A língua é um fenômeno
mutável, mas nem sempre é assim considerado. Entenda a variação do português
brasileiros na fala, escrita e sociedade.
1ª
Versão
Por Aluno 1
Na língua escrita
O primeiro e mais importante passo
para o reconhecimento da língua que é utilizada hoje pelos brasileiros é saber
se esses a identificam como tal.
Para
chegarmos a uma conclusão, conversamos com dois falantes da língua portuguesa
do Brasil. Um dos participantes tem Ensino Superior completo, portanto,
considerado culto. O segundo participante tem apenas o Ensino Médio completo, e
ainda não ingressou no Superior.
Foi
mostrado a ambos uma transcrição, na qual há marcas de diálogo: pausas,
descontinuidade e um estabelecimento de relação entre o falante e o ouvinte,
como o “né”. Eles também leram um trecho d’O
Guarani, de José de Alencar. Após a leitura, identificaram a língua que
utilizam no cotidiano, os dois entrevistados reconheceram a transcrição como
tal.
A
partir dessa identificação, podemos perceber, claramente, que os falantes do
português brasileiro, mesmo os cultos, não reconhecem mais a linguagem
utilizada por José de Alencar como padrão. Embora, essa ainda seja considerada
assim. E, ao serem interrogados sobre como reagiriam ao pronome vós, responderam que seria uma reação de
estranhamento “pelo fato de o ‘vós’ ser um pronome de tratamento hoje tão
incomum” e “não ser
muito utilizado atualmente”. E que o uso dele se daria apenas “por imposição de alguma norma protocolar ou, num
sentido oposto, por ironia”.
Dessa
forma, comprovamos a ideia de que o pronome vós
caiu em desuso, mas que, em casos específicos ainda se faz necessário, ao
dirigir-se a uma autoridade, por exemplo.
O “esquecimento”
destes pronomes formais, pode se dar
por causa da conjugação que eles exigem. A conjugação verbal do vós e do tu, por exemplo, foram sendo modificadas pelos próprios usuários da
língua ao longo dos anos, vemos essas mudanças nos casos do desuso do vós e na “nova” conjugação do tu: ao invés de conjugar-se “tu fazes”
passou-se a “tu faz”. E, também, a adição de uma nova primeira pessoa do
plural, contando agora com nós e a gente.
Entretanto, se
buscarmos em gramáticas normativas por essas mudanças não a encontraremos, pois
consideram como língua portuguesa, ainda a linguagem utilizada em O Guarani.
Na língua
escrita
Vimos as variações que
ocorrem na língua falada. Contudo, há uma diferenciação entre a preferência à
leitura da língua escrita. Sobre o texto de Alencar, um dos entrevistados diz: “foi
agradável de ler, mesmo sendo com uma linguagem mais antiga e de certo modo,
complicada, ao ser comparada com a maneira como falamos hoje” e sobre a
transcrição “mesmo sendo composto por uma linguagem mais atual, causou um certo
desconforto por não ter continuidade e ter vários tópicos misturados”.
Podemos afirmar,
então, que a língua falada de forma escrita não é tão agradável para leitura,
se não fosse pela oposição feita pelo outro participante que diz que na
transcrição a leitura “flui melhor”, todavia, a preferência dele se define pela
temática e não pela forma como foi escrito o texto.
Assim,
para a língua escrita é necessário definir textos por gênero, e em cada um
deles o recurso de formalidade ou informalidade serão variáveis. Por esse lado,
podemos imaginar a língua escrita e falada como semelhantes, pois em ambas,
dependendo da circustância ou do gênero textual, a linguagem a ser usada
variará.
Neste
caso, entraríamos em uma análise complexa da língua escrita. E há diversas
formas que ela pode se comportar dentro de um texto, de acordo com diversos
fatores, como: o leitor, o objetivo do texto (entretenimento, informação,
etc.), o lugar em que será publicado (revista cientifica, jornal, em livro,
etc.), o que está sendo relatado (notícia, ficção, etc.). Em cada situação
encontraremos difentes manifes- tações da língua.
Portanto,
se levarmos em consideração essas interpretações, o valor da transcrição, se cumprir
devidamente a sua função, que é manter o texto escrito igual ao oral,
igualar-se-ia ao texto de Alencar.
Na sociedade
A língua
é peça fundamen-tal da sociedade atual. Todas as novas tecnologias, as
propagandas e a globalização deram abertura para novas palavras, como o verbo
tuitar, derivado do site Twitter.
Essas
novas palavras são produto de uma nova sociedade em um novo contexto, no qual
variações da língua forma necessárias. Como dito antes, nem sempre essas
mudanças são reconhecidas como parte da língua, por isso que muitas vezes não
encontramos em dicionários e gramáticas essas mudanças.
Entretanto,
até os próprios falantes da língua podem rejeitar essas variações dando a elas
um valor social difente do português considerado formal.
Podemos
considerar a língua como um fator histórico-social, e que ela muda conforme a
história e a sociedade muda. Bem como a forma com que nos vestimos hoje
difere-se da do século XIX, a forma como falamos também mudou. Para isso, basta
perceber como era a linguagem de Alencar e como é a nossa, do século XXI.
O
participante dito culto é formado em História pela Universidade Federal de
Santa Maria, e faz essa observação sobre a língua “A língua é uma expressão cultural historicamente
construída e socialmente condicionada. Sendo assim, o valor social das
diferentes variedades da língua portuguesa dependem do contexto em que elas
foram ou são verificadas”, e completa “um dos possíveis
valores sociais das diferentes variedades da língua portuguesa, em minha
opinião, reside nas formas em que ela foge do padrão culto”.
A língua, portanto, é condicionada (aos usuários) e
só pode ser medida com diferentes valores se houver parâmetros para comparação.
Deveríamos pensar, então, em quando esse parâmetro foi estabelecido e por que
foi escolhido como tal.
De certa forma o
nosso português gramaticalmente correto seria a herança do português de
Portugal, contudo, há muito as duas línguas se separaram, e uma não poderia
mais servir de parâmetro a outra.
Assim a maneira
de falar torna-se uma forma de distinção de classes. É sobre esse fato que
comenta o outro participante, quando diz que no texto 1 (de José de Alencar)
parece que os falantes são mais intelectualizados, enquanto na transcrição
parece que os falantes não estão muito preocupados com a vida, mas sim com o
lazer.
Levando em conta
que os dois modelos de texto expostos aos entrevistados são gêneros diferentes,
podemos compreender que a língua escrita seria formal e restrita aos cultos,
enquanto a falada seria informal e de domínio público?
Não. Vimos que a
língua não é algo descontextualizado e que não é ela que faz o falante, e sim o
contrário. Somos nós, usuários dela que devemos nos adaptar as formas em que
ela se manifesta. Seja na oralidade, seja na escrita.
Essa afirmação
nos leva a conclusão de que não há um certo ou errado, ou um formal e informal.
Existem circunstâncias sociais para as quais existem certas maneiras como a
língua se comporta. Ao falar com uma autoridade, não irá dirigir-se a ela como
ao seu amigo.
O que podemos
perceber é que a língua é a fala, a escrita, mas, sobretudo, instrumento
social, feito para e pela sociedade. Assim, quem a usa é quem possui o domínio
sobre ela e suas variedades. E é o falante que deve saber usá-la de acordo com
as condições lhe empostas pelas circunstâncias sociais.
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