sexta-feira, 4 de julho de 2014

Literaturando-se para um outro universo: um espetáculo para compreender a vida

 Reescrita
Por Aluno 34


            A Literatura é um meio capaz de fazer com que, por meio de personagens e enredos fictícios, o leitor consiga realizar uma espécie de “fuga” do meio no qual está inserido, para poder compreender, então, a sua própria realidade. Independente do contexto histórico e social em que foi escrita uma obra, esta possui um impacto extremo na sociedade atual, e auxilia o indivíduo a compreender o seu interior, interpretar o meio em que vive. Tal fato pode ser comprovado no fato de que, numa sociedade, observam-se diferentes raças e caricaturas humanas apaixonadas pelo hábito de ler, ou seja, não é necessário trabalhar profissionalmente com a área de Letras para estar ciente de toda a importância universal que a Literatura fornece. O que realmente vale é compreender e saber que, dentro de um bom livro, pode existir uma história que nos alimente um aspecto crítico e, mutuamente, sentimental.
            Primeiramente, ao estabelecer uma conversa com a professora Silvana, a qual é especialista em Literatura Brasileira, espera-se que a mesma tenha, por puro hábito e prazer, um livro para apreciar em seus momentos de trabalho e também de lazer. Por outro lado, foi feito contato com uma trabalhadora do meio jurídico, Neida, que é Servidora de Justiça Estadual. Esta também é apaixonada por Literatura, porém a usufrui apenas em seus momentos de lazer, mesmo tendo uma profissão em meio ao ramo do Direito que exige leitura de outros tipos de textos.
              Dentre as perguntas que foram questionadas, Silvana e Neida contaram como foram os seus primeiros contatos com os livros - através de uma pessoa, um momento, um texto - e o que as fez adquirir intenso carinho pelas palavras e histórias. Descobriu-se que ambas as entrevistadas tiveram fortes influências e contato com os livros quando crianças e através de pessoas adultas que as incentivaram. Silvana começou a ler os contos de fadas em livros que eram do seu próprio pai, enquanto Neida encantava-se com uma pequena biblioteca que existia na escola de Jardim de Infância em que estudou. A sua professora trazia os livros do pequeno local, onde nenhum aluno podia frequentar, despertando intensa curiosidade em Neida. Silvana também teve intimidade com a Literatura na oralidade, com a sua avó paterna, quando ia até à casa da mesma, afirmando que foi lá onde passou os momentos mais intensos e inesquecíveis de sua infância. Como Silvana disse em sua entrevista:

“Eram histórias de anjos (e ela jura até hoje que brincou com um deles), de santas católicas e das suas estripulias que fazia quando era criança. Até hoje, quando vou visitá-la, peço a ela que relate a minhas filhas algumas destas inesquecíveis narrativas, cheias de detalhes que faziam com que eu viajasse através da minha imaginação. Não é à toa que me apaixonei pela Literatura e segui minha vida profissional, paixão esta que foi confirmada durante a graduação e a pós-graduação, influenciada pelos professores maravilhosos que tive. Assim, meu amor pela literatura foi e continua sendo gradativamente incorporado dentro de mim, de tal forma, que minhas duas filhas também, sem nenhuma pressão, são apaixonadas por esta arte”.


             As duas pessoas entrevistadas também acreditam no poder da Literatura como uma forma de compreensão de sua realidade e, ao mesmo tempo, uma espécie de “escape” para conseguir entender a mesma. A Especialista em Literatura Brasileira afirma que as pessoas ainda conseguem buscar em meio aos livros suas alegrias e angústias, a resolução de seus problemas e conflitos sociais para entender um todo e a si mesmo também. Isso, de fato, consegue ser comprovado quando se vê pessoas que leem para relaxar; se esquecer de seus conflitos pessoais e tudo que as aflige, bem como a Literatura também faz companhia a alguém em momentos de solidão. Os livros possuem a incrível capacidade de compreensão humana, conseguindo, por meio de uma história de ficção, conversar com o próprio interior do leitor, fazendo com que o mesmo identifique-se com toda aquela narrativa em que está mergulhado. Não é de menos que, ao passar a última página de um livro maravilhoso, o indivíduo sente-se satisfeito e completo: não está sozinho - está junto ao seu livro, seu grande amigo.            Silvana, que tem uma vida dedicada ao trabalho com adolescentes, usa os valores que aprendeu com a Literatura para poder compreendê-los melhor e auxiliá-los para que encontrem a resposta de seus problemas. Neida acredita no poder da Literatura como formador de conhecimento e senso crítico do indivíduo, para que ele a use como uma espécie de refúgio quando não consegue interpretar a sua própria realidade, e assim poder enfrentar os seus medos e frustrações:

“A partir do momento em que inicia um novo livro, o leitor se depara com uma história a qual não é o protagonista, que não lhe pertence, onde pode identificar-se com diversas personagens – vivendo, assim, em dois mundos: o seu e o do livro que lê. Esse “choque de realidade” é importante para que a pessoa entenda que a sua vida não é como nos livros”.

