sábado, 5 de julho de 2014

Você conhece a sua língua?

Entenda a variação do português brasileiro na fala, na escrita e na sociedade.

Reescrita
Por Aluno 1


        A língua está diretamente relacionada com a sociedade, e não são recentes as pesquisas relacionadas a esse fato. Temos, entretanto, um marco relevante a elas: em 1972 o linguista William Labov publicou o livro Padrões Sociolinguísticos, no qual ele defende que “as pressões sociais estão operando continuamente sobre a língua” (LABOV, 2008, p. 21). Foi provado por ele, empiricamente, que contexto social ao qual o falante está inserido influencia na forma como ele fala. Isso mudou a concepção de língua, que até antes era tida como interiorizada ao ser humano, e não como um fato social. De acordo com essa ideia, fica a pergunta: se a sociedade muda, logo, as pressões exercidas por ela sobre a língua, também mudam. Então, como se pode tentar estabelecer o padrão para algo mutável?
Esse padrão estabelecido é a chamada língua “culta” que é ensinada na escola e encontramos em gramáticas normativas, as quais prescrevem as normas dessa língua. Há, entretanto, as gramáticas descritivas, que, como o próprio nome diz, descrevem a língua – e não prescrevem – falada atualmente, sem imposição de normas. Uma vez que se tem noção da existência destas “duas” línguas, podemos analisá-las, primeiramente, através da identificação de qual delas os falantes do PB consideram como a que usam diariamente; depois entender porque há tanta diferença entre essa e a dita “padrão”.
Para chegarmos a uma conclusão, conversamos com dois falantes do PB. O entrevistado 1 tem Ensino Superior completo, portanto, considerado culto, enquanto, o entrevistado 2 tem apenas o Ensino Médio completo, e ainda não ingressou no Superior. Foi mostrado a ambos uma transcrição, na qual há marcas de diálogo: pausas, descontinuidade e um estabelecimento de relação entre o falante e o ouvinte, como o “né”. Eles também leram um trecho d’O Guarani, de José de Alencar. Após a leitura, identificaram a língua que utilizam no cotidiano: os dois entrevistados reconheceram a transcrição como tal.
         A partir dessa identificação, podemos perceber, claramente, que os falantes do PB, mesmo os cultos, não reconhecem mais a linguagem utilizada por José de Alencar como padrão, embora, essa ainda seja considerada assim. Vale ressaltar, sobretudo, que Alencar é usado pelas gramáticas normativas, como a Nova Gramática do Português Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra. Contudo, a linguagem de O Guarani já caiu em desuso, e se é ainda usado, é apenas em situações formais, como ao dirigir-se a uma autoridade.
O pronome de tratamento “vós” é um exemplo de vocabulário que hoje já não é mais falado ou escrito casualmente pelas pessoas. Os entrevistados, ao serem interrogados sobre como reagiriam ao pronome vós, responderam que seria uma reação de estranhamento “pelo fato de o ‘vós’ ser um pronome de tratamento hoje tão incomum” e “não ser muito utilizado atualmente”. E que o uso dele se daria apenas “por imposição de alguma norma protocolar ou, num sentido oposto, por ironia”.  Além disso, percebemos que o pronome não se tornou apenas raro, mas, também, ganhou outro significado no cotidiano, como a ironia.
Contudo, há uma diferença entre a língua escrita e a falada. O entrevistado 2 afirma sobre o texto de Alencar que “foi agradável de ler, mesmo sendo com uma linguagem mais antiga e de certo modo, complicada, ao ser comparada com a maneira como falamos hoje”; sobre a transcrição: “mesmo sendo composto por uma linguagem mais atual, causou um certo desconforto por não ter continuidade e ter vários tópicos misturados”.

