sábado, 5 de julho de 2014

Você conhece a sua língua?

A língua é um fenômeno mutável, mas nem sempre é assim considerado. Entenda a variação do português brasileiros na fala, escrita e sociedade.

1ª Versão
Por Aluno 1


Na língua escrita
      O primeiro e mais importante passo para o reconhecimento da língua que é utilizada hoje pelos brasileiros é saber se esses a identificam como tal.
         Para chegarmos a uma conclusão, conversamos com dois falantes da língua portuguesa do Brasil. Um dos participantes tem Ensino Superior completo, portanto, considerado culto. O segundo participante tem apenas o Ensino Médio completo, e ainda não ingressou no Superior.
         Foi mostrado a ambos uma transcrição, na qual há marcas de diálogo: pausas, descontinuidade e um estabelecimento de relação entre o falante e o ouvinte, como o “né”. Eles também leram um trecho d’O Guarani, de José de Alencar. Após a leitura, identificaram a língua que utilizam no cotidiano, os dois entrevistados reconheceram a transcrição como tal.
         A partir dessa identificação, podemos perceber, claramente, que os falantes do português brasileiro, mesmo os cultos, não reconhecem mais a linguagem utilizada por José de Alencar como padrão. Embora, essa ainda seja considerada assim. E, ao serem interrogados sobre como reagiriam ao pronome vós, responderam que seria uma reação de estranhamento “pelo fato de o ‘vós’ ser um pronome de tratamento hoje tão incomum” e “não ser muito utilizado atualmente”. E que o uso dele se daria apenas “por imposição de alguma norma protocolar ou, num sentido oposto, por ironia”.
         Dessa forma, comprovamos a ideia de que o pronome vós caiu em desuso, mas que, em casos específicos ainda se faz necessário, ao dirigir-se a uma autoridade, por exemplo.
O “esquecimento” destes pronomes formais, pode se dar por causa da conjugação que eles exigem. A conjugação verbal do vós e do tu, por exemplo, foram sendo modificadas pelos próprios usuários da língua ao longo dos anos, vemos essas mudanças nos casos do desuso do vós e na “nova” conjugação do tu: ao invés de conjugar-se “tu fazes” passou-se a “tu faz”. E, também, a adição de uma nova primeira pessoa do plural, contando agora com nós e a gente.
Entretanto, se buscarmos em gramáticas normativas por essas mudanças não a encontraremos, pois consideram como língua portuguesa, ainda a linguagem utilizada em O Guarani.

Na língua escrita
Vimos as variações que ocorrem na língua falada. Contudo, há uma diferenciação entre a preferência à leitura da língua escrita. Sobre o texto de Alencar, um dos entrevistados diz: “foi agradável de ler, mesmo sendo com uma linguagem mais antiga e de certo modo, complicada, ao ser comparada com a maneira como falamos hoje” e sobre a transcrição “mesmo sendo composto por uma linguagem mais atual, causou um certo desconforto por não ter continuidade e ter vários tópicos misturados”.
Podemos afirmar, então, que a língua falada de forma escrita não é tão agradável para leitura, se não fosse pela oposição feita pelo outro participante que diz que na transcrição a leitura “flui melhor”, todavia, a preferência dele se define pela temática e não pela forma como foi escrito o texto.
Assim, para a língua escrita é necessário definir textos por gênero, e em cada um deles o recurso de formalidade ou informalidade serão variáveis. Por esse lado, podemos imaginar a língua escrita e falada como semelhantes, pois em ambas, dependendo da circustância ou do gênero textual, a linguagem a ser usada variará.
Neste caso, entraríamos em uma análise complexa da língua escrita. E há diversas formas que ela pode se comportar dentro de um texto, de acordo com diversos fatores, como: o leitor, o objetivo do texto (entretenimento, informação, etc.), o lugar em que será publicado (revista cientifica, jornal, em livro, etc.), o que está sendo relatado (notícia, ficção, etc.). Em cada situação encontraremos difentes manifes- tações da língua.
Portanto, se levarmos em consideração essas interpretações, o valor da transcrição, se cumprir devidamente a sua função, que é manter o texto escrito igual ao oral, igualar-se-ia ao texto de Alencar.

Na sociedade
A língua é peça fundamen-tal da sociedade atual. Todas as novas tecnologias, as propagandas e a globalização deram abertura para novas palavras, como o verbo tuitar, derivado do site Twitter.
Essas novas palavras são produto de uma nova sociedade em um novo contexto, no qual variações da língua forma necessárias. Como dito antes, nem sempre essas mudanças são reconhecidas como parte da língua, por isso que muitas vezes não encontramos em dicionários e gramáticas essas mudanças.
Entretanto, até os próprios falantes da língua podem rejeitar essas variações dando a elas um valor social difente do português considerado formal.
Podemos considerar a língua como um fator histórico-social, e que ela muda conforme a história e a sociedade muda. Bem como a forma com que nos vestimos hoje difere-se da do século XIX, a forma como falamos também mudou. Para isso, basta perceber como era a linguagem de Alencar e como é a nossa, do século XXI.
O participante dito culto é formado em História pela Universidade Federal de Santa Maria, e faz essa observação sobre a língua “A língua é uma expressão cultural historicamente construída e socialmente condicionada. Sendo assim, o valor social das diferentes variedades da língua portuguesa dependem do contexto em que elas foram ou são verificadas”, e completa “um dos possíveis valores sociais das diferentes variedades da língua portuguesa, em minha opinião, reside nas formas em que ela foge do padrão culto”.
A língua, portanto, é condicionada (aos usuários) e só pode ser medida com diferentes valores se houver parâmetros para comparação. Deveríamos pensar, então, em quando esse parâmetro foi estabelecido e por que foi escolhido como tal.
De certa forma o nosso português gramaticalmente correto seria a herança do português de Portugal, contudo, há muito as duas línguas se separaram, e uma não poderia mais servir de parâmetro a outra.
Assim a maneira de falar torna-se uma forma de distinção de classes. É sobre esse fato que comenta o outro participante, quando diz que no texto 1 (de José de Alencar) parece que os falantes são mais intelectualizados, enquanto na transcrição parece que os falantes não estão muito preocupados com a vida, mas sim com o lazer.
Levando em conta que os dois modelos de texto expostos aos entrevistados são gêneros diferentes, podemos compreender que a língua escrita seria formal e restrita aos cultos, enquanto a falada seria informal e de domínio público?
Não. Vimos que a língua não é algo descontextualizado e que não é ela que faz o falante, e sim o contrário. Somos nós, usuários dela que devemos nos adaptar as formas em que ela se manifesta. Seja na oralidade, seja na escrita.
Essa afirmação nos leva a conclusão de que não há um certo ou errado, ou um formal e informal. Existem circunstâncias sociais para as quais existem certas maneiras como a língua se comporta. Ao falar com uma autoridade, não irá dirigir-se a ela como ao seu amigo.
O que podemos perceber é que a língua é a fala, a escrita, mas, sobretudo, instrumento social, feito para e pela sociedade. Assim, quem a usa é quem possui o domínio sobre ela e suas variedades. E é o falante que deve saber usá-la de acordo com as condições lhe empostas pelas circunstâncias sociais. 

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