Aluno 83
Reescrita
Sei que todos já ouviram a metáfora de
que na vida temos duas estradas que devemos escolher, uma leva para o “bem”, e
a outra para o “mal”, mas na minha vida, e hoje com a bagagem que tenho ao
longo dos meus dezenove anos, não posso dizer que existe apenas duas, e que
nenhuma das várias que segui levam para um bem ou para mal.
A
primeira estrada seguida é a de sempre, nascer, crescer, aprender, e quase
todos tomamos a mesma, mas ao longo do meu crescimento pessoal quis trilhar
estradas diferentes da maioria.
A
busca de uma espiritualidade sempre esteve presente na minha vida, nem sempre
diretamente, mas em meu subconsciente eu sabia que “isto” aqui não era o fim.
Como fui criada pela minha avó, que digamos de passagem, também teve tendência
para acreditar em praticamente tudo, e ao mesmo tempo não acreditar, fui levada
por um mesmo caminho. Tomei estradas que me levaram à Centros Umbandistas, que
pessoalmente não me agradaram muito, apesar de que desde já o esoterismo sempre
foi de meu grande interesse.
Aos
dez anos todas minhas amigas entraram para a primeira comunhão, e como minha
avó dizia que era importante para uma pessoa batizada pelo catolicismo seguir
os ritos, acabei indo. As aulas eram divertidas e era ótimo ver minhas amigas
em outro horário que não fosse a aula. Mas no dia de minha comunhão eu ainda me
perguntava “que diabos eu estou fazendo aqui?”.
Seguindo
a estrada para começar uma crisma, brutalmente virei na primeira esquina que
encontrei, e passei um tempo em uma rua deserta, em que ouvia sons e vozes, mas
nada me agradava aos ouvidos, e muitos chegaram a me assustar.
Sempre
influenciada pelas pessoas ao meu redor, uma vizinha que era amiga da minha avó
estava levando ela para um Centro Espírita, e dona Maria Leovir disse que eu
precisava de uma religião para acreditar, então lá fui eu, estudar o
espiritismo. Sabe quando você vê uma luz no final do túnel, mas não consegue
enxergar se ela está muito longe de você, então, era assim que eu me sentia em
relação ao espiritismo, eu estava quase lá, mas acabei deixando para trás.
Chegando
na adolescência, como de praxe, muitos dizem que não acreditam em nada, eu
entrei “na onda” instigada pelas minhas “amigas” da época, que riam por eu
tentar ir em uma igreja ou centro espírita. Mesmo assim minha mãe se converteu
à Igreja Evangélica, e comecei a ir aos cultos com ela, tentei de tudo para
realmente ACREDITAR no que o pastor falava, mas esta estrada me era ainda mais
obscura, ainda mais do que rezar as aves marias.
Chega
em um ponto que você cansa de tentar, eu estava assim. Exausta de não acreditar
em nada, e deixei de acreditar em mim mesma. Eu já havia passado por tanta
coisa que uma pessoa de dezesseis anos geralmente não passa, que mais parecia
uma velha ranzinza.
Sempre
fui uma pessoa que gostava de mudar, nunca tive problemas, mudei de cabelo,
mudei de centenas de vezes de escolas, mudei em várias cidades, mudei de
estilo, mudei de personalidade, chegando em um ponto da estrada que tudo era
turvo e parecia que eu estava em um filme de apocalipse zumbi, não estava
satisfeita com nenhuma dessas “Annas Paulas”.
Não
lembro ao certo como foi que encontrei este DVD na gaveta de casa, lembro que
uma amiga da minha mãe levou para minha avó ver, e nunca mais foi buscar, ainda
agradeço a esta abençoada pessoa que ajudou a mudar minha vida. Enfim, este DVD
era do “The Secret”, vocês devem pensar “sim aquele livro de autoajuda”, mas
ele foi o final daquela estrada obscura e turva, ele me apresentou ao SIM, ao
positivismo, ao EU QUERO EU POSSO. E pela primeira vez na vida, instigada pela
minha própria curiosidade, comecei a frequentar a Seicho-No-Ie.
Que
diabo é a Seicho-No-Ie? É uma filosofia positivista começada no Japão pelo
professor Taniguchi. Logo na primeira reunião, toda a palestra que presenciei
parecia que tinha sido feita para mim, eu já conhecia uma base, mas agora era
apresentada para A verdade da vida. A meditação Shinsokan, o lema de “Gratidão
Gera Milagres”, começaram a fazer sentido. De um dia para outro a luz do final
do túnel cegava meus olhos, e fui parar em uma bela estrada com muitas flores e
pássaros cantarolando.
Mas
eu, que sempre fui uma pessoa negativa, acabei tendo naturais dificuldades para
colocar em prática todos os ensinamentos da Seicho. Foi difícil para mim, ter
de contar à minha avó que eu não acreditava mais em um CÉU e um INFERNO, que
essa vida é sim para ser feliz, e que se o Criador nos deu o dom da vida, nós
tínhamos plena condição de fazermos dela o que quisermos, e que o bem e o mal
não eram mais estradas e sim condições que nós mesmos nos colocávamos julgando
de uma maneira bem pessoal, o bem e o mal para mim, hoje são coisas distintas
do que as pessoas pensam.
Assim
que entrei na Seicho decidi que iria viver plenamente na gratidão e ser feliz.
Abandonei o curso técnico que eu fazia, e que me consumia em decepções, comecei
a trabalhar, e voltei a gostar de estudar, dessa vez numa escola estadual.
Obviamente toda minha família julgava essa mudança coisa daquela Seicho-No-Ie,
que desvirtuava minha filha, neta, sobrinha. Mas eu sabia que aquilo era o
certo, e nada mais importava. Virei vegetariana, meditava todos os dias e
aquela foi uma época em que eu era muito contente comigo mesma.
Mas
existe um mundo espiritual ao nosso redor, e o negativismo que vinha de minha
casa, acabou por derrubar meus ânimos. A essa altura minha avó começou a se
tornar católica, e ela queria que eu seguisse uma religião “certa”, acabei me
afastando um pouco da filosofia.
Quando
eu esboçava uma reação para voltar à Seicho, eu estava dobrando a esquina e já
ouvia os passáros, uma bicicleta veloz e assassina me atropelou, caída no chão
e me vendo em pedaços, olhei para o causador daquele acidente, e hoje lembro
bem de ver meu rosto, e nele um sorriso tenebroso e que para mim parecia algo maligno,
mas não aceitava que eu tivesse causado aquilo em mim, eu procurei voltar à
Igreja e encontrar um INIMIGO que tivesse feito aquilo comigo, mas no fundo eu
sempre soube que não existe, e eu sou a provocadora de todas as coisas que me
acontecem, as boas, as ruins, são tudo parte da vida, e do que nós queremos
para nós mesmos.
Hoje
me encontro juntando os pedaços e os remendando. Aos poucos começo a sentir
verdadeira gratidão pela minha vida novamente, afinal de contas, eu estou viva,
e devo valer a pena estar aqui. Não voltei às reuniões da Seicho, mas quase
todos os dias faço uma pequena meditação íntima, e volto a ver a luz no fim do
túnel. Estou conversando com aquela Anna que me despedaçou e a convencendo de
que aquela bicicleta, quem deve dirigir sou eu, e voltar a trilhar o caminho da
luz.
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