos estudantes se baseia nas experiências com as obras que geralmente são exigidas pelo currículo escolar. Isso pode levá-los a concluir, muitas vezes, que “não gostam de ler” ou que a literatura não tem sentido para eles, por não fazer parte de suas realidades. Teria a literatura, então, uma utilidade para quem não trabalha especificamente nesta área do conhecimento?
“Posso dizer que foi com os livros infantis dos primeiros anos de escola. Ou até mesmo nas leituras obrigatórias, as quais eu nunca lia.” conta a entrevistada K.B., aluna de 17 anos do primeiro semestre de Engenharia Elétrica na PUCRS, quando questionada sobre sua experiência incial com leitura. É possível verificar que muitas pessoas  tiveram seu primeiro contato com obras literárias no colégio, e que estas muitas vezes acabam não sendo parte da esfera de conhecimentos do aluno, seja conhecimento de mundo, linguístico, textual, etc.
É compreensível que um texto localizado fora do contexto do leitor não atraia o interesse, mas é igualmente possível que se estenda a experiência para outras obras que, às vezes por motivos sociais, podem trazer significado à leitura, tornando aquela literatura algo relevante para a vida de quem lê. A entrevistada, K.B., conta que apenas começou a gostar de literatura ao ser apresentada a um livro mais próximo de sua realidade, que circulava em sua esfera social. Ela fez a descoberta inédita para si de que a leitura poderia ser agradável: “E foi naquele ano que pedi de natal um livro, para espanto da família.”, ela narra.
Literatura é também uma arte e um meio de entretenimento – e geralmente é esse o aspecto mais lembrado quando se fala em livros. Os que clamam que “não gostam de ler” muitas vezes se referem a livros específicos, que lhes foram apresentados em determinados contextos, mas essas pessoas podem acabar encontrando obras que lhes sejam mais atraentes, e usando-os como forma de se divertir. O entretenimento pode ser considerado uma das principais “utilidades” da literatura, como afirma o professor Vincent Jouve, doutor em Literatura Francesa pela l’Université Paris III e professor da Université de Reims Champagne-Ardenne, em uma entrevista para a revista Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio: “A especificidade da literatura, se existir, deve ser procurada nesse equilíbrio precário entre discurso sobre o mundo e objeto de prazer.” (2010; 214).
Jouve também ressalta outros aspectos pelos quais a literatura pode ser considerada útil – como por exemplo, auxiliar na forma como compreendemos o mundo real à nossa volta: “Isso pode acontecer pelo conteúdo (a ficção abre possibilidades que nos levam a reavaliar o mundo onde vivemos) como pela forma (a literatura nos confronta com um uso simbólico da linguagem que burila nossas capacidades de discernimento).”(2010; 215). O autor diz que a leitura, por meio da ficção, pode trazer um momento de abertura de espírito onde se aceita o impossível. Esse aspecto também foi mencionado por K.B., a estudante entrevistada, que define a literatura como um meio de se esquecer dos problemas e viver emoções que são reais para o leitor, ao mesmo tempo que são ficção; ela diz que é importante ter um refúgio do real, do normal.
               Visto isso, pode-se dizer que ler literatura consiste, mesmo para quem não trabalha com essa área, na apreensão de conhecimentos que podem ser tanto bibliográficos (como as ideias sobre política, a economia, a organização da sociedade no momento em que o livro foi escrito), quanto também em uma esfera mais “humana”, da diversão, da emoção. A leitura de obras que exigem a imaginação e a atenção para se colocar no lugar do autor, de entender as razões e as ideias que levaram um livro a ser do jeito que é, pode ser um importante exercício de análise e compreensão do ponto de vista de outros, e portanto, pode auxiliar a formação do leitor como pessoa.


Referências:
Site , Pesquisa da Ipsos revela que matemática é a matéria favorita dos alunos brasileiros; último acesso em 28 de junho 2014


Site Entrevista com Vincent Jouve, autor de A leitura, último acesso em 28 de junho de 2014

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