1 Versão
Aluno 99
Há
bebidas que servem para qualquer época do ano, como água. O chimarrão, por sua
vez, inclui-se nessa lista também. Pode estar a fazer um calor de 40º ou um
frio de 6º: haverá alguém se derretendo ou congelando-se com uma cuia na mão.
Queres ver chegar em casa, em uma quinta-feira, o dia que tu passas mais tempo
na universidade, doido de frio e com a boca seca por um amargo; aliás, isso é
estranho: a humanidade que tanto foge dos “amargores da vida” como dor
cotovelo, dor de cabeça ou qualquer outro tipo de dor, não foge do amargo de um
mate, e, nem precisa ser lá tão bairrista para tomar tal posição.
Para saciar a vontade e exterminar
com o frio, a criatura aquece a água no ponto de banho quentinho. Se aquecer
demais fica uma porcaria e tu podes morrer com uma queimadura de quarto grau,
no mínimo. Todavia, o tempo não passa enquanto a chaleira sobre fogão não apita
ou então, a elétrica, outra alternativa para esquentar água, não borbulha. Uma,
duas, três batidas com o pé no chão, um cruzamento de braços e nada, mas está
quase lá e já começas a pensar em qual cuia irás escolher. Tanto faz, qualquer
uma, pode ser aquela de porcelana que parece uma caneca ou um vaso com duzentos anos da sala da tua avó; ou
aquela tradicional, de porongo que lembra uma madeira em formato de copo
americano, aqueles de boteco.
Um chiado e, finalmente, o barulho
de líquido sendo despejado na garrafa emana um cheiro de pastilha para dor de
garganta ao encontrar-se com as lascas de gengibre que estão no fundo. O vapor
que sai aquece as mãos e embaça as lentes dos óculos: quase lá, a hora do
momento sublime aproxima-se.
Um pouquinho de água para lavar a
cuia: vai a tradicional mesmo, não há visita nenhuma em casa, vais te aparecer
para quem? E tu só queres um chimarrão de uma vez, e, porongo é porongo, é do
povão. Uma, duas, três colheres... até preencher até a silhueta do cálice
moreno com erva-mate. Uma inclinada para a esquerda, um montinho daquele farelo
verde se forma colando um pouco em seus dedos. A água quente com um pouquinho
de fria, para não queimar o chá, preenche um pouco do recipiente. Por
conseguinte, a bomba é posta em seu lugar – também, sempre à esquerda. É
colocado uma meia dúzia de frescuras: mais chás, porque acreditas que o chá tal
te dará a cintura da Sophia Loren e mais aquela outra folha que nem sabes para
que serve, mas coloca também, se bem não fará, mal não também, diria a mãe. E a
saga para o Chimarrão; logo, um sorriso de contentamento ilumina o rosto.
Com a térmica debaixo do braço, cuia
na mão, procura-se por uma poltrona que abrace suas costas depois de um longo
dia. Abraça as costas a cadeira e o cálice as mãos. A terra deixa de girar em
torno do sol: gira em torno da cuia mesmo.
Depois do primeiro gole nada mais é
amargo, já acostumaste com o gosto. A cada repetição, a sensação de calor no
peito aumenta, enquanto as pontas dos dedos gelados vão aquecendo-se e o rosto
gélido vê-se corando gradualmente. Tudo em ordem e contigo tens uma companhia
quentinha e silenciosa para pensar nas qualidades discursivas do Guedes ou na
proposta três, que também, já nem são mais tão amargas assim, já possuem o
mesmo aconchego da cadeira e do chimarrão até a professora lê-la, claro.
Um gole, mais outro e outro, até que
se ouve um pequeno ruído: acabou. No entanto, é só enchê-lo novamente e o
processo se repete: um gole, mais outro e mais um “beijo em lábios de prata”
que é roubado de si próprio; mãos quentinhas, o Guedes, o texto e o amargo que
não é amargo... chimarreando, vivemos: entre barulhos, féis doces, transbordes,
amoras, calores e reescritas.
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