Entenda a variação do português
brasileiro na fala, na escrita e na sociedade.
Reescrita
Por Aluno 1
A língua
está diretamente relacionada com a sociedade, e não são recentes as pesquisas
relacionadas a esse fato. Temos, entretanto, um marco relevante a elas: em 1972
o linguista William Labov publicou o livro Padrões
Sociolinguísticos, no qual ele defende que “as pressões sociais estão
operando continuamente sobre a língua” (LABOV, 2008, p. 21). Foi provado por
ele, empiricamente, que contexto social ao qual o falante está inserido
influencia na forma como ele fala. Isso mudou a concepção de língua, que até
antes era tida como interiorizada ao ser humano, e não como um fato social. De
acordo com essa ideia, fica a pergunta: se a sociedade muda, logo, as pressões
exercidas por ela sobre a língua, também mudam. Então, como se pode tentar
estabelecer o padrão para algo mutável?
Esse padrão estabelecido é a chamada
língua “culta” que é ensinada na escola e encontramos em gramáticas normativas,
as quais prescrevem as normas dessa língua. Há, entretanto, as gramáticas
descritivas, que, como o próprio nome diz, descrevem a língua – e não
prescrevem – falada atualmente, sem imposição de normas. Uma vez que se tem
noção da existência destas “duas” línguas, podemos analisá-las, primeiramente,
através da identificação de qual delas os falantes do PB consideram como a que
usam diariamente; depois entender porque há tanta diferença entre essa e a dita
“padrão”.
Para chegarmos a uma conclusão,
conversamos com dois falantes do PB. O entrevistado 1 tem Ensino Superior
completo, portanto, considerado culto, enquanto, o entrevistado 2 tem apenas o
Ensino Médio completo, e ainda não ingressou no Superior. Foi mostrado a ambos
uma transcrição, na qual há marcas de diálogo: pausas, descontinuidade e um
estabelecimento de relação entre o falante e o ouvinte, como o “né”. Eles
também leram um trecho d’O Guarani,
de José de Alencar. Após a leitura, identificaram a língua que utilizam no
cotidiano: os dois entrevistados reconheceram a transcrição como tal.
A partir dessa identificação, podemos
perceber, claramente, que os falantes do PB, mesmo os cultos, não reconhecem
mais a linguagem utilizada por José de Alencar como padrão, embora, essa ainda
seja considerada assim. Vale ressaltar, sobretudo, que Alencar é usado pelas
gramáticas normativas, como a Nova
Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra.
Contudo, a linguagem de O Guarani já
caiu em desuso, e se é ainda usado, é apenas em situações formais, como ao
dirigir-se a uma autoridade.
O pronome de tratamento “vós” é um exemplo de vocabulário que
hoje já não é mais falado ou escrito casualmente pelas pessoas. Os entrevistados,
ao serem interrogados sobre como reagiriam ao pronome vós, responderam que seria uma reação de estranhamento “pelo fato
de o ‘vós’ ser um pronome de tratamento hoje tão incomum” e “não ser muito utilizado atualmente”. E que o uso dele se
daria apenas “por imposição de alguma norma protocolar ou, num
sentido oposto, por ironia”. Além disso,
percebemos que o pronome não se tornou apenas raro, mas, também, ganhou outro
significado no cotidiano, como a ironia.
Contudo, há uma diferença entre a língua escrita e a
falada. O entrevistado 2 afirma sobre o texto de Alencar que “foi agradável de ler, mesmo sendo com uma linguagem
mais antiga e de certo modo, complicada, ao ser comparada com a maneira como
falamos hoje”; sobre a transcrição: “mesmo sendo composto por uma linguagem
mais atual, causou um certo desconforto por não ter continuidade e ter vários
tópicos misturados”.
Poderíamos dizer, então,
que escrever na forma como falamos não é tão agradável para leitura quanto a
norma padrão. Todavia, precisamos definir o tipo de leitura que será realizada.
Em conversas via redes sociais, usamos uma linguagem informal, mas ela,
entretanto, não é escrita exatamente da forma como falamos, como em uma
transcrição; em livros e traduções mais recentes, é perceptível a substituições
de pronomes de tratamento como “tu” e “vós”, que exigem uma conjugação verbal
diferenciada por “você” e “vocês”, que não exigem essa conjugação.
Já o entrevistado 1 tem
uma opinião contrastante com a do entrevistado 2, ele diz a respeito da
preferência por ler/ouvir textos como a transcrição e O Guarani: “Não se trata propriamente de uma preferência. A
linguagem do texto 2 (transcrição), por ser mais cotidiana, é consequentemente
mais fácil de ser lida/ouvida e entendida. Pode-se dizer que a leitura e o
entendimento “fluem melhor”. Contudo, meu interesse acaba sendo definido pela
temática e não pela forma”.