Além disso, quanto a uma importância vista de forma mais coletiva em Literatura, as entrevistadas concordam e creem no poder de um povo e uma nação conseguirem compreender o meio no qual estão inseridos, isso quer dizer, através dos livros, analisarem a história que está presente no momento em sua vida. Contudo, essa espécie de facilidade de enxergar a sua realidade por meio da leitura só é conquistada se o hábito de ler se torne um prazer, em que o indivíduo seja motivado ao contato com a leitura sem ser de forma obrigatória. Caso seja relembrado como Silvana e Neida se apaixonaram pela Literatura, é percebido que existiu uma inspiração de pessoas fascinadas por histórias que as incentivaram; todavia, a busca e o interesse – ter curiosidade de conhecer a biblioteca do colégio, conforme Neida, ou querer escutar as histórias da avó de Silvana – partiram das duas mulheres ainda quando crianças.
            Por fim, a última pergunta era com qual clássico as entrevistadas mais se identificavam e qual o motivo de uma importância singular em suas vidas, que promove comoção, análise crítica e reflexão. Neida mencionou dois livros, que leu pela primeira vez quando mais jovem, O Menino no Espelho, de Fernando Sabino, usando como justificativa de enxergar-se nele por uma definição do próprio autor do livro quanto à narração da história: “Reingresso no universo mitológico que todo adulto habitou na infância, a projeção do ideal de pureza que só uma criança pode alcançar”. O outro romance é Clarissa, de Érico Veríssimo, encantando-se com a forma que o autor gaúcho retratou o pensamento e perspectiva de vida da menina. É de se acreditar que diversas mulheres, jovens e adultas identificam-se com a euforia e caráter sonhador da protagonista da obra.
            Silvana, por sua vez, adotou como um clássico de sua vida Branca de Neve e os Setes Anões, história infantil que faz com que as crianças saibam lidar com o mal ao longo de sua vida, marcada pela figura da Madrasta Má. Em sua graduação em Letras, teve contato com o texto O Caso do Vestido, de Carlos Drummond de Andrade, revelando que “[..]tive uma interpretação do final do poema bastante pessoal e a forma como minha professora conduziu e entendeu minha posição foram bem marcantes pra mim”.
            Dentre as inúmeras áreas de Literatura que Silvana conheceu ao longo de sua trajetória, apaixonou-se pelas obras em que instigam, de forma psicológica, o inconsciente humano, dando destaque a duas muito especiais de sua vida: Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo e os romances da escritora gaúcha Lya Luft – suas duas principais áreas de pesquisa em meio acadêmico – sendo o primeiro importante no sentido de Silvana ser amante da carga emocional dos personagens e o contexto envolvente da trama do século XIX; já no segundo, identifica-se com toda a consolidação e olhar feminino presente nos romances, e assume refletir-se um pouco com cada uma das protagonistas de Lya Luft, pois, como Silvana afirmou, “Literatura também é identificação, a busca do seu EU”. Há também o seu romance favorito, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, em que elogia e exalta a genialidade literária completa da Literatura Fantástica e todo o universo fictício de Macondo, cidade que se passam todos os acontecimentos do livro.

            A partir de tais perspectivas analisadas, pode-se perceber que a Literatura, independente do meio sociocultural, regional ou histórico em que foi construída, consegue suprir necessidades e carências humanas. O indivíduo consegue uma fuga a um universo paralelo ao que vive diariamente, podendo compreender o cotidiano e conseguir conversar consigo mesmo. Tal motivo justifica o motivo pelo qual inúmeras pessoas, ainda hoje, conseguem se fascinar diante das inúmeras páginas de um livro, pois se espelham por meio dele para compreenderem o que há ao seu redor e também desvendar os enigmas que carregam dentro de si. A partir dos relatos de uma professora que sempre viveu em meio a Literatura, em meio teórico e de lazer, e Neida, que trabalha em meios jurídicos, pode ser concluído que, quando a Literatura é vista de uma perspectiva social e mental, ela é feita e sentida por todos. Os efeitos podem recair em qualquer um, sem precisar ser precisamente um profissional da área humana e intelectual: há de se deixar as obras tocar, sentir e questionar o leitor. Sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário