A
Literatura é um meio capaz de fazer com que, por meio de personagens e enredos
fictícios, o leitor consiga realizar uma espécie de “fuga” do meio no qual está
inserido, para poder compreender, então, a sua própria realidade. Independente
do contexto histórico e social em que foi escrita uma obra, esta possui um
impacto extremo na sociedade atual, e auxilia o indivíduo a compreender o seu
interior, interpretar o meio em que vive. Tal fato pode ser comprovado no fato
de que, numa sociedade, observam-se diferentes raças e caricaturas humanas
apaixonadas pelo hábito de ler, ou seja, não é necessário trabalhar
profissionalmente com a área de Letras para estar ciente de toda a importância
universal que a Literatura fornece. O que realmente vale é compreender e saber
que, dentro de um bom livro, pode existir uma história que nos alimente um
aspecto crítico e, mutuamente, sentimental.
Primeiramente,
ao estabelecer uma conversa com a professora Silvana, a qual é especialista em
Literatura Brasileira, espera-se que a mesma tenha, por puro hábito e prazer,
um livro para apreciar em seus momentos de trabalho e também de lazer. Por
outro lado, foi feito contato com uma trabalhadora do meio jurídico, Neida, que
é Servidora de Justiça Estadual. Esta também é apaixonada por Literatura, porém
a usufrui apenas em seus momentos de lazer, mesmo tendo uma profissão em meio
ao ramo do Direito que exige leitura de outros tipos de textos.
Dentre as perguntas que foram questionadas,
Silvana e Neida contaram como foram os seus primeiros contatos com os livros -
através de uma pessoa, um momento, um texto - e o que as fez adquirir intenso
carinho pelas palavras e histórias. Descobriu-se que ambas as entrevistadas
tiveram fortes influências e contato com os livros quando crianças e através de
pessoas adultas que as incentivaram. Silvana começou a ler os contos de fadas
em livros que eram do seu próprio pai, enquanto Neida encantava-se com uma
pequena biblioteca que existia na escola de Jardim de Infância em que estudou.
A sua professora trazia os livros do pequeno local, onde nenhum aluno podia
frequentar, despertando intensa curiosidade em Neida. Silvana também teve
intimidade com a Literatura na oralidade, com a sua avó paterna, quando ia até
à casa da mesma, afirmando que foi lá onde passou os momentos mais intensos e
inesquecíveis de sua infância. Como Silvana disse em sua entrevista:
“Eram histórias de anjos (e ela jura
até hoje que brincou com um deles), de santas católicas e das suas estripulias
que fazia quando era criança. Até hoje, quando vou visitá-la, peço a ela que
relate a minhas filhas algumas destas inesquecíveis narrativas, cheias de
detalhes que faziam com que eu viajasse através da minha imaginação. Não é à
toa que me apaixonei pela Literatura e segui minha vida profissional, paixão
esta que foi confirmada durante a graduação e a pós-graduação, influenciada
pelos professores maravilhosos que tive. Assim, meu amor pela literatura foi e continua
sendo gradativamente incorporado dentro de mim, de tal forma, que minhas duas
filhas também, sem nenhuma pressão, são apaixonadas por esta arte”.
As duas pessoas
entrevistadas também acreditam no poder da Literatura como uma forma de
compreensão de sua realidade e, ao mesmo tempo, uma espécie de “escape” para
conseguir entender a mesma. A Especialista em Literatura Brasileira afirma que
as pessoas ainda conseguem buscar em meio aos livros suas alegrias e angústias,
a resolução de seus problemas e conflitos sociais para entender um todo e a si
mesmo também. Isso, de fato, consegue ser comprovado quando se vê pessoas que
leem para relaxar; se esquecer de seus conflitos pessoais e tudo que as aflige,
bem como a Literatura também faz companhia a alguém em momentos de solidão. Os
livros possuem a incrível capacidade de compreensão humana, conseguindo, por
meio de uma história de ficção, conversar com o próprio interior do leitor,
fazendo com que o mesmo identifique-se com toda aquela narrativa em que está
mergulhado. Não é de menos que, ao passar a última página de um livro
maravilhoso, o indivíduo sente-se satisfeito e completo: não está sozinho -
está junto ao seu livro, seu grande amigo. Silvana,
que tem uma vida dedicada ao trabalho com adolescentes, usa os valores que
aprendeu com a Literatura para poder compreendê-los melhor e auxiliá-los para
que encontrem a resposta de seus problemas. Neida acredita no poder da
Literatura como formador de conhecimento e senso crítico do indivíduo, para que
ele a use como uma espécie de refúgio quando não consegue interpretar a sua
própria realidade, e assim poder enfrentar os seus medos e frustrações:
“A partir do momento em que inicia um
novo livro, o leitor se depara com uma história a qual não é o protagonista,
que não lhe pertence, onde pode identificar-se com diversas personagens –
vivendo, assim, em dois mundos: o seu e o do livro que lê. Esse “choque de
realidade” é importante para que a pessoa entenda que a sua vida não é como nos
livros”.