Tivemos definido a
importância do tipo de leitura a ser feito, e agora, também temos o assunto do
texto. Isto é, se perguntar o que se está buscando naquele texto. De acordo com
a resposta, buscar-se-á por uma leitura que lhe traga a resposta condizente.
Para exemplificar, pensemos que se está procurando por uma análise de um
clássico literário, é provável que vá encontrá-lo em um artigo. Neste caso,
temos um gênero textual que exige o uso da língua padrão.
Dessa forma, entraríamos
em uma análise complexa da língua escrita: há diversas formas que ela pode se
comportar dentro de um texto, de acordo com diversos fatores, como: o leitor; o
objetivo do texto (entretenimento, informação, etc.); o lugar em que será
publicado (revista cientifica, jornal, em livro, etc.) e o que está sendo
relatado (notícia, ficção, etc.). Em cada situação encontraremos diferentes
manifestações da língua. Portanto, se levarmos em consideração essas
interpretações, o valor da transcrição, se cumprir devidamente a sua função,
que é manter o texto escrito igual ao oral, igualar-se-ia ao texto de Alencar.
Concluímos que, para a
língua escrita é necessário definir textos por gênero, tipo de leitura e
assunto, e que, de acordo com a escolha o recurso de formalidade ou
informalidade serão variáveis no texto. Por outro lado, na língua falada,
também definimos a formalidade e informalidade de acordo com o contexto: com
quem estamos falando e onde estamos falando.
Este é um ponto crucial
para a língua: a sociedade. Pode-se perceber o quanto a língua se molda por
fatores externos, tanto para a escrita quanto para a fala. Nota-se que, por
exemplo, na igualdade de valor entre a transcrição e O Guarani, o quanto eles são definidos pelo externo: por que se
escreve e para quem se escreve. Porque, afinal, a língua é um instrumento social
e é utilizado para e por ela.
De fato, a língua é uma peça
fundamental da sociedade atual. Todas as novas tecnologias, as propagandas e a
globalização deram abertura para novas palavras, como o verbo tuitar, derivado
do site Twitter. Estas são as pressões que ocorrem sobre a língua, como disse
Labov. Nesse caso, é explícito que a língua é um fenômeno variável.
O entrevistado 1 observa
que “a
língua é uma expressão cultural historicamente construída e socialmente
condicionada. Sendo assim, o valor social das diferentes variedades da língua
portuguesa dependem do contexto em que elas foram ou são verificadas”, e
completa “um dos possíveis valores sociais das diferentes variedades da língua
portuguesa, em minha opinião, reside nas formas em que ela foge do padrão
culto”. A língua, portanto, é condicionada (aos usuários) e só pode ser medida
com diferentes valores se houver parâmetros para comparação. Deveríamos pensar,
então, em quando esse parâmetro foi estabelecido e por que foi escolhido como
tal.
De certa forma o nosso português
gramaticalmente correto seria a herança do português de Portugal, contudo, há
muito as duas línguas se separaram, e uma não poderia mais servir de parâmetro
a outra. E, às vezes, os próprios falantes acabam por nem aceitarem que o PB é
independente e que nele há, inclusive, diversas variações. Assim, essas
variações tornam-se uma forma de distinção de classes. A maneira de falar faz
perceptível a escolaridade da pessoa, por exemplo. Os entrevistados leram
trechos descontextualizados, onde o único recurso de entendimento era a
linguagem, para o entrevistado 2 foi perceptível uma diferença de comportamento
social apenas através da linguagem.
Sobre O Guarani, ele diz que parece
ser uma conversa entre dois intelectuais, enquanto na transcrição parece que os falantes
não estão muito preocupados com a vida, mas sim com o lazer.
Levando
em conta que os dois modelos de texto expostos aos entrevistados são de gêneros
diferentes, podemos compreender que a língua escrita seria formal e restrita
aos cultos, enquanto a falada seria informal e de domínio público? Não. Vimos
que a língua não é algo descontextualizado e que não é ela que faz o falante, e
sim o contrário. Somos nós, usuários dela que devemos nos adaptar as formas em
que ela se manifesta: seja na oralidade, seja na escrita.
Podemos
concluir que as variações são intrínsecas à língua e que não está a alcance das
pessoas o seu domínio. É inevitável que a língua mude, pois a sociedade muda, e
tentar padronizá-la seria o mesmo que matá-la, pois quando ela se estabelecer,
significa que aquela cultura também se estabeleceu. É uma necessidade da língua
a mudança, assim, não podemos ditar que há um certo ou errado, o que existe são
circunstâncias sociais nas quais há diferentes maneiras de usar a língua.
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