Poderíamos dizer, então, que escrever na forma como falamos não é tão agradável para leitura quanto a norma padrão. Todavia, precisamos definir o tipo de leitura que será realizada. Em conversas via redes sociais, usamos uma linguagem informal, mas ela, entretanto, não é escrita exatamente da forma como falamos, como em uma transcrição; em livros e traduções mais recentes, é perceptível a substituições de pronomes de tratamento como “tu” e “vós”, que exigem uma conjugação verbal diferenciada por “você” e “vocês”, que não exigem essa conjugação.
Já o entrevistado 1 tem uma opinião contrastante com a do entrevistado 2, ele diz a respeito da preferência por ler/ouvir textos como a transcrição e O Guarani: “Não se trata propriamente de uma preferência. A linguagem do texto 2 (transcrição), por ser mais cotidiana, é consequentemente mais fácil de ser lida/ouvida e entendida. Pode-se dizer que a leitura e o entendimento “fluem melhor”. Contudo, meu interesse acaba sendo definido pela temática e não pela forma”.
Tivemos definido a importância do tipo de leitura a ser feito, e agora, também temos o assunto do texto. Isto é, se perguntar o que se está buscando naquele texto. De acordo com a resposta, buscar-se-á por uma leitura que lhe traga a resposta condizente. Para exemplificar, pensemos que se está procurando por uma análise de um clássico literário, é provável que vá encontrá-lo em um artigo. Neste caso, temos um gênero textual que exige o uso da língua padrão.
Dessa forma, entraríamos em uma análise complexa da língua escrita: há diversas formas que ela pode se comportar dentro de um texto, de acordo com diversos fatores, como: o leitor; o objetivo do texto (entretenimento, informação, etc.); o lugar em que será publicado (revista cientifica, jornal, em livro, etc.) e o que está sendo relatado (notícia, ficção, etc.). Em cada situação encontraremos diferentes manifestações da língua. Portanto, se levarmos em consideração essas interpretações, o valor da transcrição, se cumprir devidamente a sua função, que é manter o texto escrito igual ao oral, igualar-se-ia ao texto de Alencar.
Concluímos que, para a língua escrita é necessário definir textos por gênero, tipo de leitura e assunto, e que, de acordo com a escolha o recurso de formalidade ou informalidade serão variáveis no texto. Por outro lado, na língua falada, também definimos a formalidade e informalidade de acordo com o contexto: com quem estamos falando e onde estamos falando.
Este é um ponto crucial para a língua: a sociedade. Pode-se perceber o quanto a língua se molda por fatores externos, tanto para a escrita quanto para a fala. Nota-se que, por exemplo, na igualdade de valor entre a transcrição e O Guarani, o quanto eles são definidos pelo externo: por que se escreve e para quem se escreve. Porque, afinal, a língua é um instrumento social e é utilizado para e por ela.
De fato, a língua é uma peça fundamental da sociedade atual. Todas as novas tecnologias, as propagandas e a globalização deram abertura para novas palavras, como o verbo tuitar, derivado do site Twitter. Estas são as pressões que ocorrem sobre a língua, como disse Labov. Nesse caso, é explícito que a língua é um fenômeno variável.
O entrevistado 1 observa que “a língua é uma expressão cultural historicamente construída e socialmente condicionada. Sendo assim, o valor social das diferentes variedades da língua portuguesa dependem do contexto em que elas foram ou são verificadas”, e completa “um dos possíveis valores sociais das diferentes variedades da língua portuguesa, em minha opinião, reside nas formas em que ela foge do padrão culto”. A língua, portanto, é condicionada (aos usuários) e só pode ser medida com diferentes valores se houver parâmetros para comparação. Deveríamos pensar, então, em quando esse parâmetro foi estabelecido e por que foi escolhido como tal.
De certa forma o nosso português gramaticalmente correto seria a herança do português de Portugal, contudo, há muito as duas línguas se separaram, e uma não poderia mais servir de parâmetro a outra. E, às vezes, os próprios falantes acabam por nem aceitarem que o PB é independente e que nele há, inclusive, diversas variações. Assim, essas variações tornam-se uma forma de distinção de classes. A maneira de falar faz perceptível a escolaridade da pessoa, por exemplo. Os entrevistados leram trechos descontextualizados, onde o único recurso de entendimento era a linguagem, para o entrevistado 2 foi perceptível uma diferença de comportamento social  apenas através da linguagem. Sobre O Guarani, ele diz que parece ser uma conversa entre dois intelectuais, enquanto na transcrição parece que os falantes não estão muito preocupados com a vida, mas sim com o lazer. 
Levando em conta que os dois modelos de texto expostos aos entrevistados são de gêneros diferentes, podemos compreender que a língua escrita seria formal e restrita aos cultos, enquanto a falada seria informal e de domínio público? Não. Vimos que a língua não é algo descontextualizado e que não é ela que faz o falante, e sim o contrário. Somos nós, usuários dela que devemos nos adaptar as formas em que ela se manifesta: seja na oralidade, seja na escrita.  
Podemos concluir que as variações são intrínsecas à língua e que não está a alcance das pessoas o seu domínio. É inevitável que a língua mude, pois a sociedade muda, e tentar padronizá-la seria o mesmo que matá-la, pois quando ela se estabelecer, significa que aquela cultura também se estabeleceu. É uma necessidade da língua a mudança, assim, não podemos ditar que há um certo ou errado, o que existe são circunstâncias sociais nas quais há diferentes maneiras de usar a língua.



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