Além disso, quanto a
uma importância vista de forma mais coletiva em Literatura, as entrevistadas
concordam e creem no poder de um povo e uma nação conseguirem compreender o
meio no qual estão inseridos, isso quer dizer, através dos livros, analisarem a
história que está presente no momento em sua vida. Contudo, essa espécie de
facilidade de enxergar a sua realidade por meio da leitura só é conquistada se
o hábito de ler se torne um prazer, em que o indivíduo seja motivado ao contato
com a leitura sem ser de forma obrigatória. Caso seja relembrado como Silvana e
Neida se apaixonaram pela Literatura, é percebido que existiu uma inspiração de
pessoas fascinadas por histórias que as incentivaram; todavia, a busca e o
interesse – ter curiosidade de conhecer a biblioteca do colégio, conforme
Neida, ou querer escutar as histórias da avó de Silvana – partiram das duas
mulheres ainda quando crianças.
Por fim, a última pergunta era com
qual clássico as entrevistadas mais se identificavam e qual o motivo de uma
importância singular em suas vidas, que promove comoção, análise crítica e
reflexão. Neida mencionou dois livros, que leu pela primeira vez quando mais
jovem, O Menino no Espelho, de
Fernando Sabino, usando como justificativa de enxergar-se nele por uma
definição do próprio autor do livro quanto à narração da história: “Reingresso no universo mitológico que
todo adulto habitou na infância, a projeção do ideal de pureza que só uma
criança pode alcançar”. O outro romance é Clarissa,
de Érico Veríssimo, encantando-se com a forma que o autor gaúcho retratou o
pensamento e perspectiva de vida da menina. É de se acreditar que diversas
mulheres, jovens e adultas identificam-se com a euforia e caráter sonhador da
protagonista da obra.
Silvana,
por sua vez, adotou como um clássico de sua vida Branca de Neve e os Setes Anões, história infantil que faz com que
as crianças saibam lidar com o mal ao longo de sua vida, marcada pela figura da
Madrasta Má. Em sua graduação em Letras, teve contato com o texto O Caso do Vestido, de Carlos Drummond de
Andrade, revelando que “[..]tive uma
interpretação do final do poema bastante pessoal e a forma como minha
professora conduziu e entendeu minha posição foram bem marcantes pra mim”.
Dentre as inúmeras áreas de
Literatura que Silvana conheceu ao longo de sua trajetória, apaixonou-se pelas
obras em que instigam, de forma psicológica, o inconsciente humano, dando
destaque a duas muito especiais de sua vida: Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo e os romances da escritora
gaúcha Lya Luft – suas duas principais áreas de pesquisa em meio acadêmico –
sendo o primeiro importante no sentido de Silvana ser amante da carga emocional
dos personagens e o contexto envolvente da trama do século XIX; já no segundo,
identifica-se com toda a consolidação e olhar feminino presente nos romances, e
assume refletir-se um pouco com cada uma das protagonistas de Lya Luft, pois,
como Silvana afirmou, “Literatura também é identificação, a busca do seu EU”.
Há também o seu romance favorito, Cem
Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, em que elogia e exalta a
genialidade literária completa da Literatura Fantástica e todo o universo
fictício de Macondo, cidade que se passam todos os acontecimentos do livro.
A partir de tais perspectivas
analisadas, pode-se perceber que a Literatura, independente do meio
sociocultural, regional ou histórico em que foi construída, consegue suprir
necessidades e carências humanas. O indivíduo consegue uma fuga a um universo
paralelo ao que vive diariamente, podendo compreender o cotidiano e conseguir
conversar consigo mesmo. Tal motivo justifica o motivo pelo qual inúmeras
pessoas, ainda hoje, conseguem se fascinar diante das inúmeras páginas de um
livro, pois se espelham por meio dele para compreenderem o que há ao seu redor
e também desvendar os enigmas que carregam dentro de si. A partir dos relatos
de uma professora que sempre viveu em meio a Literatura, em meio teórico e de
lazer, e Neida, que trabalha em meios jurídicos, pode ser concluído que, quando
a Literatura é vista de uma perspectiva social e mental, ela é feita e sentida
por todos. Os efeitos podem recair em qualquer um, sem precisar ser
precisamente um profissional da área humana e intelectual: há de se deixar as
obras tocar, sentir e questionar o leitor. Sempre.
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